Ourensanos nas "Misiones Pedagógicas"

Terça, 20 Outubro 2009 00:00

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Por José Paz Rodrigues (*)

Eu sou grande admirador do pedagogo Cossío da ILE. A quem considero o melhor pedagogo da história do nosso país. Porque amava as artes e a natureza e porque desejava uma sociedade feliz, com princípios éticos. E porque lhe dava uma grande importância à educaçom e aos mestres e educadores. Desde finais do século dezanove tinha uma ilusom. Era esta a de levar polas povoações rurais a cultura, de forma lúdica, artística e atractiva, que denominava educaçom difusa. Essa ilusom só a pudo ver na realidade em 1931, com a instauraçom da Segunda República.

Já tenho escrito mais de uma vez e em vários artigos sobre as Missões Pedagógicas. Das quais a alma mater foi o pedagogo antes citado. Natural de Haro, mas muito ligado à nossa Galiza. Em Sam Fiz de Vijói, do concelho corunhês de Bergondo, compartia um paço familiar com o grande pensador e professor galego Joam Vicente Biqueira. Ali passava todos os verãos com a sua família, e ali escreveu a sua importante monografia sobre O Greco. No verão de 1933, como presidente do Padroado, nomeou o rianjês Rafael Dieste, director da primeira Missom Pedagógica pola Galiza. Que, de 11 de Agosto a 17 de Dezembro, percorreu a Nossa Terra levando cultura aos lugares mais apartados. Entrou pola Mesquita na Gudinha e terminou no Barco de Val d’Eorras.

Ademais destas localidades estiveram os missionários nas ourensanas de Ginzo, Alhariz, Maside, Carvalhinho e Quiroga. Sem contar as das outras províncias galegas polas que passou a comitiva, estando três dias em cada localidade. Com livros variados em bibliotecas ambulantes, conta-contos, mostras artísticas, leituras públicas, audições musicais, canto coral, cinema documental e cómico de Chaplin, jogos populares, conferências e palestras, teatro e títeres.

A vinculaçom de Ourense com esta actividade pedagógica republicana foi muito importante. A finais de Agosto de 1933 incorporou-se à missom galega, na nossa cidade, o escritor e artista Cándido Fernández Mazas, colaborando com Dieste no desenho dos decorados teatrais e dos bonecos para os títeres ou fantoches. O seu formoso cartaz para o “Retablo de Fantoches das Misiones Pedagógicas”, terminou por ser o oficial do Padroado das Missões para esta actividade tam singular, que se iniciou no porto de Malpica em Outubro do ano antes citado. E que teve logo muito sucesso em todas as localidades do roteiro e nas restantes missões celebradas. Nalgumas das actuações Mazas também desenvolveu algum papel nas obras encenadas, muitas da autoria de Dieste.

De ideologia libertária, como Mazas, somou-se também em Ourense à missom o escritor António Ramos Varela. Natural de Ferrol e com morada em Compostela, alguma informaçom errada considerava-o ourensano. O poeta-mártir ourensano Manuel Gómez del Valle, sob o título de “As Misiones Pedagógicas, o Museu do Povo e os seus animadores”, publicou no número de Setembro de 1933, da revista da ATEO Escuela de Trabajo, um interessantíssimo artigo sobre os missionários, Dieste e seus colaboradores. O mencionado artigo está ilustrado com caricaturas dos educadores ambulantes da missom, realizadas polo próprio Dieste e polo pintor Ramón Gaya.

Houve missões em numerosos lugares de Espanha, e na Galiza em várias comarcas como Entrimo, Riba d´Ávia, a Caniça, Muros, Serra d´Outes, Ponte Vedra... Ademais de ciclos de conferências dominicais, sobre temas culturais e científicos variados, em numerosas localidades ourensanas e galegas. Nestas actividades colaboraram, por exemplo, ilustres ourensanos como Cuevilhas, Risco, Otero Pedraio, Ben-Cho-Shei e a inspectora de ensino Maria Cid. Também o inspector Couceiro Freijomil, embora nascido em Ponte d´Eume, com destino na nossa cidade e província.

Mas, o primeiro ourensano incorporado às Missões, dirigidas por Cossío e criadas pola República, foi o grande cineasta galego Carlos Velo Cobelas. Natural de Cartelhe, filho do médico da localidade, no próximo 15 de Novembro vai cumprir-se o centenário do seu nascimento. Em breve escreverei um artigo sobre a sua pessoa, que bem merece pola sua valia humana e intelectual. Ademais eu conhecim Velo pessoalmente, quando véu em 1977, do seu exílio mexicano, para participar na quinta ediçom das Jornadas do Cinema de Ourense, celebradas a princípios de Abril. Nas quais se projectaram os seus filmes Torero, Universidade Comprometida e Homenaje a León Felipe. Lembro que o levei no meu auto à sua aldeia e casa de Cartelhe. E depois ao aeroporto santiaguês para a viagem de volta a México.

Ainda conservo na minha casa um formoso tapete mexicano que nos regalou à minha esposa Ana e a mim. Como estudante de Biologia na Complutense, sendo representante da “Federación Universitaria Escolar” (FUE), e comissário geral da “Unión Federal de Estudiantes Hispanos” (UFEH), participou já na primeira missom pedagógica histórica. A celebrada no mes de Dezembro de 1931 na localidade segoviana de Ayllón. Tal como se destaca no jornal El Sol, de data 17-12-1931, para dar conferências culturais. Leva dous projectores de cinema, um mudo e outro sonoro, e ilustra as suas palestras projectando três documentários: Luita pola existência, Higiene e A enfermidade da Tuberculose. Com este meu artigo fica demonstrado que o primeiro missionário pedagógico ourensano, colaborador de Cossío, foi Carlos Velo.

 


 

(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.