Diglossia e galegofobia

Quarta, 23 Fevereiro 2011 18:01

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Roberto Bouça - Durante estes dias tem-se falado muito sobre as opinions expressadas sobre a nossa língua por umha participante galega no reality Gran Hermano. Pola minha parte, estas opinions viriam cobrar umha maior dimensom devido a umha série de anedotas que me acontecerom e que nom pudem deixar de relacionar com o mediático caso do GH.

Tentarei pôr em relaçom estes dous casos e para finalizar, darei a minha opiniom sobre qual deve ser a estratégia para umha defesa real da nossa língua e para a sua sobrevivência. Começo com as anedotas.

Anedota 1: Viajo caminho de Ponte Vedra; fago umha paragem para almorçar; ao pagar a conta no balcom, reparo na seguinte cena: dous empregados estám a falar em galego; um deles decide-se a atender-me; primeiras palavras em galego; entrega-me a volta e dize convencido: “Ahí tiene. Muchas gracias”. Anedota 2: Continuo a minha viagem e ligo a rádio do carro; na Rádio Galega, a jornalista entrevista umha pessoa que responde num galego “natural”, “correcto”; num momento da conversa, a pessoa entrevistada cita-se a si própria; a cita em espanhol; continua o resto da sua conversa em espanhol. Anedota 3: Viagem de volta; paro numha área de serviço; pido um café com leite; tomo o café ao tempo que a empregada mantém umha conversa com um cliente; comunicam-se num galego “correcto”, “natural”, “o seu galego”; vou pagar e pergunta: “con leche?”.

Porque relato com detalhe estas anedotas que isoladamente parecem nom ter maior importância? Pois porque estes acontecimentos estám perfeitamente relacionados entre si, dando mostra da situaçom na que se encontra a língua galega. Detrás de cada um desses gestos e dessas atitudes hai um comportamento claramente diglóssico que se manifesta no uso do galego na esfera do privado e ambientes informais e no uso do espanhol na esfera do público e ambientes de tipo formal. Esta mudança de usos é sintomática, pois mostra às claras o processo de substituiçom linguística que padecemos no nosso país, onde a diglossia é tam acentuada, que a Galiza constitui um caso paradigmático para o estudo e compreensom deste fenómeno sociolinguístico.

Deixemos agora os factos e vamos ao plano ideológico. Ao valorarmos as opinions da participante galega no GH, nom devemos cair na inocência de personalizar o que na realidade constitui umha problemática de carácter ideológico na que o galego é desprestigiado em favor do espanhol. As manifestaçons desta rapariga venhem pôr sobre a mesa as ideias de fundo que alimentam o discurso galegóbobo no nosso país. Entre outras podemos encontrar o rechaço consciente do uso do galego; a falta de competências para desenvolver-se neste idioma; que o galego soa “bruto”; que só é apto para pailáns das vilas e aldeias ou para nacionalistas extremistas das cidades; que a língua de ensino é maioritariamente o espanhol; etc.

Qual entom a relaçom entre as opinions galegófobas e as “anedotas” que vimos de descrever? Esta comparaçom entre o plano ideológico e o plano sociológico pom de manifesto a armadilha que supom defender a liberdade linguística sendo-se sabedor de que a desprotecçom de umha língua doente significa condena-la à sua morte.

Por isso, devemos desmascarar a farsa anti-galega, porque sabemos que se suavizamos o discurso em favor dum “bilinguismo igualitário” na Galiza, terám dado mais um passo na batalha ideológica. Porque sabemos que o galego continua a ser umha língua de segunda e precisa dumha especial protecçom, que as percentagens nos usos do galego no ensino som insuficientes, que os meios de comunicaçom em galego som escassos e com um baixo nível linguístico e a presença das televisons portuguesas é nula. Chame-se imersom, discriminaçom positiva ou chame-se como se queira, devemos procurar a restituiçom da dignidade do galego e a sua sobrevivência através do monolinguismo social. Devemos ter em conta outro aspecto de vital importância, consistente em vermo-nos desde umha óptica propriamente galega, sem termos que passar polo filtro do espanhol como referente do nosso relacionamento linguístico, virando para um convívio natural e fluente dentro da comunidade linguística à que pertencemos legitimamente por sermos o seu próprio germe, é dizer, o âmbito galego-luso-brasileiro. O monolinguismo social e o relacionamento com as outras variantes da nossa língua comum virám dar ao galego um status de prestígio e utilidade nos planos social, cultural e económico que constituem a única via para a sua salvaçom.

(*) Artigo publicado também no jornal electrónico da Marinha Crónica3 e na secçom em papel do jornal El Progreso, na secçom comarcal da Marinha.