Modelo Burela: umha liçom de cinema e de senso comum sobre o uso das línguas

«Nom deixa de ser chocante e humilhante, a um tempo, que umha jovem galega deva explicar-se, e quase desculpar-se, por ter utilizado a sua própria língua no adeus definitivo de um ser querido»

Terça, 09 Fevereiro 2010 00:00

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O professor Escalera Cordero

Matías Escalera Cordero (*) - Umha jovem galega de Burela, Lugo, justifica-se, diante dum frontal de nichos, durante vários minutos – e quase se desculpa –, por se ter atrevido a convencer, primeiro, os seus familiares e, depois, o marmorista, de que o epitáfio de um dos seus seres queridos, falecido, ficasse escrito na língua do defunto, que nom era outra que a língua dos seus familiares...

... que nom era outra que a língua do marmorista, e que nom era outra que a sua própria língua, isto é, a língua galega; e isto, no meio dum mar de lápides escritas em castelhano… Só esse fragmento de vida arrancada ao ecrã, bastaria para recomendar a todos os galegos, e ao resto dos espanhóis, que vissem o documentário de Matías Nicieza e Bernardo Penabade, Modelo Burela (2009), recentemente exibido no Palácio del Marqués de Valdecillas de Madrid, na inauguraçom do Ciclo “Documentales y Cortos sobre la Memoria”, organizado pola AMESDE, Asociación para la Memoria Social Democrática, e pola Universidade Complutense de Madrid.

Nom sei se no seu caso, mas para alguém, como eu, que escreve e se exprime em castelhano, e que ensina língua e literatura castelhana – e nom só porque seja a sua profissom –, nom deixa de ser chocante e humilhante, a um tempo, que umha jovem galega deva explicar-se, e quase desculpar-se, por ter utilizado a sua própria língua no adeus definitivo de um ser querido.

Na realidade, pensando bem, essa cena humilha-nos a ambos, a ela, por se ter que explicar, e a mim, ao verificar, mais umha vez, como a minha língua, a castelhana, tem sido utilizada, e se pretende ainda utilizar, para desnaturalizar e avassalar as línguas de outros. Por isso, a ela e ao resto dos cidadãos de Burela, da Galiza, do País Basco, da Catalunha, lhes digo que esse uso espúrio da minha língua nom se fai em meu nome, nem no de muitos outros castelhano-falantes, que nos envergonhamos disso; e que o chamado “conflito lingüístico” nom existe mais do que entre os que nos querem separar e enfrentar, mas nom entre os que de verdade nos queremos comunicar, e expressar o que somos, na língua ou nas línguas que somos.

E, no entanto – eu bem sei –, há muitos castelhano-falantes que se sentem sinceramente atribulados polo destino da sua língua; a eles, pergunto, pode, na verdade, crer-se que umha língua que falam quatrocentos milhões de pessoas em três continentes, e que estudam dezenas de milhões de outras pessoas, nesses, e nos dous continentes restantes, vai ficar ressentida por os nossos compatriotas galegos, bascos e catalães falarem, pensarem e se exprimirem nas suas próprias línguas? realmente alguém com senso comum pode crê-lo?

As línguas desenvolvem-se ou morrem pola utilidade social e prática que nos oferecem – enquanto ferramentas de comunicaçom que som –, e nengumha política lingüística, numha conjuntura democrática, seja esta ingenuamente voluntarista, ou ansiosamente histérica, conseguirá modificar nem um ápice esse facto incontrovertível. Só umha política premeditadamente imperialista, de extermínio e substituiçom, e este, creio, nom é o caso, o conseguiu – e, mesmo assim, parcialmente – no passado. Por isso mesmo, digo-lhes também a esses mesmos atribulados falantes da minha própria língua que, paradoxalmente, se há umha língua que esteja em perigo de desapariçom na Galiza é o galego; como, no País Basco, o é o euskera; e, na Catalunha, o catalám; e que som estas as línguas que devem ser protegidas. Que a imposiçom do castelhano, a queixa contínua e o abuso, nom humilha tanto as línguas dos outros, como, sobretodo, a nossa língua; e que não lhe fazemos um grande favor, desse modo, pois impedimos que se estabeleça o natural convívio entre os idiomas; essa interacçom que os especializa e distribui, na sala de aula, no recreio, em casa e na rua; quer dizer, em cada um dos contextos e “situações de uso” que marcam os ritmos da vida quotidiana, de um modo lógico e harmónico. Além de provocar umha patente – e, porque nom, lógica também – animadversom numha parte dos que, objectiva ou subjectivamente, se sentem expropriados da sua própria.

E, em última instância, alguém crê, a sério, que a vitória do castelhano nos cemitérios e nos cartórios notariais galegos, fai algum favor à nossa língua? Alguém crê que levando a tensom às escolas e aos claustros de professores, suscitando um conflito onde nom o há, por mero interesse político, fai um favor à língua que supostamente defendem? Quem o pense, nom está neste mundo. E é isto precisamente o que Matías Nicieza e Bernardo Penabade, com umha câmara de terceira mão ao ombro, e um microfone de karaoke, com extraordinário olfacto para o discurso cinematográfico e documental, deixando que fale e se expresse essa jovem, e mais umhas dezenas de cidadãos de Burela, nos mostrárom, numha liçom de senso comum e de cinema documental insuperável.

 

(*) Escalera Cordero, Matías: nasceu em Madrid, em 1956; embora passasse a infância na cidade de Cáceres. De regresso a Madrid, conciliou os seus estudos universitários com a militância política durante os últimos anos do franquismo e a chamada “transiçom”; até que, na segunda metade da década de oitenta, se foi, primeiro para Moscovo onde foi testemunha dos primeiros passos da Perestroika, numha Uniom Soviética já agonizante; e, dali, para Liubliana (Eslovénia), em cuja Universidade foi professor de língua e literatura espanholas; até que, pouco antes do início da guerra civil jugoslava, em 1991, voltou para Espanha, depois de ter presenciado e vivido a morte dum mundo, o dos “blocos ideológico-militares”, e o nascimento dum outro, o do “pensamento único”.

Vim nascer e morrer dous mundos – comenta, às vezes –; vivim em dous países que já nom existem, e estivem noutros dous que também desaparecêrom; além de ter nascido numha cidade onde ninguém é forasteiro, e num país que, após quinhentos anos, nom se sabe mui bem o que é; do único, porém, que podemos ter certeza é da existência de seres que sofrem e de seres que infligem sofrimento; e que a única fronteira real é a da classe a que se pertence.

Na actualidade, trabalha como professor em Alcalá de Henares, e é Secretário da redacçom da revista de filologia Verba Hispanica; e publica regularmente os seus trabalhos em diversas revistas nacionais e internacionais.

No livro colectivo La (re)conquista de la realidad, que recentemente coordenou para Tierradenadie Ediciones, expressam-se as convicções fundamentais acerca do seu modo de entender a escrita literária. Publicou o poemário Grito y realidad (Tenerife, 2008).

 

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