Paulo M. Outeiro, fotógrafo profissional

"Depois de tantas gerações falando, guardando e lutando polo nosso idioma nom serei eu o elo que venha a rachar"

Sexta, 01 Março 2013 00:00

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PGL - Paulo Manuel Outeiro Loureiro nasceu sendo Pablo, tivo no seu avó um irmao, morou na Catalunha e ficou marcado por este facto, é fam da Imperdível e dos livros e quer aprender dos que conseguiram cultivar sem travas o galego.

Paulo nasceu em Ponte Vedra e, apesar de os pais serem galego-falantes, foi educado em castelhano. Como foi o teu contacto com o galego?

A minha relaçom com o galego foi espontánea e natural devido a que meus pais fugiam e fogem logo que puderem à minha aldeia, Rebordelo, onde ainda hoje, por sorte, é o galego a língua da gente, da pouquinha que resta. No entanto, se a alguém é devido que o galego seja a minha língua mae e sobretudo o meu avô, que depois da morte da minha avó veu viver connosco para a cidade e tornou-se o meu irmao. Daquela eu tinha cinco anos. Por sorte nom lembro quando comecei a falar galego nem castelhano, simplesmente sempre pudem falar ambos.

Também houbo algo que para mim significou muito, o primeiro livro que lim de pequeno, aquele que de verdade fijo que amasse a leitura. Portanto, “Balbino” também tem a sua porçom de culpa.

A maior parte das tuas redes e espaços fôrom em castelhano: escola, universidade, trabalho. Por que te tornaste galego-falante?

Bom, é certo que na escola, em Marim, quando eu estudei, as classes em galego eram metade aproximadamente ainda que os companheiros galego falantes bem podiam contar-se, nom com os dedos mas com um só dedo, e nom era eu. E a responsabilidade era nossa pois todos sabíamos falar, bem podíamos falar em casa ou na aldeia, mas nom o fazíamos entre nós salvo pequenas exceções. Na universidade a cousa foi para pior, só lembro umha matéria que se dera em galego mais por sorte todo o movimento reivindicativo estudantil falava e se expressava em galego. A minha experiência profissional na Galiza é curta, mas o tempo que estive trabalhando como pesquisador na universidade parecia-se muito com a experiência como estudante; o castelhano era predominante.

Há quem afirme que todo galego, toda galega, devia passar uns tempos na Catalunha ou nalgum país lusófono. Concordas?

Totalmente, nos anos vividos em Catalunha pudem observar, escutar e sentir o que é o respeito, defesa e amor pela cultura própria. Nom há complexo de inferioridade por nenhumha parte, talvez o sentimento real é o oposto, orgulho. Escutas a rapazinhos, jovens, adultos e idosos a falar entre eles catalám e o sentimento que te abrange é de inveja e culpa, a obrigaçom de ser umha parte ativa na mudança necessária do nosso povo. Depois de tantas gerações falando, guardando e lutando polo nosso idioma nom serei eu o elo que venha a rachar.

Paulo estudou biologia ambiental mas agora é fotógrafo profissional o que o tem levado a trabalhar em Nova Iorque e Barcelona. Como se vê a Galiza na distância?

A morrinha, a nossa saudade é rabuda de levar. Parece um estereótipo mais do que umha realidade, mas nom é assim. A paisagem, a terra, metida no fundo corpo e que nom se manifesta até que fica atrás. O motivo é claro para mim ... que lembramos quando estamos longe? a nossa rua? o edifício em que vivemos? Nunca. Jamais quando penso na terra e nos meus a mente se dirige ao asfalto, vai ligeira a percorrer as carvalheiras, corredoiras, a eira de pedra, o canastro que usava de esconderijo, as frias águas do Almofrei nos pés enquanto estou sentado na velha ponte de pedra à sombra dos bidueiros … A morrinha é eminentemente rural, natural, própria da terra.

A terra e nosso jeito de ser, porque galegas e galegos temos língua, cultura e nosso jeito de ver e viver o mundo, som os dous grandes pesos que se guardam no peito.

Qual foi o fio, ou os fios, que te levárom a conectar com a estratégia luso-brasileira para a nossa língua?

A verdade é que nom lembro o momento exato. Acho que é algo a que já acordei há muito tempo mas nunca tinha dado o passo a escrever e "re-galeguizar" meu galego. Visitar o norte de Portugal, ouvir bossa nova, lançar-me a ler livros em português... nesse momento já nom se pode fazer mais do que aceitar o óbvio, galego e português ja nom som irmaos, som o mesmo. Depois chega o momento, o triste momento, de compreender que a norma RAG é a do “portuñol”.

Por onde crês que devemos transitar para que esta estratégia alcance o êxito social e forme parte do “sentido comum”?

A criaçom de Loja de livros em português como imperdível, ciranda, suévia ..., com a presença de autores de toda a lusofonia, incluindo os galegos com certeza, e comercializar as novidades traduzidas para o português, para mim isso é muito importante. Fomentar o uso do português da Galiza no uso comercial e mostrar as vantagens que representaria. Aproximaçom e colaborações culturais com a lusofonia a nível literário, musical e artístico. Atividades de informações lúdicas e abertas a toda a populaçom, e certamente umha grande presença na web.

Paulo Outeiro era até há pouco tempo Pablo Otero. Como foi o processo? Como foi recebido no teu ambiente social

A reaçom foi muito boa, levava já muito tempo com a ideia na mente. A única pessoa que parecia pular para que nom o fizesse foi umha funcionária do registo civil, que fez questom dizendo que poderia causar muitos problemas e que o mais seguro era que me arrependesse... nom acertou nenhumha. Eu digo a todo mundo que o faça, ao meu ver é umha declaraçom de intenções.

Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a associares-te e que esperas da associaçom?

Fai já muitos anos que estou a seguir o Portal Galego da Língua, e sempre o percebim como a única alternativa visível, ativa e possível perante o estabelecimento da degradada norma RAG-ILG. Associei-me de bem longe com a simples intençom de ser coerente comigo mesmo, e agora que hei de voltar a terra poder ser um parceiro ativo. Como dizia meu avô, canteiro de profissom, "há que fazer as cousas bem para que saiam aproximadas". Eu quero ver como a AGAL consegue chegar a cada vez mais pessoas, e que estas se apercebam de que o nosso idioma, detido da sua própria norma acabará por morrer nas maos dos seus institucionais e supostos maiores defensores a menos que se achegue para o mundo da lusofonia, bem aceitando a norma AGAL bem o Acordo Ortográfico.

 

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Acho que, como todo aquele que sente o galego como parte de seu ser, devecemos por umha imagem futura muito mais favorável, em que ao caminhar polas ruas podas ouvir, ler e sentir a normalidade da língua. Em que sintamos irmaos a milhões de pessoas que compartilham a nossa língua mae, e apreciar e desfrutar os diferentes sotaques espalhados pelo mundo, aqueles que nos alimentam com giros, expressões, e léxico. Aprender dos que conseguiram cultivar sem travas o galego.

 

Conhecendo Paulo Outeiro

Um sítio web: A consulta diária aos jornais digitais galegos: Galicia Confidencial, Praza Pública, Sermos Galiza, Dioivo, Novas da Galiza, Galizalivre... e tantos mais.

Um invento: A bicicleta.

Umha música: Muita e muito diversa. De Manecas Costa a Nirvana, passando por Django Reinhardt.

Um livro: Gosto muito de ler, nom poderia escolher um determinado. A minha última obsessom é a saga de Roma de Colleen McCullough.

Um facto histórico: O rexurdimento.

Um prato na mesa: A empanada de feijões da minha mae (sou vegetariano).

Um desporto: A escalada desportiva e o bloco (boulder).

Um filme: Into the wild.

Umha maravilha: A natureza virgem.

Além de galego/a: Galeguista, libertário e ambientalista.