«O melhor da recuperaçom das festas populares é o convivio de velhos e moços»
Entrevista a Camilo Vila, sócio da A.C. Traslasxas (Boado, Límia)
Quinta, 02 Dezembro 2010 00:00
O.R. (*) - Vida comunitária, celebraçons colectivas, convívio de velhos e moços, enraizamento. Premissas que há cinqüenta anos definiam a vida da sociedade galega, som hoje metas por que luitar. Nom há naçom nem esquerda sem sociedade, sem redes, sem comunidade.
E em Boado tenhem-no claro: “o mais básico é hoje o que mais falta”. Camilo Vila fala-nos da Associaçom Traslasxas, um projecto que nasceu para dinamizar a aldeia a que pertencem tornando-a um sítio onde viver e morrer.
P: Como nasce a associaçom?
R: No Sam Joam de 2007 pensamos que estaria bem recuperar a festa da nossa paróquia, o Sam Pedro, que era na semana seguinte. Nom se celebrava desde havia dez anos por problemas entre a vizinhança por causa da construçom dumha auto-estrada na nossa zona. Pugemo-nos a trabalhar e saiu mui bem. Assim, da boa experiência dessas primeiras festas de Sam Pedro, saiu a iniciativa de nos constituirmos como associaçom, ainda que nom demos o passo até Maio de 2008.
Mas a cousa ja vinha de antes. Houvo umha geraçom de moços que fomos medrando juntos: íamos juntos à escola, juntos a aulas de gaita, combinavamos às noites. A partir do ano 96 mais ou menos começamos a ir à antiga escola unitária, que já nom tinha uso. O edifício estava mui mal e decidimos amanhá-lo. Compramos um frigorifico, um DVD, telhamos, pintamos o local…
Na planta de abaixo, andando o tempo, montamos um centro social com o básico, o mínimo que deveria haver em todas partes, mas para Boado já e todo um êxito. Numha aldeia de apenas setenta vizinhos a gente combina para jogar cartas ou ver o partido e vam ali por iniciativa própria. Todas as casas de Boado tenhem algum membro na associaçom, por isso me incomoda escuitar falar “dos da associaçom”, porque todos fazemos parte dela. Até os velhos venhem às reunions!
P: A vossa actividade centra-se na recuperaçom das festas populares em Boado. Fala-nos das celebraçons que festejades.
R: Bem, umha das actividades que levamos a cabo desde 2008 e o Magusto. Em Boado ha um forno que era comunal, e levava corenta e um anos sem ninguém o acender, de maneira que pensamos aproveitar a celebraçom para cozer pam depois de tanto tempo. Os vizinhos todos dixérom-nos que eramos loucos, mas entre três pessoas carrejamos a lenha e quentamo-lo. Todo se encheu de fume e o pam nom havia quem o comesse, ainda menos mal que tinhamos carne, mas minha avô, e muitos outros como ela, chorárom de emoçom ao voltar a vê-lo em funcionamento.
Agora o que fazemos e acendê-lo um dia antes para que se quente e mantém-se atendido em roldas, primeiro os velhos, logo os medianos e logo os moços. Todo o mundo está de troula nessa noite de vigia, bebem juntos pais, avôs e filhos. Também fazemos um concurso da pataca mais grande. As festas de Sam Pedro, que recuperamos em 2007, estám centradas cada ano num tema. Em 2008 figemos umhas olimpíadas rurais com desportos aquáticos, de exibiçom,… Um deles consistia em levar olas na cabeça; aos homens rompêrom-nas todas, só chegou um e sete mulheres, a mais nova de 55 anos. Ao ano seguinte reunimos fotos velhas da gente de Boado, e noutra ocasiom houvo um matraquilho humano. Este ano adicamo-lo às tabernas de antes.
Também recuperamos o costume de ir polas casas cantar os Reis. No primeiro ano saímos quatro e rematamos vinte pessoas as duas da manhá. O Entruido é a melhor das nossas actividades, porque investigamos para recuperá-lo com as suas particularidades. A figura do “manturriero”, pessoa vestida com umha mantúrria, um pau e um cesto de cinza ou farinha, e única da nossa zona. Recuperamos também o costume de ler o testamento, e fijo-o a mesma mulher que os fazia antes do 81, ano em que deixou de se fazer. Se pretendesse andar com socos por caminhos de lama estaria fora do meu tempo, a chave é andar com o calçado que me dá o 2010 polos meus caminhos; é por isso que, ainda que fugindo dos folclorismos, nos interessamos tanto polo que implique a recuperaçom da vida de antano. O melhor da recuperaçom destas festas e a convivência dos velhos e os novos em igualdade, desfrutando todos juntos no sitio de onde som. Parece algo mui básico mas é imprescindível, e nom se dá tanto como deveria.
P: Ides já pola II Andaina da Comarca da Límia. Como foi acolhida esta iniciativa, que se distancia das actividades puramente festivas?
R: Mui bem, a gente implicou-se muito nas duas ediçons. Vinhérom pessoas de toda a comarca e também de fora. O objectivo é conhecermos nós próprios a nossa zona, porque às vezes sabes do de fora e nom do que tés na casa. Para a andaina deste ano limpamos um caminho, e só por isso já teria merecido a pena fazê-la.
P: Como avalias o panorama associativo do rural galego? E na tua comarca?
R: O que há nunca é avondo, mas vam-se fazendo cada vez mais cousas. É imprescindível que a gente se associe nos sítios de onde é, sobretodo se se trata dum ambiente rural. Quanto à nossa comarca, há associaçons noutras aldeias como a Sainza, e em Ginzo está Aguilhoar, que é o mais importante ainda que nos trabalhemos outros campos.
P: Perspectivas de futuro?
R: Desde que podamos falar disto no ano que vem, para nós já é suficiente. Estamos num momento complexo porque somos a mesma gente para todo, e acaba por queimar. Criamos umha equipa de futebol, o Boado F.C., que chupa tambem muito esforço e fundos económicos. Mas o esforço paga a pena. Queremos que a gente poda morrer aqui e morrer bem, eu nom vou meter minha avô num apartamento de Torremolinos para que passe os últimos da vida ao sol. Se vai estar aqui, que esteja bem. Eu a minha vida imagino-a ali, e se nom pudesse por motivos de trabalho, Boado seria igual o meu referente sempre. Som de Boado, isso é o meu, e nisso trabalhamos e trabalharemos.
(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 95 do Novas da Galiza.























