O exemplo occitano ou a literatura não nos salvará

Terça, 13 Julho 2010 02:49

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Por João Aveledo (*)

A Occitânia estende-se por uma trintena de Departamentos do Centro e Sul do Estado Francês, por alguns vales da vertente oriental dos Alpes Italianos e polo Val d'Aran (pertencente à província de Lleida e mais conhecido pola sua Estação Invernal, Baqueira Beret).

Esta nação conta com um idioma próprio de longa tradição literária, a chamada língua de Oc. Entre os séculos XI e XIII, o prestígio da lírica trovadoresca occitana espalhou a sua influência por boa parte da Europa. E também entre nós, quer nas Cantigas, quer na ortografia, pois ao occitano devemos os emblemáticos dígrafos «nh» e «lh». Outras épocas de esplendor para a literatura occitana foram o Período Barroco (1550-1660) e o Romantismo, a meados do século XIX, com um ressurgimento liderado polo poeta provençal Frédéric Mistral (Prémio Nóbel de Literatura em 1907).

Mas, para além de uma brilhante história literária, a realidade atual desta língua vem marcada por uma decadência que arranca do Edito de Villers-Cotterêts de 1539, a lei que consagraria o francês como única língua oficial em todo o Reino. O occitano deixava de ter usos jurídicos e administrativos. Os séculos seguintes seriam os da lenga mespresada, os Séculos Obscuros do occitano. Afrancesadas a burguesia e a nobreza e confinada a fala aos usos coloquiais e familiares, esta iniciou um progressivo declive, que se agudizaria no século passado com a escolarização em francês, justo quando os intelectuais mais conscientes da Occitânia tentavam uma renascença.

Hoje, o occitano enfrenta uma acelerada perda de falantes. Teoricamente, ainda uns 28% da população o sabe falar e uns 48% o compreende, mas na realidade está circunscrito às aldeias e nelas, às pessoas de avançada idade, para além, dessa minoria conscientizada, que leva avante iniciativas tam meritórias como Las Calandretas, escolas bilingues (única possibilidade legal) em que as crianças recebem uma educação occitana e em occitano.

Outro grave problema é a hibridação progressiva com o francês, daí que, depreciativamente, se lhe denominara patois, palavra que na Galiza traduziríamos como castrapo.

E até conflitos ortográficos tem, o que acrescenta mais ainda as concomitâncias e paralelismos com o caso galego...

Aqueles que confiam a salvação da nossa língua ao fato de termos uma nutrida listagem de escritores e escritoras, podem ver no caso occitano um bom exemplo de como a literatura por si própria, mesmo que seja de alta qualidade, não é capaz de salvar um idioma. Os conflitos linguísticos são conflitos políticos e unicamente se podem resolver por via política, mas para isso é necessária antes uma tomada de consciência, que leve a uma ampla movimentação social, que tenha como objetivo a restauração plena da língua, seja nos seus usos, seja no seu córpus.

Dizque, em Lourdes, a Virgem falou com Bernardeta em occitano (a língua da rapariga) e não em francês (a língua do império)... Ainda que muito nos tememos que ao occitano não o salve, nem a virgem!


(*) Este artigo foi publicado no n.º 15 do boletim de língua Constantinopla, publicado na primavera de 1998, sob o pseudónimo  Jorge Martins Gestal. O texto foi revisado e atualizado na sua ortografia conforme ao Acordo Ortográfico de Lisboa.