Mirandês é falado aqui - e só aqui

Esta língua românica da família asturo-leonesa, é agora ensinada como uma disciplina eletiva nas escolas públicas da região

Terça, 07 Fevereiro 2012 09:24

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Foto: Seth Kugel

Seth Kugel (*) - Uma mulher idosa com um vestido liso cinza e uma sacola de compras cheia de abóboras chamou por mim do baixo da rua. Não tinha ideia do que ela estava a dizer, e isso não poderia fazer-me mais feliz. Afinal, eu tinha chegado à sua aldeia rural —Malhadas, no canto nordeste de Portugal— com a esperança de não entender ninguém.

"Ah, você não fala mirandês", disse ela, mudando para português, uma língua que falo fluentemente depois de viver vários anos no Brasil. "Eu pensei que você era o cara que vem para ler os medidores elétricos".

Era uma suposição razoável: os estranhos não são comuns num local isolado como Malhadas. Mas, na verdade eu estava lá para olhar o que se passava. Queria ouvir todo o possível de mirandês, a segunda língua oficial de Portugal —quer dos clientes do próximo café Córdoba, quer de velhos a falarem num banco, ou da mulher a voltar das compras.

As pessoas constroem viagens ao redor de toda classe de coisas: paisagens, vida selvagem, comida, folclore, música. Por que não sobre a língua?

Não pretendi aprender mirandês, reparem. Três dias não me levariam muito longe, e a língua, falada por apenas 10.000 ou 15.000 pessoas do Planalto Mirandês, as quais também falam português, dificilmente é uma língua útil. Mas eu tinha percorrido muitas referências sobre pequenas línguas isoladas da Europa, e desta vez queria explorar uma. E poderia pensar em muitas ideias mais frugais que uma língua: alguns dizem que falar é barato, mas na verdade é grátis.

Em 1999, o mirandês tornou-se a segunda língua de Portugal, graças ao lobby regional e a um parlamentar próximo à causa. Isso não significa muito na prática, mas simbolicamente era uma questão de grande orgulho para quase toda a gente que conheci, ao ter parado o preconceito desdenhoso de o mirandês ser dialeto do português. Esta língua românica da família asturo-leonesa, é agora ensinada como uma disciplina eletiva nas escolas públicas da região, e as livrarias vendem um punhado de livros escritos ou traduzidos em mirandês, incluindo uma tradução do poema épico "Os Lusíadas" e do clássico infantil, "L Princepico" - "O Pequeno Príncipe".

Toda a região falava leonês, uma língua que antecede o mirandês, quando a área era parte do reino de Leão, na Idade Média, explicou Carlos Ferreira, um falante mirandês que dirige uma organização turística regional. Após a independência de Portugal no século XII, a região mirandesa ficou suficientemente distante e isolada do resto do país para permitir a preservação da língua.

A língua é menos evidente em Miranda do Douro, maior cidade da região com 2.000 habitantes. Mas visitei a muito bem preservada parte velha, onde a livraria Andrade vende livros mirandeses e um museu, Museu da Terra de Miranda, celebra tradições agrícolas e culturais da região com exposições de mobiliário artesanal antigo, fazenda e ferramentas artesanais, e uma coleção de capas de honra —roupas tradicionais e de aparência estranhamente religiosa que usavam diariamente os homens até início do século passado.

Em vez de ficar em Miranda do Douro, como fazem no verão a maior parte dos turistas portugueses e espanhóis, eu procurei um quarto numa das vilas vizinhas menores. Escolhi a opção mais barata: o Restaurante Residencial Gabriela, em Sendim, a cerca de meia hora desde Miranda. Por 25 euros a noite, com pequeno-almoço, passei dois dias num de doze ou mais quartos imaculados, modernos, que custariam facilmente duas ou três vezes mais noutras partes da Europa.

Como descobri naquela noite no restaurante da pousada, eu não era apenas o único convidado no hotel, mas também o único a jantar. Levou apenas alguns minutos para Lurdinhas Fernandes, que comanda o lugar com sua irmã, para me convidar para comer com a família na cozinha. Eles estavam reunidos junto à lareira, que simultaneamente aquece as pessoas, grelha a carne e fuma a alheira caseira pendurada em cima.

A peça central do jantar foi a posta mirandesa, prato insígnia da região. É um bife de vitela cortado dos quartos traseiros de bovinos mirandeses, servido com um molho vinagrete que Lurdinhas afirma foi inventado pela sua avó, por cujo nome é chamado o restaurante. Veio com batatas fritidas em quartos, salada, um jarro de vinho tinto, e para sobremesa, um queijo suave mistura de leite de vaca e de ovelha servido com deliciosos doces caseiros em sete (!) sabores: pêra, abóbora, figo, ameixa, cereja, ginjas e marmelos.

Acabariam cobrando-me 21 euros, mas era pouco se incluirmos a longa lição de mirandês que me deu Altino Martins, o homem de Lurdinhas.

Altino, que crescera falando Mirandês na aldeia de Paradela, no rio Douro fazendo fronteira com Espanha, ajudou-me com um livro ilustrado de vocabulário infantil que eu tinha comprado em Miranda do Douro horas antes: "Las mies purmeiras palabras an mirandês" ("As minhas primeiras palavras em mirandês"). Trabalhamos na pronúncia e ele ressaltou as palavras diferentes dos seus equivalentes espanhol ou português: ovelha é canhona, joelho é zinolho, floco de neve é farrapa. Mais memorável foi como o mirandês distingue avó e avô, ambos os quais são escritos abo. Quando necessário, o avô torna-se l abo de las Calças (avô das calças) e avó é l'abo de la saia (avó da saia). Insensibilidade para os travestis e as mulheres que vestem jeans, não obstante, podemos todos concordar que isso é adorável? (Outro favorito: A frase de arco-da-velha é cinta de la raposa, cinto da raposa).

Altino explicou como de isolada tinha sido a região ainda na década de 1950, quando ele era uma criança.  Ele não viu o seu primeiro carro a motor até os 5 ou 6 anos; depois, os engenheiros espanhóis que construiam a barragem hidroelétrica no Douro passavam através da aldeia em carros a 30 ou 40 km/h encantando e aterrorizando as crianças. Também disse que, quando os burros locais já não eram capazes de trabalhar, eram levados para o precipício à beira do rio e empurrados para baixo, para os seus ossos serem comidos pelos abutres.

A vagar pelas aldeias ao longo de dois dias, encontrei a fluência em mirandês ser mais comum entre os moradores mais antigos, mas uma das muitas exceções é Duarte Martins (não relacionado com Altino), um jovem de Malhadas, que é professor de mirandês. "Eu falo Mirandês para defender a minha maneira de ser, a minha maneira de interpretar o mundo", disse em companhia de umas cervejas no Bar Rochedo, em Miranda do Douro. Na verdade, acrescentou, há moradores com quem ele só fala mirandês.

Eu era bem-vindo a assistir a sua aula, disse, mas a escola estava encerrada nas férias de Natal. Em vez disso, deu-me várias edições do La gameta, a revista anual de trabalhos estudantis em mirandês que ele tem publicado profissionalmente ("La gameta" significa "a lentilha").

Como a escrita do mirandês se assemelha à do espanhol e à do português, podia pelo menos entender o sentido das histórias e ensaios da revista —alguns dos quais eram claramente pessoais e outros que pareciam contos populares contados por familiares ou vizinhos—, histórias de galinhas e monstros e pastores e religião. A história emprestou uma nota triste para os textos: o mirandês tinha sido proibido sob o ditador António de Oliveira Salazar (que governou de 1932-1968), muitos dos pais dos alunos não tinham aprendido a falar mirandês, muito menos a escrevê-lo. Agora seus filhos podiam ver suas próprias obras mirandesas em impressão.

O dia depois de conhecer Duarte, parti para visitar mais aldeias. Na pequena Paradela, terra natal de Altino, parei num pequeno café chamado O Paradela. Eles não estavam servindo o almoço, mas uma mulher jovem e simpática chamada Teresa sentou-me junto à lareira e disse que ela me poderia fazer um prato de chouriço caseiro, presunto e queijo (4 euros). Esperei folheando uma edição do La gameta.

Quando me trouxe a comida, ela viu que estava lendo. "Hei, eu escrevi alguma coisa lá dentro", disse. "É a partir de 2004, certo?" Era. Folheou até encontrar um conto chamado "L pastor i l spagnolo", ("O Pastor e o espanhol"). No final, lia-se "Teresa Preto, 9 º ano."

Não poderia escrever tudo isso, mas a essência era clara: um pastor mirandês a cuidar do seu rebanho perto da fronteira foi abordado por um espanhol. "Quem come mais, a ovelha branca ou a ovelha negra?" Brincou o espanhol. O pastor, preferindo não ser incomodado, respondeu com um gesto atrevido beijando as nádegas da ovelha, e o espanhol aprendeu a nunca importunar novamente os pastores locais.

Pode não ser grande literatura, mas o cenário não podia ser mais local: a fronteira espanhola estava apenas a umas centenas de metros de distância. Conduzi depois do almoço até a beira de um precipício impressionante com vistas para o rio Douro e além, Espanha. Não havia pastores ou espanhóis à vista. Perguntei-me, no entanto, se este era o local onde os burros velhos encontraram seu triste destino. O meu olhar vagou para a represa hidroelétrica ainda em funcionamento, que trouxe os primeiros carros (ls purmeiros carros, se o meu mirandês está correto) para a aldeia pouco mais de meio século atrás.

 


 

(*) Publicado originalmente em inglês no blogue Frugal Traveller (The New York Times). Tradução de Diego Iglesias para o PGL