Paulo Lema: «Qualquer pessoa pode viver na Galiza sem saber galego, e é um problema»

«Quando começas a difundir ideias como a de que por sermos galegos temos uma vantagem linguística de que carecem outros povos e territórios... isso pode fazer mudar muitos esquemas mentais»

Sexta, 21 Dezembro 2012 00:00

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PGL - Paulo Lema nasceu em Damil, concelho de Begonte, sendo Pablo. Filólogo, foi um furibundo anti-reintegracionista, é leitor de língua e literaturas galegas em Euskádi, sociedade da que tem inveja sã e acha que a chave do avanço social do reintegracionismo está no espaço do discurso e os quadros mentais.

- Paulo Lema nasceu num contexto monolingue em galego e começou muito cedo a militar conscientemente pola defesa da língua e da cultura, com a transformação de Pablo em Paulo.

Pois sim, a minha consciência galeguista, nacionalista ou como se lhe quiser chamar, começou muito cedo, por volta dos 12 ou 13 anos, embora não saiba muito bem explicar como nem de que jeito, pois no meu entorno não existiam figuras procedentes de âmbitos culturais ou políticos que pudessem tê-lo propiciado. Eu gostava muitíssimo de ler e a essa idade comecei a devorar todos os clássicos da nossa literatura: Rosalia, Pondal, Castelao, Fole... Também a essa idade comecei a assinar nas provas e nos trabalhos escolares como "Paulo", e quando atingi a maioria de idade decidi fazer oficial essa mudança de nome.

- Paulo Lema tem um “passado escuro” como anti-reintegracionista furibundo. Lembras aquela época?

Lembro. Aquele anti-reintegracionismo era em boa medida produto de um preconceito que ainda sofrem muitos galegos, o de ver o português como uma ameaça para a supervivência do galego, e o reintegracionismo como um projeto de "lusificação" ou mesmo "lisboetização" do nosso idioma.

- Que facto(s) te motivaram a sair do armário e deixar sair esse reintegracionista que todos levamos dentro?

Há algo mais de um ano, enquanto jantava com o Valentim Fagim num curso de verão, disse-lhe: "Tu tiveste a culpa de tudo!". E em certo jeito, foi assim, pois o seu livro O galego (im)possível fez-me refletir sobre questões que até aquele momento eu nunca me tinha colocado. Também ajudaram os debates e conversações mais ou menos intermináveis que tive com pessoas como o Gerardo Uz e outras, e as viagens que fiz a lugares como Braga ou Lisboa, onde realizei um breve estágio de investigação. Lá, em Portugal, é certo que há muitas pessoas que aproveitam a mais mínima ocasião para che falar em espanhol, pessoas que ainda têm visões muito pobres da Galiza e o galego –e isso, cumpre dizê-lo, é fundamentalmente culpa nossa, dos próprios galegos–, mas também é verdade que tomas consciência das possibilidades do teu idioma, de que a nossa língua, como dizia o Castelao, floresce em Portugal, e neste século que está a começar muito provavelmente florescerá com mais vigor ainda no Brasil. E tudo isso implica uma mudança brutal nos paradigmas com que estamos afeitos a entender a nossa língua e a sua –a nossa– posição no mundo.

Enfim, digamos que a minha transição para o reintegracionismo foi uma mudança progressiva, com só algum momento traumático ao começo, ao descobrir que a história nem é tão simples como che tinham dito. Foi também um processo que começou pelas ideias, quer dizer, por tudo o que tem a ver com a perceção da língua, e que a seguir foi plasmando-se também no âmbito da escrita, embora o fizesse devagar. De facto, os meus amigos podem dar fé dos muitos ensaios normativos que realizei durante a minha época universitária. Durante um par de anos, até cheguei a copiar os apontamentos numa espécie de normativa própria, como suponho que terão feito tantos outros alunos e alunas de Filologia Galega...

- Paulo é um excelente aluno que colecionou matrículas até conseguir o Prémio Extraordinário de Fim de Carreira. Como lembras a tua passagem por Filologia? E como bolseiro do ILG?

Pois como épocas da minha vida em que aprendi muitíssimo, para o bom e para o mau, e nas quais sobretudo fiz muitas boas amizades que felizmente ainda conservo.

- A tua tese intitula-se «A toponimia das comarcas de Bergantiños, Fisterra, Soneira e Xallas na documentación do Tombo de Toxos Outos (séculos XII-XIV)». Que foi o que mais te surpreendeu e gostavas de compartilhar com os leitores/as do PGL?

Não sei se se pode dizer que me tenha surpreendido, mas com certeza que me fascinou a profundidade e a complexidade de uma disciplina como a toponímia, amiúde injustamente injuriada e subvalorizada por pessoas que, sem maior conhecimento da questão, a consideram algo obsoleto ou próprio de eruditos locais.

Na minha tese tomei como base uma coleção documental concreta, o Tombo de Tojos Outos, e vaziei toda a sua toponímia para a seguir centrar-me nessas quatro comarcas (Bergantinhos, Fisterra, Soneira e Jalhas), por serem as mais próximas a Compostela (cidade onde eu morava daquela) e por unirem-me a elas vínculos afetivos e familiares, também há que dizê-lo! Não me limitei somente ao clássico estudo etimológico como também tentei –na medida das minhas possibilidades e da minha competência na matéria– uma aproximação um bocadinho mais global à questão, focando a toponímia como um sistema vivo e operativo, no qual interatuam elementos estritamente linguísticos com outros de natureza extra-linguística. Por exemplo, dediquei bastante tempo a identificar o referente geográfico de elementos (sobretudo montes e correntes fluviais) que na documentação medieval aparecem sob uma denominação que, posteriormente, foi substituída por uma outra diferente que prevaleceu até a atualidade. Quando consegues realizar essa identificação com sucesso, a satisfação é enorme!

Seja como for, sou consciente de que uma tese destas caraterísticas exigiria ainda vários anos mais de trabalho e de esforço dos quais, infelizmente, eu não dispunha.

- Estás a trabalhar como professor de língua e literatura galegas em Bilbau. Que descobriste tu e que descobriram os teus alunos e alunas?

Levo quase ano e meio a trabalhar como professor leitor de língua e literatura galegas na Universidade de Deusto, e julgo a experiência muito positiva em muitos sentidos. Uma das cousas que mais gratamente me surpreendeu foi o respeito e a tolerância com as línguas que exibe aqui a gente em geral –embora sempre possam existir, e de facto existem, posições muito mais hostis. Inclusive deteto uma maior permeabilidade nas pessoas à hora de assimilarem discursos ou questões que na Galiza seriam seguramente objeto de polémicas mais ou menos intensas. Aliás, não deixa de ser curioso que o facto de ser professor de galego no estrangeiro suscite mais estranheza e até desconcerto em pessoas galegas que no próprio País Basco. Também me chamou a atenção a grande simpatia dos bascos com a Galiza, com os galegos e com a cultura galega em geral, provavelmente devido à forte presença galega em lugares como Barakaldo, Ermua, Trintxerpe ou o próprio Bilbau.

O certo é que, sem ser a minha intenção dar uma visão idílica ou irreal do País Basco, a minha perceção é que a ideia que tanto repetimos é certa, quer dizer, há anos-luz de distância entre este território e a Galiza, somos como o dia e a noite. Quando vou à casa, somente tenho de dar uma vista de olhos à programação da Televisión de Galicia ou à imprensa escrita para dar-me conta de até que ponto isso é assim, até que extremos nos desprezamos a nós próprios e nos sentimos cómodos com os nossos limites mentais de colónia. O País Basco é um outro mundo, falamos de uma cultura auto-centrada –algo com que na Galiza atual não podemos nem sequer sonhar–, com uma total ou quase total soberania "de pensamento", como diria Castelao, e orgulhosa do seu até extremos que, vistos de fora, podem parecer às vezes algo caricaturescos, mas que numa pessoa como eu despertam uma inveja muito sã. Aqui é impensável sintonizar a ETB numa sexta-feira à noite e ver Sara Montiel ou Maria del Monte em horário de máxima audiência...

Quanto ao estudantado, cujo número decresceu bastante por mor dos novos planos de estudo, quero pensar que lhes estou a descobrir aspetos da literatura e da cultura galegas que não conheciam, por estarem ocultos detrás de muitos preconceitos e tópicos que são, infelizmente, os que constituem a imagem mais difundida da Galiza além das nossas fronteiras. Não esqueçamos que, como consequência lógica e esperável do péssimo trabalho de exportação da nossa imagem levado a cabo pelas nossas instituições desde há anos,  para muita gente –galegos inclusive!– a Galiza  é apenas marisco, caminhos jacobeus e vinho. Gosto de pensar que o meu trabalho, com todas as suas carências e limitações –que sem dúvida serão muitas–, está a contribuir para que os meus alunos e alunas se aproximem melhor da nossa diversidade cultural e literária, do nosso potencial linguístico, da nossa profundidade histórica etc.

- Que visão tinhas da AGAL, por que tornas-te sócio e que esperas da associação?

Devo reconhecer que, ao começo, tanto a AGAL como o reintegracionismo em geral me pareciam um bocadinho elitistas e com um projeto e um discurso que dificilmente poderiam implementar-se na sociedade galega. Obviamente, essa perceção pessoal mudou com o tempo, como também mudou em muitos sentidos a própria estratégia do reintegracionismo; prova disso é a implantação que está a conseguir em setores em que há uns anos seria impensável. Somente espero que esse progresso continue, porque qualquer projeto em benefício da nossa língua é bem-vindo nestes tempos.

- Por onde pensas que deve transitar a estratégia luso-brasileira para avançar socialmente?

Há que mover os quadros, os quadros mentais. Acho que a maior novidade que achega essa estratégia dá-se no terreno das ideias, das perceções da língua. Em minha opinião, o principal problema do galego é que, na atualidade, não é útil: qualquer pessoa pode viver na Galiza tranquilamente sem saber nem meia palavra de galego porque, no fim de contas, o nosso idioma é percebido como um dialeto doméstico, que não serve enquanto passas o Padornelo (pois os galegos seguimos a pensar obsessivamente que o mundo começa no Padornelo...). Mas, quando começas a difundir ideias como a de que por sermos galegos temos uma vantagem linguística de que carecem outros povos e territórios, e que essa vantagem radica precisamente em que falamos galego... isso pode fazer mudar muitos esquemas mentais, pode fazer-lhe ver a muita gente que o mundo também começa em Valença do Minho ou em Monção, e que o "dialeto doméstico" é em realidade um idioma com milhões de utentes em todo o planeta.

Um outro repto que tem por diante o reintegracionismo tem a ver com a conciliação dessa estratégia "pragmática", por assim dizê-lo, com um discurso em favor da língua que se nutriu fundamentalmente de argumentos de tipo identitário e que tem sido o que maior penetração e sucesso conseguiu entre os setores que defendem o nosso idioma.

- Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Gostava mesmo de ser otimista, mas infelizmente o rumo que estão a tomar as coisas nos últimos anos não me deixa sê-lo. São muitas forças a agirem contra nós, e o pior é que essas forças moram na própria Galiza –de facto, governam-na...–, que o seu discurso se transmite e difunde de jeito muito mais eficaz do que o nosso e que muitos galegos e galegas sintonizam bem, consciente ou inconscientemente, com essas palavas de ordem. Mas, se me perguntardes por gostos e desejos, conformaria-me com que se revertesse o processo de castelhanização do galego –cada vez mais explícito–, com que o alarmante decrescimento de galego-falantes entre a população mais jovem se detivesse, com que o nosso idioma conservasse como mínimo a sua já muito precária presença atual no ensino e com que muitos –oxalá todos!– preconceitos (pseudo)linguísticos ainda vigorantes em amplos setores sociais ficassem desativados de vez. Que não tenha de escutar mais uma vez de boca de um galego-falante que "nos querem meter o galego até polos olhos", ou que "o galego é uma língua muito pobre, e ainda por acima difícil de aprender"...

 

Conhecendo Paulo


  • Um sítio web: Capítulo 0
  • Um invento: A fotografia
  • Uma música: A(s) música(s) que costuma(m) ser chamada(s) "de raiz"
  • Um livro: Qualquer um do Álvaro Cunqueiro
  • Um facto histórico: O entusiasmo daqueles galeguistas de primeiros do século XX
  • Um prato na mesa: Sou de muito bom dente, mas por dizer somente um: polvo à feira e/ou churrasco de porco
  • Um desporto: Futebol
  • Um filme: Caminho à perdição, do Sam Mendes
  • Uma maravilha: O sofá depois de jantar, numa tarde solarenga de inverno
  • Além de galego/a: Atlântico (de interior)