O périplo lusófono de Michel Foucault

A “obra galega” de Foucault é sem dúvida A verdade e as formas jurídicas, fruto das conferências dadas em 1973 em Rio de Janeiro, e publicadas em 1978 originalmente na nossa língua

Sexta, 20 Novembro 2009 00:00

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Foucault na sua casa em Paris

Carlos Calvo Varela – O contacto do filósofo Michel Foucault com a lusofonia produze-se também através do Brasil e de São Paulo, pequeno santuário da intelectualidade francesa na América do Sul. O primeiro ano em que visita o país é 1965. Lá estava Gérard Lebrun, o que fora aluno seu na Ecole normale supérieure em 1954, exercendo de docente de filosofia na Universidade de São Paulo[1].

Esta primeira estância efectua-se no mês de outubro, durante o qual Foucault dá a ler o manuscrito de Les Mots et les choses ao ex-pupilo, com o que comenta e discute a obra. Não obstante, Lebrun é um magnífico especialista em Kant e Hegel, assim como em Merleau-Ponty. Posteriormente defenderá a leitura do clássico recente da epistemologia francesa como uma obra contra a fenomenologia de Merleau-Ponty. Esse tempo também o aproveita para dar conferências nos que, paralelamente, apresenta publicamente os primeiros trechos da futura obra. Ká nessas datas comentará-lhe a Lebrun o seu desejo de escrever uma História da Sexualidade: “é quase impossível de fazer –comenta-lhe Foucault–. Jamais poderemos encontrar os arquivos”.

Meses depois, quando se publica o livro, converte-se imediatamente num sucesso surpreendente de vendas. Um livro de epistemologia, mui especializado e de leitura dificultosa polo barroquismo da prosa, que, porém, é devorado polos franceses; algo totalmente insólito e que à vez demonstra a peculiaridade da filosofia no mundo cultural da França. As edições esgotam-se uma após outra com uma velocidade mais própria de best-sellers. “Segundo as reportagens que publicam os periódicos da época –explica o cronista dos “estruturalistas”, Didier Eribon[2]–, lê-se a obra de Foucault nas praias, ou polo menos a gente leva-a de férias, exibe-a acima das mesas dos cafés para mostrar publicamente que um acontecimento de tal magnitude não se lhe passou por alto...”.

 

Foucault numa conferência no Japão

 

Em 1973 voltará ao Brasil, agora invitado pola Universidade Católica de Rio. Aproveita então para conhecer o país: visita a Amazónia como Lévi-Strauss, viaja polo interior e chega até Belo Horizonte junto com o seu companheiro Daniel Defert. Regressa em 1974, chamado polo Instituto de Medicina Social da Faculdade de Rio: dá seis conferências sobre psiquiatria do século XIX; mas também visita o Nordeste, zona mais pobre do país. Fruto destas conferências em Rio de Janeiro será o livro As formas jurídicas da verdade, a “obra galega” de Michel Foucault à que voltaremos mais adiante.

Em 1975 este idílio com o Brasil toma um novo cariz. Este será um ano mui intenso politicamente para ele. O 22 de setembro prepara uma intervenção em Espanha para perante o “Processo de Burgos” contra militantes de ETA por parte do franquismo. Faz um ato público em território espanhol junto com Yves Montand, Claude Mauriac, Régis Debray, Costa Gravas e Jean Lacouture. Entre outubro desse ano estará alojado na casa de Lebrun em São Paulo, trabalhando para a universidade. Menestra conferências sobre a psiquiatrização e a anti-psiquiatria. É então quando um jornalista, membro do Partido Comunista que operava na clandestinidade, é assassinado nos locais da polícia. Era judeu,

“mas a comunidade judia –engade Foucault– não se atreveu a celebrar o funeral com solenidade. E foi ao arcebispo de São Paulo quem mandou celebrar uma cerimónia, polo demais inter-religiosa, em memória do jornalista na catedral de São Paulo; o que atraiu a milheiros e milheiros de pessoas à igreja, à praça, etc.” E continua o relato: “O cardeal, vestido de púrpura, presidia a cerimónia; avançou face os fieis e saudou-nos gritando: “Shalom, shalom!” No enquanto, fora, a praça estava tomada por policiais armados e o interior da igreja infestado de policiais à paisana. A polícia botou-se atrás: não podia fazer nada contra isto. Tenho de dizer que isto tem uma grandeza, uma força; tem um peso histórico gigantesco.”[3]

A repressão é terrível: violência, detenções, vigilância... Foucault nega-se então a ser cúmplice de tal regime, e dirige uma declaração pública à universidade indicando que se nega a exercer a docência para a instituição de um país no que não existe a liberdade. Desde esse momento ele e Lebrun permanecem sob vigilância da polícia secreta, o que provoca o rápido abandono do país por parte de Foucault. Em outubro estará na Columbia University em Nova Iorque expondo o rol dos médicos e psiquiatras na tortura praticada no Brasil contra militantes políticos. Na conferência participam também Deleuze e Guattari.

Foucault na sua casa

 

Contudo, ainda voltará ao país para “desfiar esta proibição oficiosa”, aceitando em 1976 dar uma série de conferências no Salvador de Bahia –cidade que alberga a maior colónia galega– na Aliança Francesa. E falará também em Recife, em Belém... Sem nenhum tipo de problema embora continue a ser pessoa non grata.

No 1977 publica em Itália Microfísica del potere, texto compilatório de debates, entrevistas, artigos, etc., mui lidos na extrema-esquerda; que é traduzido no Brasil ao mesmo tempo.

A “obra galega” de Foucault é sem dúvida –e como já vimos– A verdade e as formas jurídicas, fruto das conferências dadas em 1973 em Rio de Janeiro, e publicadas em 1978 originalmente na nossa língua. Diz na introdução que

O que gostaria de dizer-lhes nestas conferências são coisas possivelmente inexatas, falsas, errôneas, que apresentarei a título de hipótese de trabalho; hipótese de trabalho para um trabalho futuro. Pediria, para tanto, sua indulgência e, mais do que isto, sua maldade. Isto é, gostaria muito que, ao fim de cada conferência, me fizessem perguntas, críticas e objeções para que, na medida do possível e na medida em que meu espírito não é ainda rígido demais, possa pouco a pouco adaptar-me a elas; e que possamos assim, ao final dessas cinco conferências, ter feito, em conjunto, um trabalho ou eventualmente algum progresso.

Hipóteses que serão de grande importância para um dos seus grandes livros, Surveiller et punir. Absurdamente, a receção desta “obra galega” na Galiza produziu-se dous anos depois e através do espanhol, quando o livro se edita em Gedisa numa tradução direta do galego (não do francês). Na atualidade no Brasil está-se a desenvolver uma linha de pesquisa chamada “Michel Foucault no Brasil: ditos e escritos pela liberdade”, que visa “Retomar indícios das passagens de Michel Foucault pelo Brasil, nas décadas de 1960 e 1970, com base em fontes escritas e orais. Seminários, cursos, notícias na imprensa e narrativas dos que com ele conviveram servirão de base para explorar exercícios de liberdade em um panorama então caracterizado por intensas relações de dominação”[4]. Cá preferimos seguir a ler, conhecer, imaginar, o que nos permitem os aduaneiros do Reino.

Mas na Galiza tudo é mais complexo, e este panorama não fica completo sem recordar que foi em boa parte mérito de uma galega, a socióloga da Ulfe (Chantada) Julia Varela em equipa com Fernando Álvarez-Uría, a labor de divulgação da obra do francês no estado espanhol, através da magnífica coleção de “Genealogía del Poder” de Ediciones de La Piqueta, que traduziu obras centrais das ciências sociais críticas para o espanhol.

 

Para saber mais sobre Foucault:

 

 

[1] Outro filósofo francês cuja obra póstuma, por certo, também está em galego: A filosofia e sua história, uma compilação que os seus alunos da Universidade de São Paulo fizeram de vários manuscritos, para publicar em 2006. Devemos-lhe a Lebrun, aliás, uma frase tão formosa como contundente: “Cada vez que o avião se aproxima do aeroporto de São Paulo, tenho a impressão de que o bom e velho de Aristóteles tinha razão com a sua teoria do ‘lugar natural’”.

[2] A maioria dos dados estão tirados da sua biografia “canônica”, escrita por Didier Eribon: Michel Foucault (1926 – 1984), Éditions Flammarion, Paris, 1989.

[3] Em Thierry Voeztel, Vingtans et après, Grasset, 1978, pág. 157.

[4] Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Ministério de Ciência e Tecnologia. Linha de Pesquisa: "Michel Foucault no Brasil: ditos e escritos pela liberdade".