Sardenha: umha proposta lingüística torna-se debate nacional

O debate surgido na Itália sobre a possível ratificaçom da Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias renovou outro debate, o da identidade nacional em lugares como a Sardenha. O presidente emérito do CIEMEN, Aureli Argemí, fala disso neste artigo

Segunda, 26 Março 2012 17:26

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Nationalia.cat - Como informou Nationalia (13 e 14 de março), o governo italiano exprimiu a sua intençom de ratificar a Carta Europeia das Línguas Regionais ou Minoritárias. A notícia saltou aos meios de comunicaçom social italianos, com comentários em favor e em contra. Porém, pouco depois do seu pronunciamento, o próprio governo desmentia ou matizava que a sua intençom nom passava de ser uma proposta que, em qualquer caso, mais adiante deveria ser debatida e, eventualmente, aprovada no Parlamento.

Umha das conseqüências que tivo esta polémica foi que várias pessoas do mundo académico, político e da sociedade civil a interpretárom como umha oportunidade excepcional. Nom só para se pôr sobre a mesa o tema do valor das línguas e do pluralismo lingüístico no Estado italiano mas também para debater umha série de problemas, jamais resolvidos, relacionados com a qüestom nacional. A Sardenha tornou-se um dos lugares onde a polémica se evidencia mais. Por razons óbvias, sendo como é, a naçom sem estado mais importante, numericamente, do Estado italiano.

Significadas pessoas e associaçons sardas interpretárom a notícia num sentido positivo, ainda que algumas tenham precisado que a ratificaçom da Carta chega tarde (há mais de 10 anos que fora assinada polo governo italiano). Caso seja ratificada, haveria que ver – dim os especialistas – se os sardos, em geral (professores e administraçom, sobretodo), estám hoje bem preparados para utilizar o sardo tal como prescreve a Carta, dumha forma normal, nas escolas, nos meios de comunicaçom social, nos serviços públicos ou na justiça. As respostas som, mormente, que nom. Alguns manifestárom a sua convicçom de que já nom há nada a fazer: o sardo, com as suas variantes dialetais, tornou-se língua folclórica e impossível de normalizar, por falta de unidade de critério, entre os próprios políticos e a chamada opiniom pública; outros afirmárom que a maioria de sardos já nom sentem nengumha necessidade de se pôr a estudar a língua para usá-la oficialmente, sendo que nom deixárom de a falar na vida quotidiana, e som relativamente poucas as pessoas que querem aproveitar a ocasiom para promover a auto-estima da língua, a sua normalizaçom definitiva e, com a língua, fomentar a retomada da consciência nacional, mui enfraquecida hoje.

Entre as palavras e os factos

Segundo o sentimento de bom número de “nacionalistas” sardos que se fam escuitar (desde Gianfranco Pintore a Diegu Corraine), o governo autónomo atual está a levar a cabo umha política lingüística, em especial nas escolas, discretamente favorável ao sardo, mas o fai com pouco convencimento ou, por melhor dizer, com um convencimento cada vez mais exíguo. É curioso que umha boa parte dos políticos defendem de palavra a língua, e mesmo há que fale da língua da “naçom” sarda, enquanto costumam esconder-se quando se trata de transformar as palavras em feitos. A Universidade de Sásser – é um exemplo – tem o dever de formar professores que deverám ensinar sardo. Para este objetivo, conta com ajudas do governo autónomo e da própria Comissom Europeia. E, contodo, dá a maioria de aulas em italiano! O governo autónomo apenas destina à língua sarda 0,4% do orçamento da consellaria da Cultura (a consellaria competente em matéria lingüística), ou seja, menos dum milhom de euros... Todo fica travado um pouco para além da esfera simbólica.

Por que este divórcio entre o que se di e o que se fai? Alguns observadores atribuem-no às carências generalizadas nom só na auto-estima coletiva mas também na percepçom da identidade nacional da Sardenha. Esta situaçom está bem refletida na acusaçom que muitos sardos dirigem aos que defendem a necessária padronizaçom da língua. Os seus partidários som acusados de que, ao defenderem a padronizaçom, tentam destruir a cultura sarda, a língua em concreto que nom existe em termos de padronizaçom, e que, desta maneira, se deixam levar por posiçons “nacionalistas” e ”racistas” (ao excluírem os falares e sacrificá-los a um idioma artificial afastado da populaçom). Nom lhes entra na cabeça que a padronizaçom – já estabelecida, por fim, oficialmente – é o meio para a colocar a língua ao nível que todas as outras línguas “normais e normalizadas” que se ensinam nas escolas e, em definitivo, é respeitar a identidade comum, coletiva ou nacional, que afeta todos os sardos, por mais dialetos que falem e através dos quais se distinguem.

Com este confronto, torna à palestra dos meios de comunicaçom social, sobretodo os digitais, as análises sobre a relaçom entre naçom e língua, entre a língua normalizada e a sua projeçom na consciência nacional. Aqueles que, na polémica em curso, falam de ensinar em sardo, para além de ensinar o sardo, estám a abrir as portas à plena compreensom e aceitaçom do povo sardo enquanto sujeito de todos os direitos, como qualquer pvo que aspira a ser ele mesmo e nom o apêndice doutro.

Estas abordagens estám incluídas, polo menos implicitamente, em muitos dos discursos sobre como se há de defender o sardo, de que dam notícia aqueles que o debatem a propósito do anúncio sobre a ratificaçom da Carta (veja-se, por exemplo: "Usare a lingua sarda a scuola. L'Italia e l'Europa dicono che si può fare. Ma quanti di noi isolani lo vogliamo veramente?").