Xoán Paredes, geógrafo e músico baterista
«A dicotomia galego/português é a mesma que a castelhano/espanhol»
Quinta, 25 Fevereiro 2010 00:00
Xoán Paredes é sócio da AGAL desde Outubro de 2005 com o número 852
PGL – Xoán Paredes é geógrafo de formaçom e trabalha na Universidade de Cork, na Irlanda, país no que mora há já mais de dez anos. Emigrante e filho de emigrantes como tantos galegos e galegas, o Xoán viviu mais tempo fora da Galiza que nela, e «nom por gosto». Quanto à AGAL, o Xoán tem grandes expectativas.
PGL – Caro Xoán, para que os leitores do PGL te conheçam, podes falar-nos um pouco de ti?
XP – Sou galego filho de emigrantes, não nascido na Galiza ainda que eu diga que nasci em Ponte Vedra. De facto, negarei sempre que nasci noutro lugar a menos que alguém seja quem de arranjar cópia do meu bilhete de identidade e demonstrar o contrário.
Geógrafo, moro na Irlanda já há mais de dez anos, onde trabalho na Universidade de Cork, no sul do país.
PGL – Emigrante e filho de imigrantes. Um reflexo do que se tem passado na nossa terra
XP – Efetivamente. De facto, vivi mais tempo fora da Galiza que nela, e não por gosto.
Mas curiosamente, e desde que era bem rapaz, sempre tivem uma forte apetência para querer saber mais da Galiza, para conhecê-la intimamente, e não podia entender como alguns outros filhos ou descendentes de galegos simplesmente não estavam interessados. Talvez isto foi devido a que na família sempre se lembrou que “nós somos galegos”, e já podíamos estar a morar na Lua. A ideia de identidade galega sempre estivo muito presente na minha vida, era o que vivia.
PGL – Noutras conversas tes referido que alguém te definiu como semi-neo-falante, como é isso?
XP – Polo mesmo que indicava antes, por essa forte carga de identidade galega, presente ainda que não fosse galegofalante de berço. É dizer, na casa falava-se maioritariamente espanhol pois era a língua em que socializávamos. Para isto é preciso explicar também que a minha casa era às vezes como a ONU, com visitas contínuas de gentes de diversos lugares e idiomas. Eu lembro-me de ter-lhe que lembrar a minha nai para “por favor me falar em galego” porque era muito fácil mudar duma língua para outra, com clara vantagem para o castelhano.
Por isto digo que sim sou um neofalante já que nunca fui monolingue até que, uma vez morando na Galiza, tomei essa decisão pessoal. Mas ao mesmo tempo sim que “mamei” o galego desde pequeno, no lar, ainda que fosse por fases e em competência com, principalmente, o espanhol. O galego nunca foi alheio nem rejeitado, tudo o contrário.
Pois, explicando tudo isto a um amigo uma vez me disse “meu, tu és um semi-neo-falante”... talvez queria dizer um “quase-falante-nativo mália as adversidades”, não sei, ah ah.
PGL – Entom, o primeiro passo foi falar galego. E para a estratégia galego-luso-brasileira, como foi? Dim que todos temos algum cicerone para aderir, foi o teu caso?
XP – Tivem a sorte de ter uma magnífica professora de língua catalã nos tempos da escola que nos explicava conceitos sociolinguísticos bastante avançados de forma maravilhosamente clara. Isto unido à naturalidade com que na minha família se falava dos nossos “vizinhos do sul” nunca me fez duvidar de que galego e português vinham sendo o mesmo. Havia diferenças, sim, mas eu já equiparava aquilo com as diferenças entre sotaques espanhóis ou os casos do maiorquino, catalão do principado e valenciano.
O assunto é que eu ia à Galiza ou a Portugal de férias e comunicava livremente tanto num sítio como noutro. Não pensava mais no tema e era frequente que os meus amigos não galegos me pedissem para traduzir isto ou aquilo do português porque eu, como galego, “sabia português”.
Foi logo, mais tarde, uma vez na Galiza, quando comecei a descobrir assustado que havia mesmo uma “guerra” montada sobre este assunto... ingénuo eu! Fui mesmo acusado de usar “lusismos” quando falava, e eu nem sabia bem que era aquilo. Foi aí quando me interessei por uma formação teórica e histórica mais forte e diversos companheiros de faculdade me foram fornecendo bibliografia. Aí aprendi a escrever corretamente em galego nas diversas normativas de forma autodidata, pois nunca fui escolarizado em galego. Ia comparando e comparava também com a escrita espanhola e catalã, contrastando isso com o que aprendera sobre etimologia, contínuo dialectal, diglossia, etc.
Compreendi que a dicotomia galego/português era a mesma que a castelhano/espanhol, e umas pingas de sotaque e léxico variado.
PGL – Que visom tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?
XP – Primeiro via a AGAL só como uma associação profissional de linguistas, defendendo uma postura determinada. Com o tempo fui descobrindo que havia também membros da AGAL que não eram linguistas ou académicos, mas gente diversa que simplesmente partilhava essa visão científica da língua e o seu encaixe no mundo e na história.
Porém, foi ver como a AGAL e o movimento reintegracionista em geral era continuamente negado não só de ajudas, mas de voz e possibilidades de se exprimir, que despertou em mim um outro nível de simpatia. Finalmente, foi ao comprovar como a AGAL tentava ser apolítica, embora as coincidências ideológicas de muitos dos seus membros, que me decidi a entrar a fazer parte dela e tentar colaborar, no possível, à normalização do próprio galego na galeguia/lusofonia.
E esperar... da AGAL só espero que continue a medrar e que algum dia – chama-me sonhador agora se queres – seja a instituição linguística de referência da maioria dos galegos.
PGL – Xoán é geógrafo de formaçom. Qual seria em tua opiniom a melhor forma de divulgar a estratégia luso-brasileira para a língua no âmbito da geografia?
XP – A mesma estratégia que em qualquer outra disciplina científica: a normalidade. Como noutros campos, devemos simplesmente agir, usando a língua como os ingleses, norte-americanos ou australianos usam a sua quando organizam um congresso ou publicam num jornal académico, sem pensá-lo duas vezes. Fazê-lo habitual, comum, diário, com todos os colegas do grémio que se comuniquem na nossa língua.
“A nossa língua é útil e universal” é uma espécie de mantra que muitos reintegracionistas repetem a cotio, pois é questão de fazer ver como de útil e universal é, e fazê-lo ao mais alto nível.
Eu não sou linguista, ainda que me interesse o tema, polo que não posso dar muitos discursos sobre a sociolinguística galega aos colegas lusos ou brasileiros, só falar de geografia ou das poucas cousas que eu sei. Pois, com eles vai ser em galego, com as minhas palavras, com o meu sotaque, com os meus verbos, mas com a mesma grafia e uma grande vontade de comunicação. Igualmente, uma palestra dum brasileiro ou português na Galiza, na nossa língua comum, abre muitas mentes e vias de comunicação direta. Cada um de nós tem que achegar um pouco dessa “normalidade”.
PGL – Actualmente moras na Irlanda, onde trabalhas na administraçom da Universidade de Cork. O galego tem sido de algumha utilidade para ti, no teu périplo polo mundo adiante?
XP – Com certeza. O galego sempre foi útil nessa comunicação fluida com todos os lusofalantes que fui encontrando tanto nas minhas viagens como no meu trabalho. Nesta universidade temos um muito alto número de estudantes estrangeiros, incluindo bastantes portugueses e alguns brasileiros, que sempre ficam contentes quando alguém pode comunicar com eles na sua língua. É curioso como a maioria comentam no “engraçado” ou “simpático” do meu sotaque, ao que eu sempre retruco que o seu é ainda mais engraçado. ah-ah. É a velha brincadeira dos sotaques inglês-britânico e inglês-americano, “desunidos pola mesma língua”, passada polo filtro galego.
Mais uma vez, temos que simplesmente usar a língua com naturalidade, desdramatizar, como quando nas minhas viagens emprego o inglês como língua inicial – para bem ou para mal a língua franca do mundo – até que encontro com alguém que fala português. A minha língua safou-me de mais de um problema ou dous andando por aí!
PGL - O Xoán é músico baterista amador. Como vês a cena musical galega? Na Irlanda tem algumha repercussom algum dos nossos músicos?
XP – Depende de que parte da cena. No geral a música galega desfruta de boa saúde, ou melhor dito, na Galiza há muita e boa música apesar das dificuldades para encontrar locais de ensaio, problemas de promoção, problemas para arranjar concertos ao vivo e demais problemas típicos de todo o músico fora do circuito mediático. Haver música há-a e isso só é sinal de vitalidade e de que o pessoal quer fazer, e fai, música de qualidade. Também é certo que se fai muita música em determinados géneros e não em outros.
Eu – pessoalmente – continuo a achar em falta mais música galega nos géneros de que eu gosto, claro, ou mais oportunidades para esse tipo de música. Mas disso não tem culpa ninguém, é dizer, não lhe posso fazer nada ao facto de não haver mais gente com os meus gostos musicais, não sim? A fim de contas cada um toca o que lhe peta. Talvez deveria começar eu uma banda um dia destes, quando saiba tocar de maneira mais ou menos decente algum dia, talvez para a década próxima (risos).
E na Irlanda o que chega de música galega é basicamente folk. Algo de Carlos Núñez, anunciado como "gaiteiro espanhol", e um pouco uma mistura doutras cousas. Tivemos sorte na Universidade de Cork de poder convidar em dous anos consecutivos os SonDeSeu para o festival céltico local; isso ajudou a avivar certo interesse entre alguma gente. Os músicos de folk irlandeses sim conhecem algo mais da nossa música tradicional, mas é curioso como algo que poderíamos exportar tão facilmente não acaba de chegar. E do resto da música galega não têm nem a menor ideia, claro, assim como a maioria dos irlandeses não têm a menor ideia do que é a Galiza.
PGL – Muito obrigado Xoán, há algo mais que queiras apontar para os leitores do PGL?
XP – Só a necessidade imperiosa de pensar e atuar em positivo. Temos que fazer, construir, e se tem que ser em paralelo a outros, pois em paralelo. E temos que sair, difundir, falar da Galiza cá por estes mundos de fora pois o principal problema é que somos uns autênticos desconhecidos.
Conhecendo o Xoán Paredes
- Um sítio web: um foro musical que visito a diário e onde encontro com bons amigos. Formamos já uma comunidade. http://house-of-death.com/
- Um invento: O microchip
- Uma música: Rock e Metal, se pode ser clássico, com vozes potentes, claras e altas, bateristas que saibam usar o “hi-hat”, baixistas que fagam acordes e muitas, muitas, harmonias de guitarra.
- Um livro: A série “Foundation” de Asimov
- Um facto histórico: A queda do Império Romano
- Um prato na mesa: “frit mallorquí” ou arroz de marisco, a escolher
- Um desporto: Para jogar badmington. Para ver râguebi, basquetebol e futebol
- Um filme: Excalibur (1981), de John Boorman
- Umha maravilha: que um animal possa ser amigo de um humano
- Além de galego: Japonês! Longo de contar, mas eu não morrerei feliz até fazer uma digressão completa polo Japão com escala de vários dias, semanas ou meses em Hokkaido










