Linha da fuga
Terça, 04 Novembro 2008 00:28
Por José Ramom Pichel Campos
Com efeito tendemos a infinito, isso foi o que disse uma vez um homem que encontrou naquela cafetaria da estação quando estudante. Por acaso era que naquele momento António estudava esse cálculo de primeiro, naquela universidade, e surpreendeu-lhe saber que um passageiro de banco e aparência esquisita, de fato de sindicalista dos oitenta, reparara na situação, de que com efeito tudo tende ao infinito, eis o nosso limite.
Também ele comentava que preferia jogar a jogos de taboleiro e nao aos de computador porque admirava as fichas, a família, os amigos e o tacto sempre toca o tacto. Gostava de observar os companheiros querendo conquistar países e zonas do mundo que nem imaginava que existiram. A chuva era um sinal do céu para combinar e começar essas partidas a brinquedos míticos como "A fuga de Colditz", "A segunda guerra mundial" ou "O império romano". E António assentia com esse movimento de cabeça de estação de comboios com a olhada na tabela de horários, as presas caminhando por dentro, sim, um bilhete para Estocolmo, soberam de novo os preços mas não há dupla via.
Mas o que não sabia esse homem do aqui e do agora era que António estava pendurado, ensarilhado em lugares pixelizados, introduzido num mundo de jogos de carros, de simuladores de voos, percorrendo o mundo em avião e manejando flaps e altímetros, emulando a Ayrton Sena naquela altura, pilotando F18A navegando por mares atmosféricos com montanhas e montanhas, lagoas e lagoas, o mundo era tão pequeno desde aquela altura, e ninguém percebia o seu match 3.
Quando baixou António da nuvem e atendia os novos comunicados, percebeu que ele descobrira como ia ser o futuro próximo quando pugera uns óculos de 3D, da chamada realidade virtual, e via com nitidez o mundo em breves anos. Não poderemos escapar a ela comentava com olhos e mãos tai-chi sincronizados. Todo o mundo terá esses óculos e ninguém mais se relacionará como o estamos fazendo até agora, não haverá lugar possível para relacionar-nos.
Anos mais tarde com a implantação definitiva da Internet, com esses exércitos de pessoas atendendo a todos os estímulos possíveis, correios electrónicos, telemóveis, reprodutores mp3 de passeio diário, messengers, twiters, bate-papos eternos, wifis para estar continuamente ligados, António deu-se de conta que a realidade virtual teorizada chegara desde o horizonte, noutros formatos, e que deveríamos tender a infinito de vez,correndo cara um lugar chamado linha de fuga, no horizonte.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.


Opiniom







