Petição em defesa da condecoração do Padre Fontes e palavras de Issac A. Estraviz

Padre António Fontes: «... Quem vê Barroso, vê Galiza, vê Otero Pedrayo»

Quinta, 04 Março 2010 00:00

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Padre António Fontes

PGL - Uma petição está a circular na Internet em defesa da atribuição de um dos graus das Ordens Honoríficas Portuguesas por parte do Presidente da República ao padre António Fontes.

A iniciativa partiu de um grupo de amigos do sacerdote transmontano que, desde segunda-feira, já recolheu depoimentos de pessoas das mais diversas áreas, desde o meio académico, religioso ou político, até amigos do Padre Fontes provenientes da Galiza, como o professor Isaac Alonso Estraviz.

Eis as palavras do académico galego para com a petição em defesa da condecoração do Padre Fontes:

Conheci o Padre Fontes na década dos oitenta. Naquela altura assistíamos a congressos de cultura trasmontana, encontros lúdico-pedagógicos, mesas redondas em Vila Real, Chaves, Braga, Montalegre relacionadas com a nossa língua e cultura. António Lourenço foi e continua a ser um grande dinamizador cultural. Um homem encarnado nas Terras do Barro, com vários livros, um jornal... No seu livro em dous volumes, ETNOGRAFIA TRANSMONTANA, diz-me na dedicatória: «... Quem vê Barroso, vê Galiza, vê Otero Pedrayo». Ele sempre foi para mim o exemplar enxebre de portugalego. Aparentemente é outro camponês mais de Tras-os-Montes. É uma pessoa aberta, generosa, misturado com o povo, defensor acérrimo e dignificador da sua Terra e Cultura.

Fontes é um sábio nos seus saberes de antropologia sociocultural, um grande conhecedor do homem e da sua condição humana e aceita-o como é com todas as consequências. É um sábio em Teologia, um dos padres com as ideias mais claras, que não aceita mitos nem fantasmas. Mas isso só se conhece quando se fala com ele demoradamente e se lhe pergunta por toda uma série de problemas humanos e divinos, falar e escutar devagar e ouvir que “O Deus que perturba não é Deus. O castigo não é Deus que o faz, é o ser humano o causador dele. É o provocador e o actor”, resulta consolador.

Trata-se de um homem sempre atento ao que se passa ao seu redor, que sabe escutar a todos, que está ao lado deles e que quere a todos e todos o querem a ele. Para mim trata-se do português transmontano –e também galego- mais conhecido e mais querido por todos. O seu telefone está a comunicar constantemente e essas chamadas respondem a problemas de índole religiosa ou psicológica e ele escuta a todos e dá a resposta adequada.

Encarnou em si o espírito e a alma trasmontana e sabe transformar tudo o que toca em humano, espiritual. Para mim é ele como um novo Cristo que passa por todas as partes fazendo o bem, erguendo os ânimos e ajudando as pessoas a resolverem os seus problemas.

Entregou-se plenamente a seu povo e fez que a cultura trasmontana fosse estudada em todos os aspectos por gentes estrangeiras. Soube valorar a cultura do povo e que esse povo sentisse o orgulho de ser o transmissor desses valores.

O Padre Fontes ultrapassou as fronteiras trasmontanas e portuguesas -e mesmo peninsulares- polos Congressos de Medicina Popular, destinados a deitar fora os problemas dos homens e procurar-lhe saída a muitos casos de difícil solução. Há problemas psicológicos que só psicologicamente se curam.

Tenho percorrido Portugal inteiro muitas vezes e por todas partes que tenho andado, ao falar do Padre Fontes todo o mundo sabe bem de quem se está a falar.

Tenho presenciado como pessoas vindas de Lisboa e de outros lugares se acercavam emocionadamente a ele e procuravam dar-lhe a mão no intuito de receber alguma cura.

No relativo ao seu contributo social, está o Lar para os maiores construído em Vilar de Perdizes, onde com pessoal especializado se faz uma vida social agradável, lúdica e muito boa para os idosos, facto prático de uma doutrina religiosa que não fica na teoria.

Outro caso a ter em conta é a casa de Turismo Rural em Mourilhe, onde através do turismo e o conhecimento da vira rural se fomenta um novo estilo de vida para afincar no solo os seus habitantes e onde com um trabalho do mais humano se cria uma série de relacionamento fraterno, sendo ele o primeiro servidor dos que ali acodem. Um jeito muito prático de fazer realidade o dito evangélico de servir os irmãos.

Se temos em conta todas estas actividades que tem levado a cabo em todos os campos sociais e humanos nas Terras do Barroso, podemos afirmar, sem lugar a erro, que, individualmente, o Padre Fontes foi uma das pessoas que mais leva feito por estas terras e ao que se lhe devia reconhecer de forma oficial e pública o seu lavor.

 

Issac A. Estraviz

 

+Ligações relacionadas: