Apelo para salvar as línguas da Índia em perigo

Um estudo elaborado ao longo de quatro anos alerta para a ameaça de desaparecimento que defrontam 200 idiomas falados no subcontinente. O presidente emérito do CIEMEN, Aureli Argemí, comenta alguns aspetos

Segunda, 23 Setembro 2013 00:00

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PGL | Nationalia - Com certa solenidade, no Memorial de Gandhi de Nova Deli acabam de ser apresentados os resultados do último censo lingüístico da Índia, obra de Ghanesh Devy, ex-professor de língua inglesa (prémio Linguapax 2011), a que dedicou quatro anos de investigaçom. O autor chegou à conclusom de que, das 850 línguas recenseadas na Índia, polo menos 200 estám ameaçadas de desaparecimento (particularmente as que som faladas por menos de 10.000 pessoas).

Este trabalho tem a peculiaridade de que a pescuda nom foi feita por lingüistas profissionais, mas por 3.000 voluntários que percorrêrom a Índia, durante quatro anos, pedindo aos interlocutores que se, em seu entender, os membros da comunidade a que pertenciam falavam umha língua própria, diferente das dos seus vizinhos, dessem provas disso, a fim de se detectarem os elementos para confecionar, se preciso, umha gramática e um vocabulário próprios. Quando os interlocutores nom eram capazes de fornecer tais elementos, vinham a dizer que as suas línguas chegavam a um grau de empobrecimento tam grave que estavam às portas da extinçom.

A erosom lingüística, fonte de conflitos

Umha das constataçons desta pesquisa é que a grande riqueza lingüística da Índia é fruito das diferentes maneiras de as pessoas se relacionarem entre si nos espaços que formam os seus respectivos territórios — territórios que, no caso da Índia, estivérom tradicionalmente muito ligados à sua interpretaçom diferenciada por parte dumha sociedade essencialmente agrícola. Numha sociedade assim, as línguas puidérom manter a sua vida própria. Justapugérom-se sem se confundir.

Porém, a Índia desde há anos deixou de ser essencialmente agrícola, as aglomeraçons urbanas tenhem vindo a crescer até ao extremo. É, particularmente, nestas aglomeraçons que a herdança da colonizaçom inglesa é mais patente, sobretudo na imposiçom do idioma, o inglês, que se tem tornado umha língua de substituiçom que erodiu a diversidade lingüística e criou umha mentalidade, muito difundida, que quebrou o valor plural das línguas: o inglês favoreceu a ideia de que os territórios nom podem limitar as línguas porque é o ser humano que tem o poder para os explorar até onde lhe convinher e usar o idioma que mais lhe facilite essa tarefa; em contra da ideia que a gente pertence ao seu território concreto, de cujo respeito extrai a sua própria visom do mundo, com umha língua correspondente com que o interpreta.

O Estado indiano, por mais plural que se apresente, de facto demostra, segundo o referido estudo, umha espécie de apatia para com as outras línguas que nom ajuda nada a favorecer a diversidade lingüística, por mais que tenha escolhido umhas quantas línguas (23, com o hindi à cabeça) como a línguas oficiais (juntamente com o inglês). Mas nem assim o Estado indiano chega a ser um modelo de respeito ao pluralismo lingüístico, já que dá facilidades à aprendizagem destas línguas em detrimento doutras que nom beneficiam dum reconhecimento institucional semelhante.

O trabalho de Ghanesh Devy é, em definitivo, um chamamento para salvar as línguas em perigo da Índia. Um apelo significativo, sublinhava o ministro da Cultura, Xadresh Kumari Katox, no ato de apresentaçom do referido estudo, em 5 de setembro, no Memorial de Gandhi.

Será suficiente este estudo para a suscitar a necessária "reconciliaçom" lingüisitica? Questionava o correspondente de Le Monde, Lulien Bouissou.