A cultura. O problema do idioma

Cumpria rever a obra ingente de Manuel Rodrigues Lapa, o português mais galego “e talvez mais brasileiro” e tentar as suas receitas com vontade de triunfo

Segunda, 07 Fevereiro 2011 00:00

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O engenheiro e escritor Xavier Alcalá foi o primeiro presidente da Associaçom Galega da Língua

Xavier Alcalá (*) - Passárom vinte anos da morte do professor Manuel Rodrigues Lapa e mal houvo algumha lembrança sobre a sua figura sobranceira. Pareceria como se ao norte do Minho ninguém quigesse recordar quem se autoqualificava como «o mais galego de todos os portugueses».

Por isso, quando recebim a encomenda do Eixo Atlántico para escrever sobre duas décadas de relaçom inter-regional, logo se me iluminou a memória: havia de escrever sobre quem me tratou como um amigo paternal, quem defendeu as minhas teses de observador de línguas e mesmo considerou as minhas vaidades literárias ao ponto de as incluir como exemplo num tratado de estilística.

Manuel Rodrigues Lapa, como José Eça de Queiroz (para pormos um exemplo máximo no mapa da Europa das grandes literaturas), mantinha que a verdadeira pátria do home é a língua em que pensa e sente, que a língua condiciona a maneira de pensar e sentir: os seres humanos nom podemos ser indivíduos totalmente diferenciados, um a um, pois somos o que já fôrom quem nos precedêrom, que criárom as falas com que nos condicionam.

Rodrigues Lapa falou disso comigo muitas vezes, na sua quinta de Anadia ou naquela casa de férias da Caparica onde também nos encontrávamos; e em lugares famosos de Lisboa, em ocasions que nunca esquecerei. Nalgo estávamos de acordo, algo de base, que ele defendia ao seu modo provocador: Portugal existe porque Galiza existiu com liberdade criadora; e o Brasil (o imenso país do seu exílio político) é original porque Portugal lho fijo ser à força de mestizagem. A marca diferencial do ser português (e do brasileiro, e mesmo de gentes da África e da Ásia) é viver quotidianamente num galego peculiar, o da Galiza Grande, à qual Rodrigues Lapa punha fronteiras fluviais, entre o Návia asturiano e o Mondego coimbrão.

Lapa viveu, e chegou, até à derradeira hora, a matinar sobre “o problema do idioma” que se formou na Gallaecia à queda do Império Romano... Mas vamos aos começos da nossa relação, que, se calhar, podem servir de ajuda neste discurso de recordaçom e homenagem:

1972. Escuela Técnica Superior de Ingenieros de Telecomunicación de Madrid. Qualquer dia oferecêrom-me a possibilidade de ir trabalhar como bolseiro a uma empresa inglesa instalada no Cabo Ruivo de Lisboa.

Até entom para mim, como para tantas crianças interessadas pola cultura galega, Portugal fora umha referência fundamental na nossa teoria simplista: aquilo que a Galiza podia ter sido se os Reis Católicos a nom tivessem “domado y castrado”; se a Igreja Católica nom tivesse ajudado nesse labor tanto como para varrer o galego de rezas e prédicas.

Nos anos finais do franquismo ainda nom se saíra da Longa Noite de Pedra que tam acertadamente intitulou Celso Emílio Ferreiro; o regime permitia as cançons folclóricas e “sempre com temor de censura” as manifestaçons da “nova cançom galega”, na qual tanto influiu o mestre José Afonso; mas, para escárnio da língua, persistiam “muito visíveis” atrocidades toponímicas.

E, quando cruzávamos a ponte de Tui a Valença (após o trámite policial amolador e lento), os nomes dos lugares voltavam ao seu; as cousas chamavam-se como lhes cumpria; a gente toda falava da mesma maneira, nom se escuitava saltar as falas entre um patois de língua da terra com incrustaçons de língua oficial e umha língua oficial viciada de fonética e giros autóctones.

Portugal tinha idioma próprio, de naçom e estado ao tempo. O Estado e a Igreja ensinavam da mesma forma... e, curiosamente, essa forma soava a galego independente, depurado. Galego limpo, com variaçons morfológicas, era o dos livros que fôramos lendo, os que alguém comprava em Portugal, os que um parente mandava do Brasil.

Com essas ideias viajei de Madrid a Lisboa no meu Seat 600. Na mala levava umha carta, de Ramón Piñeiro a Pedro Cabo Fernández, nessa altura administrador da petroleira SONAP. Com ela apresentei-me ao amigo de Piñeiro, amigo que me abriu os braços e as portas; que me apresentou a gente jovem relacionada com o Centro Galego da capital de Portugal.

O Pedro falou-me entom do professor Rodrigues Lapa, e deu-me umha carta de apresentaçom ao sábio. Nom demorei a viajar até Anadia, na terra do leitom e o vinho espumante, e visitar quem me acolheu generosamente, observadoramente, com a curiosidade do velho professor que logo distingue no olhar dos alunos quem vai aprender o que ele ensina gratuitamente, polo prazer singelo de transmitir conhecimento e experiência vital.

Entendemos-nos logo. Ainda que longe no tempo e na circunstáncia, valorizou bem as tentativas de fazer cançom (no meu caso, letras para melodias do Andrés do Barro, a quem Espanha toda aceitava cantando em galego). Aprovou esse e outros esquemas de resistência cultural (e naquela altura política) com que nos íamos manifestando na Galiza e no exílio.

Quando acabou o meu estágio lisboeta, começámos a nossa relaçom epistolar, que duraria até que as faculdades do idoso nom lhe permitiram mais bater teclas de máquina mecánica. Escrevemos-nos com freqüência, apesar das interrupçons que impujo a minha profissom. Perdoava-me Lapa a condiçom de “andarilho”, que às vezes parecia esquecer “este velho amigo” (ele continuava fiel ao meu endereço na Corunha quando eu andava longe). Desfrutou com as aventuras lingüísticas que lhe fum contando, principalmente as dos países que sofriam de diglossia, às vezes reconhecida e ordenada, como no Canadá, e outras calada e agressiva, como no Paraguai.

Quando se foi deste mundo injusto, Manuel Rodrigues Lapa deixou mais de cinco mil cartas recebidas, e outras tantas ou mais que se calhar mandou. Os seus herdeiros intelectuais ordenárom a correspondência do filólogo e preparárom um volume em que aparecem escolhidas três das que eu lhe enviara.

Hoje som eu quem escolhe quatro do epistolário comum que conservei apesar de mudanças e desordens de vida. Nelas aparece o famoso problema do idioma, ainda por resolver e que pudo ser menor sem a teima de algumha personagem que aparece nas epístolas escolhidas (Constantino García) e outros que nom se mencionam nelas (Ramón Piñeiro, Filgueira Valverde). Eles cortárom o caminho ao mal chamado “reintegracionismo” que outros preferimos qualificar sem prefixo, simplesmente como “integracionismo”: vontade de ceder para ganhar.

Eis as cartas escolhidas e comentadas por quem desde há anos vive boa parte do tempo em Flandres e sabe da opçom flamenga: a integraçom gráfica num espaço maior, o neerlandês, que compreende a Holanda e o que resta das que fôrom colónias holandesas.

Primeira carta:

Anadia, 1 de Outubro de 1975

Meu prezado Amigo

Escrevo-lhe ainda sob o grande impacto da execução dos antifascistas espanhóis, que abalou o mundo, isto pouco despois de termos abolido peremptoriamente a pena de morte na nossa Assembleia Constituinte. Aliás, cabe-nos a honra de termos sido o primeiro país civilizado que a aboliu. Um deles cantou, ao morrer, o velho hino da sua pátria: isso comoveu-me.

Há muito tempo que não recebo notícias suas. Mando-lhe hoje um pequeno apontamento lido por mim na "Semana Cultural Galego-Portuguesa", realizada na Universidade do Porto, no passado mês de julho. Talvez lhe interesse. De qualquer maneira, é chegado o momento, creio eu, de tomar uma decisão sobre o problema do idioma. Estive na Galiza alguns dias e verifiquei que se está compreendendo tal urgência, dedicando sobretudo a atenção ao problema ortográfico, levando a unificação até onde seja possível. Não tem escrito nada sobre isso? Dê notícias suas e creia-me

amigo atento e obrigado

Manuel Rodrigues Lapa

Quando isto me escreveu o professor Lapa, eu estava na Catalunha, a trabalhar numha empresa de L'Hospitalet de Llobregat. Morava em Barcelona e dava passeios literários e filológicos com o professor Basilio Losada, que tanto fijo na universidade da capital catalá pola realidade galaico-portuguesa. Naquela altura encontrávamo-nos com umha professora de Goa, exótica pola presença indiana misturada com o domínio magistral do português. A “língua universal galaico-portuguesa” permitia-nos aos expatriados a pensar nessa língua mirarmos com verdadeiro desdém a pequenez demográfica do idioma de mando nos Països Catalans...

Observem-se vários detalhes na prosa do Mestre:

O primeiro, que era um democrata convencido, inimigo sem silêncios das ditaduras ibéricas, e dos ditadores. A ele, como a tantos de nós, parecia-lhe um descaro que o velho Generalíssimo, meio moribundo, ainda morresse matando.

O segundo, que em Portugal já havia democracia e fora abolida a pena de morte nojenta, arrepiante.

O terceiro, o seu ativismo a favor do mundo galaico-português.

O quarto, “o problema do idioma”, é umha constante ao longo dos contactos com os galegos durante toda a sua vida: «o problema ortográfico, levando a unificação até onde seja possível».

Naquela altura via-se inevitável a queda da ditadura em Espanha “por razons biológicas” (eufemismo repetido em vista da saúde precária de Franco) e havia muita gente a sonhar com umha república federal, na qual cada país com idioma próprio se figesse dono desse idioma. Achava-se que o galego devia voltar às suas origens. Via-se a limpeza de castelhanismos lexicais e gráficos como um dever, que facilitaria o acesso da expressom galega a um espaço maior, o que correspondia às descobertas dos marinhos portugueses nas rotas da África, da Ásia e da América do Norte.

Essa ideia de integrar o galego no mundo a que sempre deveu estar ligado (mesmo sendo parte de umha Espanha tolerante) vinha impulsionada por um amigo de Rodrigues Lapa. Era o professor Ricardo Carvalho Calero, ferrolano como o professor Ernesto Guerra da Cal, o terceiro elemento básico do integracionismo enquanto os três fôrom vivos.

Mas contra a ideia integracionista manifestavam-se outros: os enxebristas, partidários de um galego sem cedências, escrito partindo da escolaridade histórica na Galiza, a feita em castelhano. Carvalho Calero chamava-lhe “demótica” a esta forma de escrever a língua.

Assim morreu Franco e chegou a democracia a Espanha, condicionada pela herdança do ditador. Nom se voltava à república, mas à monarquia, e do federalismo só se enxergavam luzes autonómicas. Quanto aos idiomas, o castelhano reforçava-se com a obrigaçom de o conhecer; os outros só adquiriam direito a serem aprendidos e falados.

Nos anos convulsos que vam da morte do general golpista ferrolano à plenitude democrática, já com Constituiçom aprovada e Parlamento eleito, as posturas dos galegos a respeito do seu idioma patrimonial nom haviam de mudar grandemente, pois os fenómenos sociolingüísticos costumam ser lentos. O galego continuava sendo a “língua proletária do meu povo”, segundo a definira o Celso Emílio Ferreiro (por sinal, naquela altura ativo em política). Continuava rejeitado pola burguesia “nom intelectual” e ignorado pola administraçom e a igreja católica. Só ganhava áreas de expressom como meio de manifestaçom pública, língua obrigatória em faixas e cartazes de esquerda. Avançava claramente no ámbito da cultura em geral, e minimamente nos meios de informaçom e na universidade.

No entanto, por inércia de séculos de espanholismo alheio ao galeguismo, o comum da cidadania galega continuava a considerar Portugal como algo sem mais interesse que a baratura dos seus produtos. As elites intelectuais, polo contrário, nom viajavam ao sul do Minho para comprarem toalhas e comerem bacalhau: a cultura portuguesa era o íman para elas. E tentavam dizer aos portugueses que Galiza existia, sem grandes resultados, pois na visom popular dos portugueses Galiza era Espanha: umhas províncias mais do vizinho peninsular “o país ameaçador mas admirado polos seus estereótipos, madrilenos e andaluzes, bem afastados do tipicamente galego”.

Com independência do viver de costas povo com povo, é nessa etapa que se definem as diferentes linhas de ataque ao problema do professor Lapa. Todos os que sonham com um galego florescente estám de acordo em que o português dá soluções lexicais para sairmos do castrapo (galego castelhanizado por falta de escola), desde que o português, por sua vez, nom tivesse optado por castelhanismos, galicismos ou anglicismos desnecessários.

Mas, fora disso, venhem as diferenças, as discórdias e mesmo as ofensas...

Segunda carta:

Anadia, 3/3/978.

Meu prezado Amigo

Há quanto tempo não recebia notícias suas! Saiba que me dão grande prazer as suas cartas e as diligências que tem feito sobre o candente problema do galego, que me está causando apreensões, pois vejo que muita gente aí ainda não compreendeu a essência do problema: a constituição de uma língua literária diversa da língua falada. Esta coisa simples, que os intelectuais da Universidade não compreendem, intuem-na perfeitamente os homens do povo, como aquele Sindo da Milia de uma crónica sua, que eu citei num estudo que acabo de escrever sobre “A lira lusitana de Curros Enríquez” de que vou mandar-lhe cópia.

Andamos desencontrados, e é pena, pois também tinha muito que conversar consigo. Vou no próximo dia 19, domingo de Pascoela, para a Costa da Caparica, e só regresso a Anadia lá para o dia 10 de Abril. Veja se pode dar uma saltada à Costa. Moro na R. Gil Eanes, 40 – Tel. 2400153. Tenho em Lisboa muitas voltas a dar, entre elas uma pesquisa sobre Añon, que esteve cá refugiado alguns anos, após o levantamento militar de 1846. Queria descobrir o texto do seu “Hino dos Povos”, que todo o mundo cita e ninguém conhece. Recebeu a indicação que lhe dei, em tempos, sobre Dicionários técnicos?

Um abraço cordial e agradecido de

Manuel Rodrigues Lapa

Há um salto de três anos desde a primeira carta que se apresenta para os propósitos deste relatório. De novo o professor nom soubera de mim porque eu andara a trabalhar em Boston, onde descobrim um canal de televisom em português e muitos pescadores que em português sonhavam. À minha volta escrevim a Lapa e retomámos a relaçom a partir deste lado da realidade do mundo, o ibérico.

Lapa escreve-me no 78 de algo que nom se pode negar: cada idioma é um conjunto de códigos de discurso que se aplicam onde e quando é preciso aplicá-los. As formas de expressom oral nom som nunca as literárias, e às vezes surpreende a distáncia entre umhas e outras (veja-se o dito argentino: “vos hablás criollo mas escribís castellano”). O sábio de Anadia propugna em princípio que o galego literário renuncie à proximidade da fala enxebre, ao que se oponhem os enxebristas com ciência bastante como para sustentarem os seus argumentos. Dous professores da universidade de Santiago enfrentam-se à tese de Lapa firmemente. Som Ramón Lorenzo e Antón Santamarina.

Manuel Rodrigues Lapa sabe que a luita vai ser dura e nom deixa de procurar razons para somar em contra das esgrimidas pelos oponentes. Eis na carta que segue as traças de Curros quanto lusitanista, e de Añón, que tivo cumprida vivência portuguesa. Tenta investigar sobre os elementos do corpus literário galego aproximados a fórmulas portuguesistas, integradoras; e mira para outros âmbitos em que o português pode achegar valores à Galiza: no campo dos vocabulários técnicos.

Enquanto a revoluçom industrial na Galiza foi ditada em castelhano, Portugal fijo-a em português. E o Mestre nom se contentava com as partes da vida relacionadas com as Letras. Olhava para tudo, ficava fascinado com a explicaçom do funcionamento de umha fibra óptica: o núcleo, os invólucros, o coeficiente de refraçom, os fotons, os modos de transmissom. Agradecia liçons baratas de engenheiro...

Terceira carta:

Anadia, 4 /5 / 78.

Meu caro Xavier Alcalá

Recebi finalmente a carta do Manuel Miragaia, e fotocópia dos 5 artigos publicados no “Ideal Gallego”. É um rapaz de boa formação, disposto a agir. Respondi-lhe, num tom de muita simpatia. E creio que só a mocidade, só a gente pura que não tem nada a perder, poderá salvar o galego e a Galiza. E a prova de que assim é tive-a ontem em Coimbra, num seminário presidido por Carballo Calero e Constantino García. Este último, notório anti-lusista, limitou-se a ler, despudoradamente, o discurso inaugural, “Galego onte, galego oxe”, que leu em Compostela em 1977; e o nosso Calero, que tinha argumentos para opor aos do colega, fez um discurso anódino sobre a geração de “Nós”, omitindo quase por completo as relações dessa geração com Portugal. Manifestei a minha decepção em termos de ironia sorridente, e li um pequeno trecho da carta do Miragaia, ocultando o seu nome, claro, em que ele diz que tudo já foi dito e que agora é urgente passar a uma acção concreta. Estou vendo que Franco morreu, mas os homens, envelhecidos, não mudaram: continuam a ter medo...

Mando-lhe um artigo que escrevi na véspera da chegada do Calero. Prometi a mim mesmo, após a publicação dos meus trabalhos sobre o galego, pôr ponto final à minha actividade nesse sentido. Continuem vocês agora a obra. Eu fiz o que me cumpria fazer. Abraça-o cordialmente o grato amigo,

Manuel Rodrigues Lapa

O velho professor vai ir contactando durante décadas com galegos partidários do integracionismo, «alguns por razões filológicas, outros por afinidades literárias, outros por visão de mercado», empenhados em que a Galiza nom fique fora do ámbito ao que radicalmente pertence. Um desses é Manuel Miragaia, naquela altura muito novo, membro do Agrupamento Cultural O Facho, sempre disposto a intensificar contactos com as “culturas irmás”.

O Miragaia, com outros jovens, representa para Lapa o asseguramento do futuro, a continuidade das razons a esgrimir face a doutores incómodos, como o Constantino García. Este catedrático asturiano imitava um galego penoso e tinha um conceito regionalista, dialetalista, sobre o que nom fosse castelhano normativo. Era considerado por Lapa como um intruso na discussom, «que só percebe o galego como o bable da sua terra» (Observe-se o erro gráfico de «Oxe» por «Hoje» no discurso do García. Rodrigues Lapa detetou-no e mantivo-o para mostrar a categoria menor do contrincante —porém, home bem ligado ao oficialismo do momento).

Nesta carta, o Mestre de Anadia desfere um ataque velado ao seu amigo Carvalho Calero, ao qual quijo dar um corretivo com “ironia sorridente”. Lapa percebia por medo ao franquismo a postura dos galeguistas que nom se atreviam a dar os passos integracionistas que concretizaria a Associaçom Galega da Língua (AGAL). Mas também nom, sequer, dérom os que propunham os reformistas alunos de Carvalho.

Apesar da crítica polo episódio coimbrao, o professor Carvalho optara pola soluçom “de máximos” em galego, sem chegar a escrever em português (veja-seProblemas da Língua Galega, de Ricardo Carvalho, na Coleçom Noroeste da Sá da Costa, 1981). Essa era a da AGAL, a usada polo Miragaia quando escreve ao Mestre que já foi todo dito e o que é preciso é passar à açom concreta. A outra era a grafía “de mínimos” que torna à vista o galego mais semelhante ao português que ao castelhano.

Finalmente, no parágrafo com que remata a epístola, Lapa deixa-se levar pola moral baixa de um mau momento e fala de abandonar a peleja pola aproximaçom lingüística de galegos e portugueses.

Mentira: nunca ia abandonar. Esta guerra, com muitas frentes de batalha abertas, era a sua raison d'être na velhice. O que o incomodava era a falta de fé integracionista dos patriarcas da cultura galega. As “vacas sagradas” preferiam agarrar-se ao pouco que se conquistara: a um galego sobrevivente, escrito segundo as geraçons anteriores foram escolarizadas, em castelhano. Nom acertavam a ver as vantagens de um sistema gráfico que servisse ao tempo de treino para galegos para as formas portuguesas e de facilitador de textos em galego para os leitores portugueses.

Lapa di que nos deixa sós para continuarmos pola nossa conta, mas eu som testemunha direta de como ele nunca esqueceria a sua paixom, e um objetivo: o de que o galego nom ficasse fora da lusofonia: o galego nom era um dialeto espanhol (mesmo do castelhano como fora apresentado pola ciência feita a partir de Madrid a favor do nacionalismo espanhol). O galego era a forma matriz do português...

Quarta carta:

Anadia, 5 / 6 / 78

Meu caro Xavier Alcalá

Recebi a sua carta e o artigo “Galicia no mundo”, que me deram enorme satisfação, por ver que as nossas teses se estão impondo, apesar de algumas resistências. Tratei logo de lhe enviar o livro pedido, de Guy Héraud, L’Europe des Ethnies. Peço-lhe que mo devolva, quando já não precisar dele. Em troca disso, desejaria ter indicações bibliográficas (título, editor e ano) dos livros citados por você, que não tenho na minha biblioteca: o de Meic Stephens e o de William C. Atkinson. Pode ser?

Voltando ao seu artigo, cujo remate acho magnífico, quero lembrar-lhe que fui também dos que insistiram no arrazoado que aduz: a Galiza tem a sorte, única na Península Ibérica, de ter uma língua identificada com a de um estado soberano como é Portugal, coisa que não se dá nem com o catalão nem com o vasco. Um grande número de galegos parece ainda desconhecer esse facto; e essa sua advertência é um dos méritos do seu artigo.

Vou tratar o caso da colaboração sua no “Primeiro de Janeiro”. Quero avisá-lo de que pode surgir uma dificuldade: a rejeição de artigos escritos em galego. Há tempos, um dos irmãos Alvarez Blásquez mandaba crónicas para o “Jornal de notícias” do Porto escritas em português. Diga-me: porquê não dá o exemplo, e escreve em português, que lhe é familiar? Essa sua colaboração teria um impacto extraordinário e daria enorme credibilidade às nossas teses. Lembre-se do que eu e você exigimos: o aprendizado do português, para ser usado como língua “consangüínea”. Medite bem neste caso.

Li em “A nosa Terra” a “Carta aberta” do M.Miragaia. Tem realmente o fogo da mocidade, que quer fazer as coisas pela via directa. Temos de aproveitar essa disposição activista da juventude, pelo que estou preparando uma “Resposta aberta” ao Miragaia. Já vê que estou colaborando, até com sacrifício da saúde, que não é famosa.

A Sá da Costa Editora tem já no prelo a colectânea dos meus estudos sobre o galego. Vem numa Colecção titulada NOROESTE, dirigida por mim e pelo prof. Calero. Os objectivos são variados, incluindo ensaios sobre língua e cultura, obras de ficção (novela e pesia, etc.) O programa definitivo será fixado por mim e pelo Carballo Calero. Isso poderá ajudar a resolver muita coisa. Você fica já convidado a colaborar conosco.

O leitor de português de Santiago, António Rodrigues Baptista, lecciona no Instituto de Estudos Portugueses da Universidade de Compostela.

E por hoje é tudo. Vá mandando notícias a este seu amigo atento e obrigado,

Manuel Rodrigues Lapa

Manuel Rodrigues Lapa nom era nengum cientista ingénuo. Filólogo, home da matemática que há nas línguas e nos seus códigos, sim que o era; capaz de abstraçons de sábio investigador, com certeza. Mas também jornalista por exclusom universitária, e ativista político até ao exílio.

Portanto, se escreve que as nossas teses se vam impondo, nom o fai com um julgamento à ligeira. É que o considera assim depois de tê-lo observado e pesado. Mas falhava nas quantidades: as teses galaico-lusistas eram cada dia melhor compreendidas por uns poucos militantes no ámbito do idioma, mas, no que di respeito à gente comum, ela nom atendia aos nossos razoamentos. Ele continuava a sonhar com a reunificaçom cultural da Gallaecia, enxergava a eurorregiom, impensável nessa altura de aproximaçom de Portugal e Espanha à “ainda” Comunidade Económica Europeia.

Lapa compreendia a Europa em toda a sua complexidade e diversidade. Os livros a que se refere som, respetivamente, Linguistic Minorities in Western Europe e A History of Spain and Portugal. O primeiro, o do galês Stephens, fai umha conta singela dos anos 70 do século XX: somadas as minorias europeias (Galiza entre elas), elas constituem maioria populacional na Europa. O do irlandês Atkinson oferece uma interpretaçom da História que pudo ter a Península Ibérica e nom tivo. O professor Atkinson mostra de modo peculiar a sua pena porque a Gallaecia ficasse dividida entre Espanha e Portugal. Atkinson alimentaria o pensamento de Lapa com umha ideia comum: a de umha faixa ocidental da Península formando naçom única. Mas a História da Hispania nom foi assim.

Espanha completou fronteiras “no caso galego, até ao Minho” e fixou com Portugal a mais antiga da Europa (só movida levemente à altura de Olivença). O nacionalismo espanhol levou até à cegueira os galegos: nesta carta o velho professor reconhece que nom som unicamente os universitários enxebristas ou castelhanistas que se oponhem às nossas teses sobre umha Galiza supranacional. Há um povo galego que ainda olha para os seus irmaos de fala e costumes com o desdém próprio dos castelhanos de outrora, agora representado pola ideologia madrilenista, centralista. Nom compreendem a vantagem de contarem com o que sonhariam cataláns e bascos: um estado soberano e vizinho onde as palavras soem a irmandade.

Onde as palavras soem a tal, mas onde se vejam diferentes por como fôrom escritas. E eis a sua advertência sobre a possível colaboraçom no Primeiro de Janeiro: nom em galego, nem sequer “reintegrado”. Portugal também nom compreende a variante galega como parte da pan-portugalidade. O galego, a cultura galega, é algo atrasado, perdido na memória coletiva dos portugueses. Só os filólogos escuitam a Ernesto Guerra da Cal quando apregoa que «todo o galego está conteúdo no português» e Manuel Rodrigues Lapa pede-me para dar exemplo escrevendo no padrom canónico.

Nunca se deu a ocasiom de fazer nesse jornal. De se ter dado, eu nom veria inconveniente em escrever na língua oficial do Estado vizinho. Mas neste caso teria discrepado com o Mestre: porque o verdadeiramente exemplarizante seria escrever em galego integracionista. Ou, ao menos, assim entendia eu a coincidência das nossas teorias. Para mim «como para muitos galegos» o uso consangüíneo havia de ser recíproco: os portugueses achegando o seu à Galiza e os galegos achegando o seu a Portugal.

Bem se vê que o idoso nom ia renunciar a travar batalha apesar das queixas de saúde que, no entanto, parecia boa: Lapa era um home rijo, que teria dado para bom militar uniformado. Nessa altura, Carvalho, «pequeninho e cerimonioso» também andava teso, firme. Entre os dous acalentavam um projeto no qual pujo empenho cordial o Sá da Costa, projeto que nom iria muito longe porque, se calhar, as contas nom saíram bem: os partidários da “soluçom à flamenga” éramos muito batalhadores, mas poucos; e os contrários eram mais, e possuíam armas de que nós carecíamos.

O projeto ficou varado nos estudos. Nunca chegámos a publicar narraçons e poesia. A forma de apresentar a escrita levou-nos a discussons sobre duas hipóteses principais: escrevermos em português com “galeguismos aceitáveis”, a modo de regionalismos lexicais; ou fazermos ao modo que tentárom Guerra da Cal e Carvalho: em galego graficamente parelho ao português...

Bem. Depois destas cartas, que lançam as bases, viriam outras enquanto se iam acabando as energias de Manuel Rodrigues Lapa.

1983 representa um marco na história do que fora chamado polos filólogos língua “galaico-portuguesa”. Publica-se a Lei de Normalización Lingüística da Galiza, em cujo preámbulo se di que «a lingua é a maior e máis orixinal creación colectiva dos galegos, é a verdadeira forza espiritual que lle dá unidade interna á nosa comunidade. Únenos co pasado do pobo, porque del a recibimos como patrimonio vivo...». A lei, de enorme transcendência para a formalidade do idioma em todos os ámbitos, aparece redigida ao modo “demótico”, diferencialista do português. Atrás dela, umha figura máxima do galeguismo: Ramón Piñeiro; e outras menores: Filgueira Valverde e demais “sobreviventes no franquismo” (segundo Guerra da Cal).

A seguir pom-se em marcha a máquina administrativa: todo quanto letreiro se muda para normalizar aparece em forma enxebrista ou isolacionista, de costas à grafía histórica do galego e à presente do português. O ensino em galego fai-se em “normativa oficial”. Esta chega a impor-se no ámbito literário: nengumha obra pode aceder a subvençons da Administraçom Galega se nom vai escrita assim. Os textos com norma “de mínimos” recebem o mesmo trato que os escritos com “máximos”: som discriminados.

Os anos passam e a batalha pela integraçom do galego no campo gráfico galaico-luso-africano-brasileiro está perdida. Lapa (em 1989), Carvalho (em 1990) e Guerra (em 1994) morrem sabendo que os seus esforços nom conduzírom ao porto desejado. Mas ficou em preto sobre branco, em muitos livros, revistas e jornais, a mostra dos seus desejos...

E, desde que se criou o Eixo Atlántico, quanto é que se avançou no ámbito cultural básico dos idiomas na eurorregiom?

Pouco ou nada:

O galego continuou a deteriorar-se por absorçom no castelhano, bombardeante sem trégua dos meios da comunicaçom social. A perda de falantes aumentou, porque continua a produzir-se o corte de transmissom da fala de pais a filhos, e a escola nom é capaz de galeguizar as crianças (mal induz neles umha consciencializaçom que os levará de jovens à militancia lingüística dentro de um sistema diglóssico).

O galego correto é escrito à moda castelhana, o que produz nos portugueses um efeito chocante, confusivo: para eles a fala nom casa com a escrita. Os portugueses olham o galego escrito com displicência, e o falado como um esforço de aproximar o castelhano ao português. Evitam falar português na Galiza, na esperança de serem entendidos em “portuñol”. Preferem ensaiar esse trampitám mesmo que se lhes fale galego depurado.

A situaçom só pode ser qualificada de esperpêntica depois de dezassete anos desde que o Eixo Atlántico desatou a caminhar. O Minho continua a ser umha barreira desintegradora, apesar de que a Rádio Galega e a Televisom da Galiza levem décadas a radiaren para o sul (sem correspondência de Portugal: a televisom por cabo na Galiza nom oferece nengum programa português).

A diglossia galega desconcerta os portugueses. O nacionalismo espanhol fai com que os galegos olhem os portugueses com desdém cultural.

E o que fazer para enfrentarmos o futuro?

O futuro no mundo tem siglas: BRIC, do Brasil, Rússia, Índia e China.

Desses quatro monstros do desenvolvimento, há um que obriga a repensar as relaçons galego-portuguesas, e a consideraçom de Madrid acerca da Galiza. Brasil já nom é o futuro só. É presente a crescer para o futuro. A Uniom Europeia olha toda a lusofonia como um espaço de crescimento iluminado por um país-subcontinente chamado Brasil.

Nom será, pois, o momento de galegos e portugueses juntarem esforços de entendimento em base ao que tenhem em comum? A Gallecia renovada seria um nodo fundamental na malha de relaçons que levam aos telefonemas “globalizaçons parciais”. Cumpria rever a obra ingente de Manuel Rodrigues Lapa, o português mais galego “e talvez mais brasileiro” e tentar as suas receitas com vontade de triunfo.

Na conclusom desta crónica reflexiva, permita-se-me sugerir que o Eixo Atlántico organize um grande foro, um debate cidade a cidade, sobre o necessário para que gentes dentre o Návia e o Mondego, do Ocidente asturiano ao Norte-Centro Português, se entendam da melhor maneira, com a fala e a escrita mais aproximada. O território da gaita e o grelo (tam folclóricos mas tam ligados a umha forma de ser única) vai perder o comboio da História se nom souber clarificar o que o une.

Imaginemos por um momento que no sistema educativo do sul da eurorregião se ensinasse o essencial das variantes morfológicas do galego e da literatura do norte, além das cantigas medievais; e que na Galiza se tomasse o exemplo da Estremadura para converter o português em língua “estrangeira” do bacharelato.

Pensemos nas infinitas possibilidades que oferecem os novos meios da comunicaçom social para que Galiza esteja presente em todo o tipo de dispositivo de apresentaçom dos utentes lusófonos; e que o recíproco se procurasse na Galiza com relaçom ao espaço da lusofonia...

Como repetiria o professor Lapa citando o “atualmente” professor Miragaia, tudo já foi dito e agora é urgente passar a uma acção concreta. Agora é tempo de atuar: no mapa da velha Europa, poucas regiões suprafronteiriças tenhem tantas opçons de se globalizaren a partir da sua identidade, como tem a dos nossos sonhos.

(*) Artigo original em galego ILG-RAG numha ediçom coletiva publicada polo Eixo Atlántico; adaptado para galego AGAL pola Equipa do PGL com a permissão do autor. Irá ser publicada também uma versom deste artigo em inglês para a Comissom Europeia.