Os estudos lusófonos no contexto da adaptação a Bolonha

Para entender a posição em que atualmente se encontram os estudos de Português é preciso prestar atenção ao modo de articulação dos diferentes estudos oferecidos na faculdade

Terça, 15 Março 2011 08:54

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Raquel Bello | Foto: S. Alonso (LVG)

Raquel Bello (*) - Com a implementação gradual do Espaço Europeu de Educação Superior, modificam-se as condições dos velhos estudos de Filologia e, em consequência, também dos Estudos Lusófonos na Universidade galega. Junte-se a isto algumas surpresas como o espetacular aumento de inscrições de estudantes, e encontraremo-nos com interessantes modificações e também oportunidades para a difusão daqueles no nosso ensino superior.

O ano académico 2011-2012 será o da introdução do numerus clausus na Faculdade de Filologia da USC. Depois de anos de decadência –ao menos numérica- nos estudos lecionados neste centro, a quantidade de novas inscrições produzidas para o presente ano académico superou todas as previsões: mais de 400 novos e novas estudantes.

Estamos no segundo ano da implementação do Espaço Europeu de Educação Superior (o famoso “plano Bolonha”), que implicou uma considerável reestruturação dos estudos de línguas e literaturas, se não no fundo –isto é, nos conteúdos, onde a reforma podia ter sido bem mais ambiciosa- ao menos sim na estrutura, particularmente na maneira em que os diferentes estudos de Graduação se articulam entre eles.

Passamos de 9 licenciaturas em Filologia (Clássica, Francesa, Galega, Hispânica, Inglesa, Italiana, Portuguesa e Românica) a 5 graduações em Língua e Literatura Espanholas, Galegas, Inglesas,  Modernas e Filologia Clássica. A graduação em Línguas e Literaturas Modernas, por sua vez, contempla 5 itinerários possíveis em Língua e Literatura Alemãs, Francesas, Italianas, Língua Portuguesa e Literaturas Lusófonas e, finalmente, Filologia Românica.

Neste processo de implementação dos novos estudos de graduação (deixaremos aqui de parte os estudos de pós-graduação) é preciso levar em conta ao menos três factores que afetam aos estudos de Línguas e Literaturas/Filologias no seu conjunto ou, especificamente, ao sucesso da formação em português dentro da Universidade de Santiago de Compostela. Por um lado está a questão com que iniciamos este artigo, que é o espetacular aumento na inscrição de estudantes na Faculdade de Filologia, por outro, a articulação dos diferentes itinerários possíveis para as e os estudantes de cada uma das graduações e, finalmente o percurso histórico dos estudos de Português nesta Faculdade e a incidência deste percurso no número de pessoas inscritas.

Quanto ao primeiro fator, o crescimento de inscrições foi tal que desde o último ano em que foram iniciados estudos de Licenciatura (2008) até o presente ano (2010) o número de estudantes inscritos por primeira vez no primeiro ano passou de 163 a 377 superando atualmente as 400 pessoas que cursam primeiro. A impossibilidade de fazer frente a estes números com a palavra de ordem do “custe zero” –isto é, implementar todos os requisitos do EEES sem alargar o quadro de pessoal e mesmo sem garantir a estabilidade do atual pessoal com contratos mais precários- levou à implantação de um limite que vai das 100 vagas de primeiro ano em Inglês às 25 da Filologia Clássica.

Qual é a causa deste aumento? À falta de estudos específicos para o explicarem, são variadas as hipóteses expressadas polos corredores da Faculdade de Filologia: dos efeitos positivos de ter tirado a etiqueta “Filologia” da maioria dos títulos dos estudos de Graduação (só fica na Filologia Clássica e no itinerário “Filologia Românica” da graduação de Línguas e Literaturas Modernas), até os efeitos da crise económica (quanto menores as possibilidades de se integrar no mercado laboral, maior a tendência a prolongar os anos de estudo) ou, inclusive, o fato de que as condições antes mencionadas de implementar Bolonha a “custe zero” tenha provocado um aumento generalizado dos numerus clausus noutras faculdades e, com eles, a transformação dos cursos que continuavam sem limite numa espécie de refúgios em que aguardar tempos melhores para aceder à graduação desejada.

À margem das explicações, que, como digo, são hipóteses já que, até onde eu sei, não tem havido uma pesquisa real ou ao menos um inquérito para verificá-las, este aumento não afetou por igual todos os cursos.

A posição dos estudos de Português

Os mais demandados em primeiro continuam a ser Inglês (196) e Espanhol (76). Mas para entender a posição em que atualmente se encontram os estudos de Português é preciso prestar atenção ao modo de articulação dos diferentes estudos oferecidos na faculdade. Num sistema similar ao norte-americano –repasse aqui cada quem a sua série pós-adolescente favorita, de Dawsons's Creeck a Felicity- ou ao português, o estudantado de Línguas e Literaturas tem a possibilidade de se centrar unicamente no itinerário escolhido em primeiro (o mais parecido à velha Licenciatura), combinar um maior e um minor (p. ex. uns estudos principais em português com um complemento de Filologia Clássica) ou combinar o seu maior com dous módulos diferentes (um maior em Italiano, um primeiro módulo de estudos lusófonos e um segundo de alemão).

Isto afeta de forma mui importante os estudos de Português, que se alimentam, ao menos por enquanto, de estudantes que escolhem os módulos de Estudos Lusófonos muito mais do que de estudantes da Graduação em Línguas e Literaturas Moderna, no itinerário de Língua Portuguesa e Literaturas Lusófonas.

Cisão dos estudos de Galego e Português

Mas antes de ver como a implementação da Graduação afetou os estudos lusófonos na USC, convém fazer um pouco de história para entender o percurso destes estudos, polo menos, desde a década de 90 do século passado. No plano de estudos que vigorou até 1993 os estudos de Português faziam parte da especialização em “Filologia Galego-Portuguesa”, que era uma secção dos estudos de Filologia Hispânica. É a partir do plano de 1994 que os estudos de Galego e de Português são cindidos e português passa a ser um curso autónomo com um programa próprio de 4 anos. Esta cisão era, até certo ponto, nominal e relativa, porque para os estudantes de Filologia Galega era factível tirar em simultâneo o curso de Português, com uma adição mínima –dependendo das escolhas de cadeiras Opcionais e de Livre Eleição- duns 40 créditos num programa de 300. Este plano foi reformulado em 2000. Além de aumentar de 4 a 5 anos de estudo, foi incorporada uma nova categoria nas cadeiras opcionais: estas passavam a se dividir em específicas e não específicas. A opção da Licenciatura em Filologia Portuguesa foi que todas as cadeiras de Filologia Galega teriam a consideração de “Específicas”. No entanto, não todas as cadeiras obrigatórias do programa de Filologia Portuguesa gozavam da mesma consideração no programa de Galego, restringindo, com variações numéricas ao longo dos anos, as possibilidades de tirar os dous cursos em simultâneo.

Fundamentalmente durante a primeira década do século a tendência à redução das inscrições em Filologia, unida às crescentes dificuldades para o estudantado de Filologia Galega compatibilizar os dous cursos, sem esquecermos o tradicional desconhecimento na secundária da existência dos estudos universitários de Português, condenaram o curso à quase inanição. Cadeiras que tinham uma média de 25-30 estudantes no plano de 1994, passavam a ter 1 ou 2 durante a vigência do plano de 2000.

E chegamos à configuração dos planos de estudo das Graduações adaptadas ao EEES. Neste novo plano, os programas de Língua e Literatura Galega e de Língua Portuguesa e Literaturas Lusófonas são elaborados quase de costas viradas, embora a segunda contemple alguma cadeira como “Relações Galiza-Lusofonia” ou “Literaturas Comparadas na Lusofonia”. O mais destacável nesta nova configuração, do meu ponto e vista, é que os novos graduados em Galego não tenhem nem um só crédito obrigatório vinculado à língua, à literatura ou à cultura portuguesas. Como isto afetaria a saúde dos estudos de português era uma incógnita e continuará ser, em parte, até que o processo de implementação se estabilizar, mas temos já alguns indícios interessantes que se extraem do acontecido durante o ano passado e primeiro semestre deste ano.

O número de inscrições especificamente no Grau de Modernas –Português tivemos um único estudante no primeiro ano e 4 no segundo. Quanto à escolha opcional de cadeiras de português, no primeiro ano das graduações, 45 estudantes de todos os estudos escolheram o português como uma das suas línguas (cada estudante deve escolher além da língua principal do seu maior mais 2 línguas, sempre e quando das 3 cursadas no mínimo uma seja “moderna” e uma “vernácula”). Destes, 20 optaram no segundo ano por continuar com o primeiro módulo de estudos lusófonos, que implica 4 cadeiras de 6 créditos cada uma repartidas em dous anos. No segundo ano da graduação, de 377 estudantes inscritos por primeira vez, algo mais de 70 optaram pola língua portuguesa.

É certo que nem todo o estudantado de Língua e Literatura Galega optou por se formar em português (17 de um total de 42), mas é verdade também que estudantes doutras graduações para quem nas velhas licenciaturas o português não se figurava como uma opção possível estão a escolher tanto a língua como o módulo que amplia os seus estudos. Por outro lado, o número de inscritos em Português tem aumentado, proporcionalmente, por cima doutras graduações. Estes números são ainda pouco relevantes para estabelecer tendências –não podemos saber se existe uma tendência ou é uma simples casualidade-, e teremos que esperar a ver se se consolida ou até aumenta a proporção de que 1/6 do estudantado de Línguas e Literaturas escolha o português como uma das suas línguas e que destes, um 50% se incline por continuar a formação em estudos lusófonos.

2012, um ano decisivo

O ano que vem será decisivo por dous motivos, por um lado, entrará em funcionamento o segundo módulo de estudos lusófonos: aqueles estudantes que cursam o primeiro módulo que decidam frequentar também o segundo obterão um minor em Língua Portuguesa e Literaturas Lusófonas –está por ver também que tradução laboral vai ter esta estrutura em “maiors” e “minors”-, por outro, também será decisivo ver como são afetados os diferentes itinerários possíveis na faculdade de Filologia pola aplicação do limite de vagas. É possível que o “efeito chamada” da emigração qualificada à Alemanha desequilibre a balança cara a esse itinerário, e pode ser também que a impossibilidade de entrar no primeiro dos itinerários escolhidos –nomeadamente Inglês e Espanhol- abra às e aos estudantes do próximo ano os olhos a opções que não tinham contemplado com anterioridade, talvez por desconhecimento, talvez por preconceitos sobre as diferentes línguas.

De qualquer maneira, quero chamar a atenção para uma questão que não acho menor. No ano passado, na cadeira Introdução à Literatura Portuguesa –de segundo ano da licenciatura e, portanto, ainda obrigatória para estudantes de Galego- havia 26 pessoas inscritas, das quais só metade eram novas inscrições (o resto eram estudantes que pertenciam a promoções anteriores que não tinham aprovado a cadeira na primeira ou sucessivas convocatórias). Nas Literaturas de Língua Portuguesa deste ano, obrigatória unicamente para 4 estudantes do grau de português, o número de pessoas inscritas foi 25. Se excetuarmos as/os estudantes Erasmus, 16 destas pessoas estão em disposição de fazer um minor em estudos Lusófonos.

Conclusões

Do meu ponto de vista, a primeira conclusão é que o cessamento da tradicional ligação aos estudos de Filologia galega não só não prejudicou, mas parece que beneficiou os estudos lusófonos, aumentando o número bruto de estudantes procedentes do Grau de Galego e incorporando estudantes de Francês, Espanhol e Inglês. Doutro lado, num pequeno inquérito realizado entre este grupo de estudantes, sem mais valor do que o puramente informativo, dous dos doze que responderam afirmaram ter escolhido Língua Portuguesa, o minor ou mesmo o maior de Português por terem estudado Português no Liceu, o que acho que não é uma questão menor, se tivermos em conta a ainda reduzida extensão dos estudos de português no ensino secundário.

 

 


(*) Professora do Departamento de Filologia Galega da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela. Diretora executiva de Veredas, revista da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL).