Um beijo que deu a volta ao mundo

Segunda, 20 Dezembro 2010 00:00

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Jorge M. de la Calle - Já que ninguém está interessado numa notícia já reportada, ou numa imagem que já foi tirada, e também com uma câmara melhor, eu vou contar a minha experiência pessoal e intransferível. Um amigo recomendou-me que o fizesse, para dar uma outra perspectiva à atualidade, e confio nele porque ele é um jornalista também.

Pronto, sei que os jornalistas não têm grande apreço como para dizer a verdade. Mas isso é outra história. E em qualquer caso, os bons amigos, as boas pessoas, ou os jornalistas verdadeiros, eles sim, a dizem. Aqui vou eu.

Com menos de duas semanas de antecipação da visita do Joseph Ratzinger, alias Bento XVI, decidi organizar um protesto, eu um insulso desempregado galego, que não tem nada para fazer na vida que assistir todo o dia aos cursos financiados pela Comunidade Europeia. Eu queria expressar a minha total rejeição à Igreja Católica, como bissexual e sobre tudo como pessoa, mas também o meu desconforto como cidadão, pelo fato de que eu (ou, melhor, os meus pais, eu quase não existo para efeitos fiscais) tive que pagar a viagem e o apoio de alguém que não fez absolutamente nada por mim, e até mesmo pelos milhares de milhões de pessoas que só são prejudicados pelas suas “políticas”.

Africanos, negros, pobres em geral, homossexuais, bissexuais, transgêneros, “queer" em geral, mulheres, comunistas, vítimas de pederastas, deserdados, cristãos de base em geral, etc., qualquer grupo, não digo minoritário, mas “minorizado", é e se sente excluído pela “Santa Mãe Igreja", uma instituição que deveria receber no seu seio os excluídos, e não excluí-los ainda mais. "É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus" Jesus disse, embora eu pudesse estar errado com a minha má memória dum agnóstico recalcitrante. Há muito tempo que deixei a catequese, e não entrei numa igreja, exceto para admirar os seus tesouros artísticos.

O fato é que, com toda a minha boa vontade e com toda a minha pobreza de meios, pensei, escrevi e postei um evento no Facebook. Fui inspirado por aquele que se iria fazer em Barcelona, projetado por um grupo de seis amigos, incluindo Serge (alias Marylène), e Joan, de quem não sei o nome, e também o omitiria se o soubesse, porque querem ficar no anonimato. Eles queriam convocar uma "flashmob", ou seja, uma mobilização de cidadãos anónimos, simples e rápida, e que não ia recorrer a dísticos, bandeiras, slogans, nem gritos. Só se iam beijar. Preferencialmente, beijos entre pessoas do mesmo sexo, para aumentar o tamanho do que só uns poucos intolerantes podem considerar apenas uma provocação. O "beijo coletivo" teria sido num ponto indeterminado do caminho papal, que só teriam revelado a noite anterior.

Pronto, eu não conhecia a maioria dessas coisas, e também não a filosofia duma "flashmob", assim que, no início cometi vários erros. Só depois de observar, pensei que ao final tinha que ser uma cadeia humana de beijos, completamente anônima e inesperada, enquanto o Papa passava. No meio, achei melhor um impressionante, mas muito arriscado, “beijo coletivo” no meio da missa na Praça do Obradoiro; na verdade, era uma idéia "kamikaze" e com escassas probabilidades de ser realizada.

Estive a dormir três ou quatro horas por dia na semana anterior, acabando detalhes, fazendo várias traduções em várias línguas, com a ajuda dum amigo e do meu namorado, de modo que em qualquer momento, qualquer pessoa de qualquer país pudesse participar no evento; enviei mensagens em massa, por e-mail, facebook … (peço desculpa publicamente para todos e todas os/as que se tenham sentido assediados pela minha atitude espameadora, mas eu sinceramente acreditava que era a única maneira de informar, tornar consciente e mobilizar as pessoas, insistir mais uma vez, anunciar as coisas; e em qualquer caso, não tive problema para excluir da listagem quem me pediu, com boa educação, para que eu não o reescrevesse).

Pedi dinheiro emprestado (e com garantia de devolução) aos meus pais, que financeiramente estão tendo mau, ou pior do que eu, para viajar a Santiago, uma cidade que conheço bem, o ano pasado a residência universitária, e agora a minha segunda casa, e onde eu quero voltar. Desta aventura eu não tive quaisquer benefícios económicos e, além disso, perdi dinheiro, perdi horas de aula e, portanto, não me pagaram. Gastei tempo, dinheiro e energia, mas não em vão. Tomei a satisfação pessoal de que o único casal que se apresentou, já que ninguém outro ousou ou teve tempo de fazer uma coisa dessa diante do Papa, viu como o seu gesto bom e simples, era amplificado pela obra duma foto, e pelo poder dos meios de comunicação de massas. Eu não vou ganhar nada, nem mesmo a fama, e quando vi eles, tão apaixonados, pensei: "Gostava que este casal fôssemos o meu namorado e eu”. Mas, ao mesmo tempo, fiquei contente, porque é o melhor que poderia ter acontecido em tais circunstâncias. Ninguém lhes disse nada, nem chegou ao conhecimento da polícia, nenhum fanático católico os atacou. Tudo foi simples, fácil, rápido, limpo. E um único gesto de alguns segundos foi publicado em todo o mundo.

Lá estão: eles não fazem nada fora do comum, nada de ofensivo, nada de “revolucionário”. No entanto, pela Igreja Católica, seja isto dito incidentalmente, pela corporação municipal, pelas forças de "segurança" e pelos outros patrocinadores do evento papal, remunerados, ou mesmo que não, não remunerados pela Igreja (amparados por um suposto benefício econômico que os cidadãos comuns não perceberão), tudo isso é considerado assim. Fora do comum, ofensivo e “revolucionário”. Provocativo.

Isso que, em pleno século XXI, este gesto tão cotidiano seja considerado provocativo é uma clara regressão, um retorno às cavernas, uma falha grave do Estado de Direito. Da mesma forma, é grave que, por uma semana, Santiago de Compostela e Barcelona, fossem cercadas pela polícia. Em Santiago de Compostela seis mil, mas que não nos dizem por vergonha (se eles ainda ficarem com uma pouca), havia um policial para cada quinze pessoas. Será que todos nós, todos os habitantes ou os visitantes habituais da cidade, somos radicais, insurgentes, terroristas de Estado?

Santiago viveu um verdadeiro "estado de exceção", sem exagero, conquistada pela polícia (primeira e mais visível), sacerdotes, monjas, catequistas e catequizados (segundos), espanholistas e papistas fanáticos (terceiros e mais abundantes). Fui registrado quatro vezes, eu e qualquer um que quisesse cruzar as barreiras policiais. Tive que fazer um desvio como o inferno para chegar ao ponto que eu tinha escolhido, o último trecho antes da Praça do Obradoiro, praticamente inacessível para os supeitos de conspiração, como eu, porque as ruas estavam quase todas cortadas. E eu estava com medo, muito medo, incapaz de dizer em voz alta o que pensava, incapaz de reagir aos elogios que a maré de cristãos fundamentalistas, jovens do PP ou da igreja, dedicavam à "sua santidade", voltada de repente numa estrela do rock.

Como eu, o povo cívico e pacífico de Compostela tinha que ficar quieto, retirar-se para a sua casa ou caminhar em silêncio, e suportar o peso esmagador da repressão, a mordaça da liberdade de expressão, o custo da "segurança" através da venda da sua "liberdade" (embora não da sua própria segurança, claro). A “caspa” invadiu-nos. Milhares de Maripilis, Borjas e Cuquis, Pocholo e Lomanas, legiões incorrigíveis de “pijos”, invadiram uma cidade milenária, bonita e tão galega como Compostela, trazendo o cheiro de perfume caro, a sua Lacoste e a sua pashmina, o seu bronzeado de solarium e o seu sorriso “profidén”, além de inúmeras bandeiras do Estado espanhol e do Vaticano; nacionalismo espanhol disfarçado de patriotismo barato, e fundamentalismo católico camuflado de caridade cristã. Legiões de “pijos y pijas” incorrigíveis, senhoras e senhores da Opus Dei, incontáveis, gritando "Viva o Papa!" ou "eu sou espanhol, espanhol, espanhol ..." (eles não sabiam que o estavam a cantar ao ritmo duma polka russa, mas na Praça da Galiza, onde mais duma centena demonstramos contra o papa, foi utilizada a mesma melodia, e mais adequadamente, para cantar um revolucionário e bolchevique "Ai Papa, não, Papa, não, Papa, não! Ai não ...").

Uma mulher, completamente exaltada, ofereceu o seu filho recém-nascido, para o Papa abençoá-lo, de alguma forma ou de outra, através da janela do carro papal, enquanto a criança se retirava, com medo, numa cena do tipo "filho de Yako Jackson”, disse-me um companheiro; no mesmo momento, vi como um grupo de "maruchis", todas decoradas, e acho que elas não teriam gastado as suas poupanças para ir ver o papa, lançavam elogios aos policiais anti-motim, o que os fez sorrir, sem embaraço, cheios e inchados no seu ego testosterónico (que bons estão, claro que sim, e com que delicadeza manejam o seu bastão e dão-no na cabeça do pessoal, que estilo, que beleza …). E, em toda parte, centenas de idosas, legiões de excursionistas do INSERSO, ansiosas para balançarem os seus rosários, os seus crucifixos e as bandeiras do Vaticano à passagem do carro do Papa. Mas nem tudo era glória, nem tudo era graça, não tudo era reverência e submissão ao "Santo Padre".

Antes de onze e meia, quando o "Sumo Pontífice" chegou ao aeroporto de Lavacolla, mais de cem pessoas se reuniram para dar as suas particulares "boas-vindas". Convocadas pela Rede Feminista, multiplicadas pelo boca a orelha e a vontade popular, trouxeram a liberdade de dizer o que pensavam em voz alta num pequeno pedaço da cidade. Na parte velha, tomada literalmente pela polícia, era impossível. Mas nós saímos de ali e passamos à Praça da Galiza, sentíamos entre inveja e emoção, e acabamos penetrando o cordão da polícia anti-motim e as “grilleras” para podermos expressar o que sentíamos.

Os jornalistas reuniam-se ante nós, desejando oferecerem o outro lado desta história, reprimida, esmagada, pela monolítica e forçada paralisia facial à que nos obrigou o "meio ambiente", ou seja, a repressão policial: um sorriso entre horror e repulsa, entre humilhação e impotência. Ali foi dito em voz bem alta o que se pensava: "Homofóbos", "Pederastas", "Machistas", "Galiza laica", "Vamos queimar a Conferência Episcopal”, e outros mais originais e festeiros, “As monginhas / também dormem juntinhas”, “Na minha cona nom manda ninguém”, “A Igrexa non nos deixa / comernos as ameixas” e muito mais de músicas divertidas e de lúdica liberdade. Não tinha planejado falar com qualquer meio de comunicação, e até mesmo não represento a empresa organizadora, mas como eles viram que eu falava com facilidade, pediram-me algumas palavras para duas televisões, mas sim, deixando claro que eu não pertencia ao grupo e não queria que saísse o meu nome, já que ninguém queria nada, pois era um protesto anónimo e cidadão, sem protagonismos pessoais.

Encorajado por essa demonstração da dignidade da juventude compostelana (e não só juventude, uma senhora se juntou e gritava os sloganes tão alto como os companheiros), e acompanhado por um fotógrafo profissional duma agência de fotografia de prestígio internacional que entrou em contato comigo no dia anterior, peguei na estrada longa e sinuosa até o ponto em que tinha que encontrar os participantes da “flashmob”. O último trecho antes do Obradoiro, em frente à facultade de medicina.

Tive problemas com o telefone (esgotou-se a bateria) e a câmara. Tive que carregar ambas, e só porque me fizeram um favor em duas lojas distintas: a câmara, mediante o pagamento dum café da manhã num bar e o telefone, numa loja de móveis, com a tímida esperança que iria comprar um carregador. Mas, finalmente, consegui tirar fotos aos manifestantes, e telefonar os participantes da “flashmob”, os únicos que compareceram ao evento: um casal de jovens que vivem em Santiago, que mostrou toda a sua boa vontade e disponibilidade para tirar a foto em frente do "vigário de Cristo". Apenas eles participaram, mas finalmente saiu ao redor do mundo. O que me deixa a ideia de que se tivessem participado mais pessoas, teria acontecido semelhante. (ou não: precisamente por sermos muitos, “as forças de ordem pública” poderiam ter-nos descoberto e ordenado retractar-nos, ou simplesmente, reprimido nas piores formas).

Lá estavam os dois rapazes, em frente à porta de Medicina, exactamente onde lhes tinha dito. Cumprimentei-os, conversei discretamente com eles, apresentei-lhes o amigo fotógrafo. Ninguém suspeitava o que ia acontecer mais ou menos uma hora depois. Eu andava para cima e para baixo daquela rua, tentando reunir o maior número possível de jornalistas, com dois objetivos. Primeiro, para garantir a minha segurança e a dos rapazes, já que com uns poucos jornalistas ao redor, os anti-motins e a policia nacional iriam inibir-se um pouco (ou não). E segundo, para que o beijo deles saísse imortalizado no maior número de meios possíveis.

Encontrei apenas dois fotógrafos, em pé numa escada de alumínio na última curva do percurso papal, mas tive sorte que ambos pertenciam a duas distintas agências internacionais, AFP e France Press. Eles ganharam uma foto preciosa, que venderam bem, e apareceu em dezenas de páginas de papel e na rede em todo o mundo, e os rapazes ganharam popularidade e reconhecimento entre os seus amigos. Ou simplesmente a satisfação de passarem um pouco à História, por alguns segundos, uma forma fugaz, mas bonita, de "protestar" contra o Papa.

Os protagonistas da imagem

... São Óscar Pousa Míguez e Borja Furelos Couselo. Óscar diz, com grande humildade: "A verdade é que não há muito a dizer sobre nós, nós somos dois rapazes de vinte anos como muitos outros. Borja trabalha como dependente num cinema, e eu estudo Educação Social e estou procurando emprego. Encontramos-nos uma noite numa festa santiaguesa de estudantes, há oito meses, e desde então vivemos juntos felizmente em casa dos pais dele, por incrível que pareça”. É tão estranho, porque os pais dele são "gente de aldeia, são pessoas muito interessantes, às que temos que agradecer a educação que temos. Meus pais só recentemente souberam da minha orientação sexual, tiveram que passar por um breve estado de adaptação à nova situação, e após conhecerem Borja querem-no muito, até a minha avó o considera como um neto".

Com normalidade e naturalidade convivem com eles, até mesmo num ambiente hostil como o da Galiza rural ou semi-urbana, assim que Óscar vive com Borja e os pais dele: "Eu moro com eles e tratam-me como um filho, não tenho nenhuma queixa. Muitos casais heterossexuais vivem em casa dos seus pais, com os sogros. Os nossos consideram normalizada a situação, e a verdade é que ficamos surpreendidos de que eles a vejam tão normal".

Sobre a razão que os motivou para se beijarem em frente do Papa, diz Oscar: "Foi simplesmente uma reivindicação. A Igreja é uma instituição que não favorece grupos gays; não nos sentimos ligados a ela de nenhuma maneira, mas nós queremos deixar claro que nós não odiamos a Igreja por estar frontalmente contra ela, mas só porque nos limita nos nossos direitos em comparação com o resto da sociedade". Uma mistura de sentimentos, mistos de razões pessoais como sociais, moveu-os a participar. "A homofobia é o mais pessoal (já que ambos vimos do seio duma família católica), o abuso de crianças em segundo lugar, já que para nós é intolerável uma conduta desse tipo, e, finalmente, o dinheiro público gastado, pois achamos que, como este dinheiro não pertence à Igreja, e ninguém nos pediu permissão para usá-lo com isso, não deveria ser utilizado”.

Oscar e Borja responderam à chamada da plataforma Facebook “Queer Kissing Flash Mob Santiago de Compostela”, que consegui juntar 87 adesões, mas apenas este casal se atreveu a desafiar a polícia, o frio e a névoa daquela manhã vaticana para se beijar em frente da Igreja Católica. "O evento estava à ordem do dia no Facebook, e achamo-lo muito original, como a forma mais expressiva de protesto e pacífica que nós poderíamos fazer contra "Nossa Santidade", pensando também na nossa integridade física".

Devo acrescentar que, além de ser calmo e expressivo, é simples e gratuito mas extremamente rico, cívico e cidadã, mas rompedor, com um grande simbolismo e esteticamente revolucionária. Um beijo sempre foi uma forma de expressão inocente e rebelde ao mesmo tempo, a partir de hoje até a Primavera de Praga. O que incomoda os guardiões da moralidade é a sua naturalidade, a sua impura pureza, a sua formosa obscenidade. O amor que muitos não entendem.

"Estamos acostumados a nos dar beijos em público todos os dias e também estamos acostumados a ouvir os protestos da gente. Embora isso seja apenas um pequeno grupo de pessoas que se atreve a dizer-nos algo. A verdade é que nós gostamos de provocar a gente que já nos vê mal quando vamos de mãos-dadas, é divertido e exemplar. Mas a sociedade é lenta ainda que nunca pára, e disso estamos cientes, mas não toleramos que os nossos direitos sejam violados pela nossa orientação sexual".

Sabem os rapazes que esta foto vai dar a volta ao mundo? Pode ser um ícone muito bonito... Que sentem, se sentirem alguma coisa …? "Ficaríamos igualmente muito felizes se fossem duas outras pessoas as que se dão o beijo, mas, obviamente, fomos nós e é isso, se é possivel, o que a torna mais especial. É gratificante sabermos que trazemos o nosso grão de areia, para uma causa em que todos estamos envolvidos, com um simples mas significativo beijo.

O fim da história

E tão importante. O fim já todo o mundo o sabe: a foto foi publicada na capa da edição nacional de Público, saiu na versão digital de El Pais, e, através da AFP e FP, distribuída por meio mundo, de Jerusalém para Medellin, de França para Portugal. Também a Agência de causas minorizadas Demotix, pegou nela, com entrevistas aos protagonistas. Somente uma pessoa não recebeu rédito algum desta "performance". Ela tentou escrever algo no computador dos rapazes, mas entre o carregamento das baterias, o editar e enviar as fotos, empregou quase meia tarde. E teve também que apanhar um trem para voltar a casa antes do anoitecer, porque não tem casa nenhuma em Santiago, e ninguém lha pagava, nem a comida, nem a visita em geral, como ao contrario foi paga para o Papa com a “cumplicidade" de todas as administrações públicas.

Óscar e Borja não lhe poderiam oferecer alojamento para completar o artigo, assim que muito cansado e meio doente, o acima assinado, chegou com a sua língua para fora, e faltando pouco para perder o comboio que tinha que levá-lo a Ourense, e teve que superar de novo um outro cordão policial, desta vez para acessar a plataforma, e para fazê-lo teve que lidar com o oficial de segurança de plantão. E eu digo: para que outro controle mais? Bento XVI viaja no incógnito neste comboio, e eu não me dei conta disso? O avião privado foi apenas um disfarce???

O que aconteceu foi que corri no último segundo, e ao final só faltava isso, quebrou-se a alça da bolsa, o que, juntamente com as calças sem cinto, caindo o tempo todo, era uma imagem de pequeno vagabundo que pouco se acordava com a visita papal. Que tão pouco eu me preparei para recebê-lo, sim. E que tão pouco ele me deu. Borja comentou, entre sério e bem-humorado, que Letizia teve muito mérito para levar eses calcanhares. “Deveriam fazê-la santa, então”, disse eu divertido.

Os dois dormiram no sofá com ternura, com o zumbido entontecedor da missa massiva. E eles deram-me ternura, vendo como estavam namorados, o que me fez pensar muito (e também dormir tranquilamente, no final) na viagem de regresso. Acabei fazendo uma reclamação à RENFE por perder o meu tempo com controles desnecessários, na cara chata e malpagada do empregado em serviço, e fui para a cama sem saber que no dia seguinte, a foto deles ia a ser publicada na primeira página dum jornal.