A obra galega de Claude Lévi-Strauss

«A etnografia de uns índios do Amazonas é idêntica, no seu fundo, à do próprio pensamento e a da própria memória, como se tudo isso encontrara a sua verdadeira entidade no centro de um quarto de ecos e espelhos».

Manuel Delgado Ruiz.

Sexta, 13 Novembro 2009 00:00

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Claude Lévi-Strauss, um dos mais grandes pensadores do século XX

Carlos Calvo Varela - A passada semana, como a morte de Claude Lévi-Strauss, a França ficou finalmente sem o último dos seus grandes pensadores da segunda parte do século XX. Aos seus cem anos, foi o último em ir-se.

Antes do que ele, Michel Foucault e Pierre Bourdieu deixavam de existir após conformarem campos de investigação fecundos, só possíveis na medida em que Lévi-Strauss derribou o monopólio de Sartre no campo intelectual e fez possíveis outro tipo de perguntas.

Na Galiza a notícia do falecimento não teve demasiado eco, seguramente porque coincidiu com a morte de um famoso ator espanhol dos anos cinquenta e a do escritor Francisco Ayala[1]. Contudo, a ocasião é boa para recordar o facto de que Lévi-Strauss começou e rematou[2] publicando na nossa língua, e na sua formação como etnólogo a lusofonia ocupa um papel fulcral.

Os acontecimentos que precipitaram a sua chegada a São Paulo estão recolhidas nos primeiros capítulos de Tristes tropiques. A megalópole era de aquela uma pequena cidade rodeada de selva por toda a parte, onde o cancro urbanístico nem se podia intuir. Em 1935 encontra-se com os Kaingang, os primeiros índios brasileiros que visita. O principal material que recolherá será entre novembro de 1935 e março de 1936, quando visita os Kadiwéu e os Bororo; assim como na expedição que entre maio e novembro de 1938 que o levou até os Nambikwara e os Tupi-Kawahib.

Lévi-Strauss publicou, originalmente, em três línguas: francês, inglês e galego/português. De facto, uma das primeiras contribuições do etnólogo da que se tem constância é o artigo “Entre os selvagens civilizados”, publicado em 1936[3]; o mesmo ano no que publica “Contribution a l'étude d'organisation sociale des indiens bororo”[4], que lhe dá a carta de eminente americanista. Já nos 40 publicará muito em inglês, na prestigiosa American Anthropologist, mas também continuará a exprimir-se na nossa língua, que emprega nas suas aulas em São Paulo. Mostra disto é o artigo “Guerra e comércio entre os índios da América do Sul”[5], em 1942.

No 1949 publicará o seu primeiro livro, Les structures élémentaires de la parenté, que asinha se tornará de leitura obrigatória no estudo do parentesco. A começos dos anos 50 intenta que a prestigiosa editorial Gallimard lhe publique um conjunto de artigos sob o título de Anthropologie structurale, que finalmente rematará por editar Plon. Quando em 1955 Lévi-Strauss publica Tristes tropiques, quem sabe já o que lhe teria pessado a Gallimard rejeitar o que daquelas poderia parecer uma extravagância no império da filosofia existencial. Esta anedota pode ver-se, não obstante, como um signo da mudança dos tempos na vida académica parisina.

Hoje em dia Tristes tropiques pode que já não tenha demasiada importância para o avanço da ciência social; a sua contribuição teórica e sobretudo empírica não foi demasiado grande mas segue a ser, sem dúvida, o livro de etnologia mais formoso jamais publicado. Claude Lévi-Strauss, o viageiro que renega dos livros de viagens, plasma neste livro o profundo desassossego por ser cúmplice da crescente modernização exterminadora; a má fé do etnólogo incapaz de descobrir uma cultura ainda não poluída por Ocidente. Assim o expressa Manuel Delgado, o prologuista da edição espanhola: “Testemunha privilegiada de como naufragam as culturas, quiçá o etnólogo entenda, com essa incómoda consciência, a dimensão real da sua sorte e da sua miséria: a de ser um dos últimos em ver e palpar esse tesouro imenso que é a diferença, um tesouro que não soube merecer Ocidente, essa praia, não menos triste, aonde chegam a morrer os deuses”.

O leitor galego que se achegue a esta obra pode que experimente algo semelhante ao que narra o autor. Na sua procura do “diferente” só receberá o seu ser mais fundo. Em Tristes tropiques as abundantes palavras na língua original do nativo, do exótico –recurso retórico próprio da antropologia, que ajuda a causar esse efeito de “eu-estive-lá”–, serão para nós familiares mas desconcertantes: a volta do reprimido. A leitura deste clássico pode ser o confronto com a particular contradição do galego e a sua identidade linguística.

E um por um, todos os efeitos de realismo etnológico remetem ao leitor galego à sua contradição com a sua própria identidade, que lhe chega através da procura da “diferença” dum etnólogo francês. No capítulo 12, o galego poderá achar uma descrição e um desenho do próprio autor da figa, defesa simbólica contra o mal, que lhe resultará bem familiar e pouco “exótica”. Todos os efeitos do eu-estive-lá entrelaçados com a maravilhosa prosa lírica em francês serão neutralizados para o galego, que verá como as palavras que o autor mantém na língua original são do estilo de: comida quente, comida fria, pinga, mouros, cristãos, aldeia, missão, fazendeiros, arroz-sem-sal, etc., etc., etc... Por não falar de quando se encontre com o minucioso desenho de um detalhe do carro de bois brasileiro, que bem poderia ser de Joaquim Lourenço 'Jocas' sem nenhum problema.

Ou que estranhamento achará o leitor galego na pequena mostra de poesia do sertão que reproduze Lévi-Strauss em língua original?

O Soldado...
O Oferece...
O Sargento que era um homem pertinente
Pegô na penna, escreveu pro seu Tenente
O Tenente que era homem mui bâo
Pegô na penna, escreveu pro Capitão
O Capitão que era homem dos melhor?
Pegô na penna, escreveu pro Major
O Major que era homem como é
Pegô na penna, escreveu pro Coroné
O Coroné que era homem sem igual
Pegô na penna, escreveu pro General
O General que era homem superior
Pegô na penna, escreveu pro Imperador
O Imperador...
Pegô na penna, escreveu pro Jesu´Christo
Jesu´Christo que é filho do Padre Eterno
Pegô na penna e mandó tudos pelos inferno[6].

Não era pouco com isto, que em páginas mais adiante, falando da magia negra da Amazónia, o etnólogo bate com a “Oração do sapo seco”:

Eu te enterro com palma de chão lá dentro.
Eu te prende baixo de meus pés até como fôr o possível.
Tens que me livrar de tudo quanto e perigo.
Só soltarei você quando terminar a minha missão.
Abaixo de São Amaro será o meu protetor.
As undas do mar serão meu livramento.

Que deve ser cantada conforme se pratica um ritual de medicina simbólica que, como não, tiraram do Livro do São Cypriano. Tudo estremadamente exótico para nós, tudo estremadamente familiar para nossos avôs.

Esta proposta de leitura comemorativa do Tristes tropiques situa o leitor na incómoda posição do viageiro que na procura do autêntico só recebe de volta o reprimido no seu inconsciente. Procurará “selvagens” mas só achará indígenas a falarem um galego prístino, prévio –curiosamente– à colonização. Procurará mitos de terras por civilizar, mas só achará uma lírica que, para o leitor despistado, recordará mais bem a um poema da literatura galega medieval que desconhece.

O ritual desta leitura é o de um ré-encontro insuspeitado. Como nessa cena final de Planet of the Apes na que os protagonistas entendem todo ao ver algo que emerge na praia, a verdade da nossa língua aparece dos beiços de um Meendinho da Amazónia que trova um galego moderno, vestido com um único estuche peniano. E a nós, os galegos despistados, o que nos chamará atenção será esse galego da selva que, num brinquedo sarcástico, o único que terá de exótico será não estar inçado de espanholismos... Sem dúvida, “a etnografia de uns índios do Amazonas é idêntica, no seu fundo, à do próprio pensamento e a da própria memória, como se tudo isso encontrara a sua verdadeira entidade no centro de um quarto de ecos e espelhos”.

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Entrevista a Claude Lévi-Strauss

 


 

NOTAS A RODAPÉ

  • [1] Como costuma passar, a imprensa regional apressurou-se a estabelecer vínculos de toda classe dos falecidos com a Galiza.
  • [2] Os seus últimos livros são Saudades de São Paulo (1996) e Saudades do Brasil: A Photographic Memoir (1995).
  • [3] C. Lévi-Strauss, “Entre os selvagens civilizados”, O Estado de São Paulo, 1936, pp. 66-69.
  • [4] C. Lévi-Strauss. "Contribution a l'étude d'organisation sociale des indiens bororo", Journal de la Société des Américanistes, 1936, vol. 28: 269-304.
  • [5] Que se pode achar em Schaden, E. (ed.), Leituras de etnologia brasileira, São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1976, pp. 325-39.
  • [6] Mantenho a transcrição do autor sem corrigir.