Há cem anos proclamava-se a Iª República em Portugal

Os presidentes Bernardino Braga e Teófilo Braga tiveram fundas ligações com a Galiza

Terça, 05 Outubro 2010 13:56

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Maria Dovigo - O jornal republicano lisboeta A Capital começava com uma linda crónica o relato da proclamação da Iª República em 5 de Outubro de 1910, que acabava com 767 anos de monarquia em Portugal. O facto não nascia do nada.

A monarquia constitucional que vigorava no país desde 1834, enraizada na revolução de 1820, já tinha trazido mudanças irreversíveis: a aniquilação da aristocracia e do parasitário clero do absolutismo, a progressiva tomada do poder pelas classes industrializadas, a liberdade de associação e de imprensa ou a eleição parlamentar.

"Que escrever quando os olhos ainda se nublam de lágrimas de emoção, e o peito ainda palpita com a vibração da anciedade enorme que agitou durante estes dias de gloria e de tragedia? Quem viveu esses dias inolvidaveis, unicos da vida, não julga possivel traduzil-os ainda na expressão mais bella e mais sentida da palavra humana. (...) Isto é a vida, com as suas asperas luctas, as suas espirituaes affirmações, as suas sentidas crenças, os seus emocionantes enthusiasmos, e as suas rudesas magestosas cujas arestas se recortam no granito".

Começo da crónica do jornal lisboeta A Capital do dia 5 de outubro de 1910

Desde os inícios do século XX o inimigo a abater começou a ser a família real e as suas exorbitantes despesas, família que partiu para o exílio desde a praia da Ericeira no iate Amélia no dia 6 de Outubro. Dois anos antes, em 1 de Fevereiro de 1908, fora assassinado o rei D. Carlos I e o seu filho e herdeiro o príncipe D. Luís Filipe no Terreiro do Paço de Lisboa. Com a proclamação da República começou, também, um período de grande instabilidade política: entre 1910 e 1926 sucederam-se 48 governos. A Iª República terminará em 30 de Maio de 1926, com a demissão do presidente Bernardino Machado e a instituição duma Ditadura Militar, embrião do Estado Novo fundado em 1933 por Salazar segundo o modelo de Mussolini. Começou assim a mais longa ditadura da Europa ocidental, 48 anos que só terão fim com a restituição da democracia depois da Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1975.

Durante esses dezasseis anos de vida da Iª República serão tomadas medidas que terão forte influência na vida quotidiana, como a abolição do ensino da doutrina cristã nas escolas e o juramento religioso nos actos oficiais, a introdução do divórcio e o casamento civil, a folga ao domingo, o fim dos registos paroquiais e a instituição do Registo Civil, a criação das universidades de Lisboa e Porto (até esse momento só existia a de Coimbra), a fundação da GNR ou a participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial.

Manchete do jornal A Capital do dia 5 de outubro de 1910

O quê é que nos resta daquela República? Fundamentalmente os símbolos nacionais, a bandeira e o hino, e, até a chegada do euro, a moeda, o escudo, que veio substituir os réis. A Portuguesa, adoptada como hino nacional pela Assembleia Nacional Constituinte em 9 de Junho de 1911, nasceu depois do Últimato britânico de 1890 que visava que as tropas portuguesas abandonassem as suas posições em África.

Desde a Conferência de Berlim de 1885, Portugal reclamava a ligação das suas colónias de Angola e Moçambique numa única faixa que iria de costa a costa (o conhecido como "mapa cor-de-rosa"). Isto chocava com as pretensões britânicas de unir com uma grande ferrovia todo o continente africano, desde O Cairo até a Cidade do Cabo, obra que nunca se veio a realizar. A cedência do rei D. Carlos I às exigências britânicas foi considerada uma humilhação pelos republicanos portugueses. De facto, a primeira versão da Portuguesa, de 1890, tinha um verso, "contra os bretões marchar" que seria substituido na versão de 1911 por "contra os canhões marchar". A bandeira verde e vermelha já se identificava com o partido republicano desde a insurreição falhada de 31 de Janeiro de 1891. Foi adoptada como bandeira nacional em 30 de Junho de 1911.

Desde então propagou-se a ideia de que o verde representava a esperança da nação e o vermelho o sangue daqueles que morreram em sua defesa. A esfera armilar representa as descobertas. As quinas estão presentes na bandeira de Portugal desde o reinado de Afonso Henriques e têm diferentes interpretações, sendo a mais usual a que as identifica com as chagas de Cristo. Os castelos foram acrescentados ao escudo por Afonso III.

Bernardino Machado com Cebreiro e Vilar Ponte tirada na Crunha em 1927

Ligações com a Galiza

Teófilo Braga, eleito como segundo presidente da República em 1915, foi conhecido pela sua vasta obra como historiador da literatura. A sua antologia de poetas em língua portuguesa, intitulado Parnaso Português Moderno. Precedido de um Estudo da Poesia Moderna Portuguesa (Lisboa, 1877) divide-se em três secções: "Os líricos portugueses", "Os líricos brasileiros" e "Os líricos galegos".

Nesta última parte encontram-se poemas de Rosalia de Castro, Alberto Camino, Lamas Carvajal e uma variada colecção de cantos populares galegos. Convém lembrar que esta antologia provocou a reacção de Emilio Castelar, que no fim do seu prólogo às Folhas Novas de Rosalia escreve: "No olvidemos que hace poco un escritor insigne del vecino reino trazaba una especie de nacionalidad literaria compuesta de portugueses, brasileños y gallegos. Estas cosas podían pasar por juegos de la imaginación cuando no habían transcurrido horribles crisis, y no se habían visto ciertas tendencias que podrían reaparecer mañana, ora bajo la bandera del absolutismo, ora bajo de la bandera de la demagogia que tantos desastres han derramado en nuestros territorios y tantas amarguras en nuestros corazones, Para matar el provincialismo exagerado no hay medio como satisfacer las justas exigencias provinciales. No olvidemos que muchas de nuestras regiones, como Galicia por ejemplo, tienen literatura propia, la cual, respondiendo á una ley de la vida, á la ley de la variedad, debe coexistir con la literatura nacional, sin daño de la patria, mayor á medida que crecen sus hijos, y se fortifican los órganos que componen su cuerpo y se abrillantan las estrellas que pueblan su cielo. Rosalía, por sus libros de versos gallegos, es un astro de primera magnitud en los vastos horizontes del arte español" (negrito meu).

Na homenagem rendida a Manuel Murguia em 17 de maio de 1913, quando completava oitenta anos, entre outros amigos, Teófilo Braga lhe dedica uma extensa carta, da qual reproduzimos o último parágrafo: "É, portanto, um dever moral para nós, portugueses, cooperar simpaticamente com esta homenagem hoje prestada a D. Manuel Murguia, ao atingir esse píncaro da vida, completando os seus bem preenchidos 80 anos. Glória ao sábio historiador, que cimentou na sua obra o título da vida étnica da sua pátria, que ainda mantém a característica daquela raça à qual pertencemos, e que tira as suas energias da eterna esperança".

Bernardino Machado, duas vezes presidente, a primeira entre 1915 e 1917 e a segunda entre 1925 e 1926, quando sucedeu a Manuel Teixeira Gomes, foi deposto do seu cargo nas duas ocasiões por dois golpes militares. Depois do golpe de Sidónio Pais exilou-se na França, donde voltou para Portugal em 1919. Já depois do golpe de Gomes da Costa, começou um périplo que o levou em primeiro lugar à Galiza, concretamente à Crunha, onde foi recebido pelos republicanos mais destacados da cidade, entre eles Santiago Casares Quiroga, e manteve amizade com os galeguistas da época: Álvaro Cebreiro, Antóm Vilar Ponte, Leandro e Ugio Carré e Joám Vicente Biqueira.

Para além de ter recebido honras por parte do presidente da câmara, teve uma ligação muito especial com o artista Álvaro Cebreiro. Machado esteve nesses anos acompanhado pelo seu genro, o conhecido escritor Aquilino Ribeiro. Deixaram a Crunha por pressões do governo de Primo de Rivera, instalando-se na França, desde onde nunca deixou de desenvolver uma intensa actividade anti-salazarista. Cebreiro continuou a se corresponder com ele e, por sua parte, Machado pedia-lhe notícias dos seus amigos galegos e de novidades editoriais. Quando Hitler invadiu a França, foi autorizado a voltar a Portugal. O seu enterro em Famalicão, onde morreu com 93 anos em 1944, foi uma manifestação fortemente reprimida pela polícia, contra o Estado Novo.

Teófilo Braga no meio dos seus livros e papéis