Arqueologia, Línguística e Literatura

O paradigma da Continuidade Paleolítica e os Estudos Célticos

Sexta, 11 Fevereiro 2011 10:45

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Ana Donnard (*) - Foi com grande interesse que conheci, ao visitar as páginas de História e-História, o artigo recém-publicado de Thiago Pereira, aluno bolsista de Iniciação Cientifica Voluntária UNIMONTES1, sobre o patrimônio paleolítico do Norte de Minas e em especial da região do Rio Francisco.

Em meu artigo de 2009 publicado na Ollodagos2 eu havia trabalhado com a idéia de que a memória oral e os registros arqueológicos das povoações adjacentes ao velho Chico (Rio São Francisco) poderiam nos trazer uma traçabilidade interessante da imigração galega, bretã e portuguesa no Brasil, aliando os estudos da toponímia, mesclada obviamente de diversos elementos Indígenas, Europeus e Africanos. Neste artigo eu propunha aplicar os Estudos Célticos na cultura brasileira, que eu insistia em trazer para meu país e ainda insisto, sobretudo porque os brasileiros me pagaram bons e maravilhosos anos de pesquisa no exterior.

Os registros de uma coleta de literatura oral (indígena e/ou não-indígena) e do folclore das comunidades do Alto e Médio São Francisco necessitam de estudos em rede e, sobretudo de pesquisas arqueológicas que deveriam/devem estar se seguindo no conjunto deste imenso e controvertido “projeto da transposição das águas do Velho Chico”. Este projeto, conhecido pelos brasileiros – que mal se importam com ele – e muito mal conhecido da comunidade internacional, mergulha nosso passado nas águas que todos sabemos. A história cultural do território brasileiro poderia/poderá se revelar ainda muito mais surpreendente na sua composição multifacetada de um hibridismo sem dúvida instigante – desde que não solicitado apenas quando das agendas políticas de uns e outros cidadãos do mundo universitário e/ou governamental.

Ser hiper híbrido é ser hiper complexo. E a complexidade exige paciência. E é com esta paciência que tenho visto meus projetos e artigos sobre os Estudos Célticos serem sistematicamente recusados no Brasil. Compreendo. De fato, os Estudos Célticos exigem uma interdisciplinaridade que não é sempre fácil de organizar, de discutir ou mesmo de se fazer conhecer. Os Celtisantes esperam, no entanto, que estes estudos Célticos (ou Celtas) possam ser aceitos enquanto entidades significativas para os estudos clássicos (Gregos e Latinos) já que, por acaso, (ou não por acaso - é o que veremos no curso das pesquisas) eles voltam para a cena internacional das ciências humanas.

Eu diria que de tanto amar os Gregos acabei ficando Celta. Mas o fato é que os Estudos Clássicos e Medievais nos deixaram uma herança que virou fardo durante tantos séculos ao longo de querelas entre celtisantes e romanistas. Tantas contendas e tantas ideologias reduziram as indagações mais importantes a misteriosos domínios do bárbaro selvagem Celta, que causou tanto o desprezo, quanto a admiração. Estes selvagens Celtas e seus ritos hediondos oh!... Mas que são belos estes Celtas!

Recupera-se daqui e dali desde o século XVIII. À “Celtomania” crítica de Voltaire seguiu-se o período romântico que, revisitando o período o medieval, se depara com o maravilhoso estoque da mitologia arturiana, a fascinante matéria da Bretanha e seus textos célticos que poucos podiam acessar. A partir do romantismo as literaturas célticas surgiram no panorama internacional, mas ainda foi necessário chegar ao período entre as duas grandes guerras para que se consolidasse definitivamente uma historiografia literária céltica.

A marginalização dos Estudos Célticos não poderia deixar de ser um retrato do que foram todos os séculos de uma história mal contada, sobretudo pela hegemonia linguística germânica: inglesa, francesa e alemã. As línguas, todos sabem, seguem também o curso das guerras e das colonizações e com elas suas ideologias. As colonizações também se fazem no espaço linguístico e ainda hoje, no espaço geográfico céltico – Oeste Atlântico - os celtófonos continuam lutando pelos seus direitos linguísticos, como é o caso dos bretões na Bretanha armoricana – península no noroeste da França. Nas ilhas britânicas a internal colonization - inglesa e na França as agendas do estado jacobino francês – une langue, une nation! concorreram para as imensas dificuldades do ensino das línguas célticas. Até a data de hoje, a França resiste em assinar a Charte des langues regionales da União Européia. Tanta obstinação ou paranóia “franco-romanista”, eu diria, não conseguiu anular a importância da cultura celto-bretã, tampouco a persistente luta pelos seus direitos linguísticos, que sempre foram uma constante para bretões, com também para irlandeses, galeses, escoceses e galegos.

Os Celtas estão no centro de uma importante virada na historia cultural européia e mais cedo ou mais tarde será impossível ignorar as evidências: eles, os Celtas, são muito mais antigos do que pensamos e ainda que os arqueólogos ingleses insistam em caracterizar o termo Celta como um simples etinômio “label” dos Gregos para um extenso território mal conhecido, (James:2000; Collis:2003) as fontes clássicas, como também os dados da arqueologia não conseguem ser tão redutores! A mais recente adesão a esta vertente britânica “celtocética” foi a de Raimund Karl. (Karl: 2010) Aliás, se pensarmos nas fontes clássicas os Gregos sempre foram claríssimos sobre os Celtas e os Romanos também! César disse: “na sua própria língua eles se chamam Celtas”, mas quando era necessário, ou quando ainda o é, César não passa de um estrategista inculto. Tudo depende do leitor da famosa Guerra das Gálias. Lembramos aqui apenas a mais recente Celtic War que se iniciou no final dos anos 80 que desenvolveu as famosas “aspas” em torno do termo Celta, chegando até mesmo a ser sugerido como inválido para determinar um grupo cultural tão extenso. Atualmente os debates continuam, sob outras perspectivas e decorrentes na verdade de um grande numero de produções teóricas tão interessantes quanto complexas e que seria impossível explicar aqui de forma simplificada. Os argumentos e contra-argumentos cruciais deste debate foram publicados na Europa e podem ajudar a compreender esta longa e profícua busca pelos Celtas. (Anthoons & Clerinx: 2007; Karl: 2007).

Mas o que tem a ver os Celtas com o período paleolítico? E o que tem a ver o paleolítico brasileiro com os Estudos Célticos no Brasil?! É o que vou tentar explicar aqui – muitíssimo brevemente (**).

 

Notas:

1 Universidade Estadual de Montes Claros – Montes Claros - Minas Gerais – Brasil.

2 Minas do sertão, Bretagne finisterienne – les routes atlantiques de la mémoire celtique IN: OLLODAGOS - Actes de La Société Belge d’Etudes Celtiques Volume XXIII, 2009, p.281-298 ISBN 2-87285-122-4


(*) ILEEL – Instituto de Letras e Linguística | UFU – Universidade Federal de Uberlândia

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