Saravá, Susana: bem-vinda à res/pública das letras

Segunda, 18 Janeiro 2010 09:12

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Carlos Quiroga falará esta quarta-feira na apresentaçom de [de]construçom

Carlos Quiroga - Susana Sánchez Arins, nascida no litoral pelos anos '70, licenciada em Filologia Hispânica e Filologia Portuguesa, professora de ensino secundário numa ilha, curiosa por grandes viagens intercontinentais dos tempos antigos, praticante dos possíveis percursos próprios nos tempos modernos, encontrou finalmente um centro do mundo, casa, para jubilar os incansáveis desejos de itinerância –que por vezes a todo galego ou galega toma.

E cantou breve a descoberta. E cantou encatatoriamente o processo de transformar a ruína em templo. E temos isso em livro e público, o primeiro dela que não sendo o único a existir aqui agora nos convoca. A isso só nos vamos referir.

Desde que Rimbaud –o poeta mais fulgurante dos tempos modernos–, desde que o poeta viageiro desviou definitivamente o curso da Poesia para vales alargados onde o caudal se espalha, onde a profundidade se aparenta impossível, onde sobre as águas boiam todo tipo de artefactos e desperdícios verbais, onde a arte da sugestão –como queriam especialmente os simbolistas para a Poesia–, onde a capacidade de significação, postas a levitar com economia e habilidades de prestidigitação, são prescindíveis, desde que tudo isso acontece, parece que tudo vale. E vale para termos o mundo poluído de papel impresso que nos cerca. Porque não tudo vale para chamar de Literatura.

E o rastro emulador das liberdades que abriu Rimbaud está pavimentado de cadáveres de maus livros, de livros contaminantes. Creio que o de Susana não é um mau livro, creio que o livro de Susana tem várias qualidades que lhe asseguram alguma perdurabilidade. Justamente lhe asseguraram um prémio que permitiu a sua publicação –e ainda bem que nos meandros do acaso dos prémios existem felizes desenlaces.

Recordando meditações anteriores sobre o tema, repetirei aqui que:

- não toda escritora é poeta, aristotelicamente falando, nem mesmo todas as poetas são hoje escritoras. E temos aqui como em toda a parte poetas que não são escritoras nem poetas e até temos não-poetas ou não-escritoras que aparecem nas estantes das livrarias com grandes medalhas. E ao contrário, há poetas e escritoras que faltam nelas. Susana faltava.

- deixando de parte esse problema que em ocasiões os prémios, se a censura não se encirra, ajudam a ultrapassar, tenho claro que a definição primária de escritora ('aquela que escreve') se afunila na de poeta: 'escritora que compõe poesia'. Susana compõe.

- depois, chamar Poesia à escrita de versos é reduzionismo, porque Poesia não é só aquela coisa nos livros que não chega bem às margens. Foi essa prática que colocou a gente a correr em sentido contrário do que chama coisa efeminada que rima. Que hoje nem rima. A rima pelo menos forçava um ritmo –podia faltar sentido ou pensamento que preste, mas pelo menos mostrava trabalho compositivo. No pós-Riambaud há muita ausência do trabalho de compor e do sentido de significar, falta de ritmo, falta de sugestão, falta de pensamento, há muito ruído insignificante, linhas entrecortadas sem pudor de gastar papel. No livro de Susana há sugestão, trabalho compositivo e sentido de significar.

- ainda, creio que o livro de Susana, contra tudo isso, tem várias qualidades que lhe asseguram alguma perdurabilidade, na forma, nos conteúdos, e ainda numa terceira dimensão. Não é lugar para dilatar-me em explicações, mas bastará dar algum indício destas três orientações positivantes.

1) Na forma, Susana consegue achados compositivos com recursos simples mas muito efectivos. O uso da partícula funcional [de], desde o próprio título e nalguma das partes do todo, é o exemplo mais visível:

[de]construçom
[de]volta
[de]senhas
[de]coraçom

O carácter funcional simultanea um desdobramento semântico afortunado para o tema abordado, de/contruindo verbalmente a casa que no referente real se está a construir, dando as senhas do que previamente se desenha, entranhando na víscera central do simbólico sentir o superficial aprimorar, decorar.

Os africanos foram formidáveis alargadores deste mecanismo na nossa língua, eles "desconseguem" aborrecer-nos com as suas ousadias, eles "desconversam" do dicionário forçando o vocábulo, mas na Galiza (em muitos sentidos também muito africana) poucas alegrias nos permitimos com este recurso. Susana sim. Como também se permite o uso quase branco do signo de pontuação e o uso permanente da minúscula, usando com consciência e trabalho: noutros livros doutros autores é uma prática tão vulgar, snob, e falta de pertinência que acaba por evidenciar apenas o contrário, uma preguiça –que acrescentada às ausências de ritmos e sentidos agrava a percepção do que é Poesia: já não é só aquela coisa nos livros que não chega bem às margens, mas também a que se permite ter faltas de ortografia.

2) A segunda vertente, a dos conteúdos, é ainda mais importante neste livro. Da Poesia em geral não se deve esperar que "conte", que explique ou que signifique –mas a despreocupação por uma orientação significante acabou por instalar demasiadamente o grau zero em poesia, o não contar nada, a intenção ausente, a falta de conteúdos. Juntando-se ao factor anterior, de falta de investimento e trabalho nas formas, o resultado é pavorosamente afugentador de público: a gente já não recebe a sugestão de nada, não se deixa encantar por ritmos inexistentes, e não vê por parte nenhuma o invisível porque já não se pode resistir o visível que está na escrita –escrito com faltas e ortografia e despudoradamente desperdiçando papel: até é mais sugestivo ver tv.

Num tempo em que o visual é tremendamente poderoso, o livro de Susana tem ainda aquela antiga virtude de fazer "aparecer sombras e dar existência ao nada", de que falou Edmund Burke, porque escolheu um nervo directo às nossas cabeças pela via dos conteúdos. Tem também a capacidade de fazer "aparecer o invisível", que falou Nathalie Sarraute, pelo mesmo motivo. Porque no retorno viagístico de um qualquer Rimbaud, Susana encontrou um poderoso motivo que outro ilustre francês, Gaston Bachelard, elevou a símbolo supremo do ser interior.

Com efeito, sem quebrar a solidariedade da memnória e da imaginação, na imagem que guardamos da casa, no recordo que temos da infância, reencontramos algo que comove com profundidade insuspeita. A todo o mundo comove. Porque a casa é uma imagem das de maior comoção e elasticidade psicológica. E quando com enconomia verbal, de recursos simples mas efectivos, se nos coloca diante da radiação deste símbolo conteudístico, o resultado é tocante, os recordos das antigas moradas revivem-se como ensonhos, porque as moradas do passado são em nós imperecíveis. Afirma Bachelard. Imperecíveis as do passado mas também as do futuro.

Especialmente A Casa símbolo que o ser humano projecta para a sua intimidade urgente de adulto, lançando os fósseis do calor primeiro, matricial, protector, da primeira casa e do primeiro mundo onde foi lançado, para o espaço-paraíso que chegada certa idade todos sonhamos. A casa. Uma casa. Minha. Nossa, fazendo desse plural o paraíso mais singular em que só vamos admitir o mais amado. Ninho. Porque se antes 'casado casa quer', agora 'ser adulto casa almeja'. Por isso este livro tem pertinência conteudística para um leitor adulto em fase de almejar, construir, restaurar, comprar casa, por isso o livro lhe toca do global às partes, no processo construtivo que da casa se mostra, nos movimentos entre dependências, no memorialismo que elas acordam.

O desenvolvimento psíquico que este potente símbolo poderia permitir, inclusive em Poesia, está no livro de Susana exposto com suma continência. Num "dizer mais com menos palavras", que para mim também é mérito –e ainda vou tentar me auto-aplicar.

3) E assim passo directamente à terceira dimensão positiva deste livro, dimensão política. Algo que já tenho comentado ou escrito em mais de uma ocasião, e que se refere ao estigma presente que nele partilhamos os reintegratas, um defeito que com o tempo se tornará virtude. Ficam poucos lugares de Ocidente em que praticar uma poética da resistência, num discurso consciente da sua historicidade, seja ainda verossímil sem falar redutivamente de Poesia de intervenção, falando só e memso assim de Poesia, de todo o tipo de Poesia.

Fica quase só a Galiza em Ocidente onde basta usar uma língua, o galego-português, e usar uma ortografia, a sua genuína, para estar praticando uma resistência. Basta portanto ser da Galiza, um lugar onde preservar a sua identidade é uma tarefa também literária e poética, basta portanto ser da Galiza e escrever orientadamente neste sentido para poder ganhar a terceira dimensão de que falo.

E não é mérito pequeno o que por aqui pode chegar, pois como afirma Walter Benjamin e já invoquei noutra altura, a tendência política de uma obra implica a sua qualidade literária, porque engloba a sua tendência literária. A tendência política que o livro de Susana manifesta com a sua simples escolha ortográfica, essa tendência periférica, perseguida pelo espanholismo ou maltolerada pelo galeguismo submisso, até atacada por algum nacionalismo fascista e intoxicante, tem todo o futuro por diante –o único a haver se algum futuro a Galiza e a sua identidade libertada pode algum dia contar– para trabalhar também a favor da qualidade do livro.

Portanto, formas, conteúdos, orientação certa. Motivos numerosos para celebrar que Susana apareça do nosso lado com este primeiro livro. Saravá, Susana.