Para quê os serviços de normalização linguística?

"Desde instâncias superiores fomenta-se um ódio cerval a tudo o que se refira a Portugal, portugueses e o falar português. É tabu tudo o relacionado com o país vizinho"

Quinta, 26 Maio 2011 00:20

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Os professores Isaac Alonso Estraviz e José Paz Rodrigues são professores jubilados da Faculdade de Educaçom de Ourense e diretivos da Fundaçom Meendinho

Isaac A. Estraviz / José Paz Rodrigues - Na nossa Comunidade Autônoma há já bastantes anos inventou-se o chamado serviço de normalização linguística cuja finalidade é, na prática, uma censura idiomática levada a cabo por pessoas na maioria dos casos incompetentes na matéria. Pessoas dedicadas a corrigir tudo o que não seja “normativo” segundo o seu curto entendimento.

Lembramo-nos de um escritor que o ano passado nos confesava em Vilalva como na editora Xerais lhe corrigiam sistematicamente palavras ou formas dentro da norma por outras vulgares. Certamente, por causa disso os escritores galegos manejam um vocabulário muito pobre.

A quem beneficiam esses serviços? À língua não. Aos normalizadores sim, porque para muitos constitui um novo soldo a outro que já têm. Outros talvez vivam disso. Mas a língua está-se a empobrecer desde o momento em que formas legitimamente galegas de uma determinada comarca, são substituídas sistematicamente por outras. Nos concelhos de Trasmiras e Qualedro recolheram-se 13.000 entradas do mundo rural deixando de lado castelhanismos que, depois de tantos séculos de opressão linguística, foram entrando nos seus falares. Se alguém conhece um escritor que tenha essa riqueza léxica, que venha e no-lo diga, por favor.

Normaliza-se de verdade? Estamos certos que não. O que se conseguiu com essas políticas foi convencer as nossas gentes que o que falam está mal, se sintam inseguros, se coibam em falá-lo e se neguem a escrevê-lo para não cometer erros ortográficos. Um amigo nosso dizia-nos que falá-lo ainda se atrevia fazê-lo ora escrever não. Razão? “Cometo muitas gralhas”. A resposta foi: as mesmas que comete qualquer castelhano-falante com a tua formação ao escrever castelhano.

Mas o problema não fica aí com esses censores. Há outros. São muitos os professores que convertem a língua em algo aborrecível, abominável e odioso para os alunos. Um professor que é competente na matéria e a vive como algo essencial na sua vida, transmite-a com entusiasmo e motiva os alunos de tal jeito que cria entre eles uma competência sã para não ser menos que os outros. Conhecemos professores que nunca reprovaram um aluno por faltas ortográficas, porque sabem que teriam que reprovar os autores dessas normas. Às vezes as cousas são tão simples que as complicamos demais. Conhecemos um professor universitário que quando uma aluna lhe disse que era natural das terras de Tui, soltou-lhe imediatamente, da terra onde se fala o pior galego. Nunca mais lhe apareceu polas aulas. Outro, que ignorava o acontecido, quando se apresentou essa aluna e lhe falou donde era natural, disse imediatamente, do lugar onde se fala o melhor galego. Surpreendida perguntou pola razão e ao ser-lhe explicada não lhe faltou nunca às aulas ainda que tinha que vir de longe. Uma cousa tão simples produziu um milagre! O professor deve valorar o aluno e valorar tudo aquilo que faz parte da sua vida, como é a língua do seu dia a dia. Conhecemos professores que nunca reprovaram por faltas um aluno e que lhe meteram tal entusiasmo pola língua que tampouco os suspenderam por responderem aos conhecimentos exigidos.

Por isso a norma e os normalizadores valeram unicamente para criar complexos, provocar ódio ao idioma e grandes inseguranças ao falá-lo e sobre tudo ao escrevê-lo.

Desde instâncias superiores fomenta-se um ódio cerval a tudo o que se refira a Portugal, portugueses e o falar português. É tabu tudo o relacionado com o país vizinho. E para isso inventam palavras: aparcadoiro, beirarrua, beiravia... colhendo estas últimas de beiramar, com significados diametralmente diferentes. Ou colhem-nas do catalão, como acontece com perruqueria, que à sua vez a colheu do italiano parruca, que significa cabeleira postiça. De colher de outro idioma que não seja português porquê não ficar com o castelhanismo. O que não se pode é jogar com o idioma transmissor das nossas ideias e sentimentos.

E isso leva os normalizadores a publicarem e subvencionarem todo tipo de escritos nesse galego empobrecido, com ou sem qualidade nenhuma e não a aqueles que, sim, têm qualidade de avondo, mas não se submetem servilmente.

Antes de continuar, queremos deixar claro o seguinte: um intelectual de verdade não tem porque ter medo nem se deixar levar por preconceitos políticos ou viscerais, que o único que fazem é obnubilar as mentes. Os dogmas neste campo não valem. É uma cobardia acudir a eles. O mesmo que lhe aconteceu a um professor que estava interdito de ministrar galego por não empregar um livro “oficial”, quando em realidade nunca usou livro nenhum.

-O senhor fala muito bem o galego, mas escrevê-lo? Seus pais seguro que não faziam isso”- disse-lhe Paz Lamela, diretora de Política linguística naquela altura.

Meus pais eram analfabetos, senhora, e não escreviam de nenhum jeito”.

Propujo-lhe então reabilitá-lo e dar-lhe a escolher o centro que ele quisesse sempre e quando não criticasse as normas.

Senhora Paz Lamela, isso é considerar as normas um dogma e olhe que os dogmas mesmo na igreja têm diferentes categorias”. E ficaram como estavam.

Quiséramos aproveitar para oferecer ao público leitor o que pensava um intelectual português da Galiza e dos Galegos. Referimo-nos a Santos Júnior: médico, biólogo, antropólogo, arqueólogo, ornitólogo..., a pessoa que mais conheceu Galiza e se relacionou com galegos.

Da Galiza e dos galegos:

... da encantadora Galiza, terra sagrada da excelsa Rosalia e de tantos e tão ilustres galegos Otero, Risco, Cuevillas e Bouza Brey” (carta 147 a Joaquim Lourenço, “Xocas”).

Depois de amanhã, se Deus quizer, sigo para essa encantadora e sempre amada Galiza” (carta 29 a Taboada Chivite)

Ha já um par de dias que vim dessas encantadoras terras e ainda conservo o estonteamento dessa maravilhosa Galiza irmã que, de cada vez que a visitamos, tem a virtude singular de se desdobrar em encantos novos” (carta 21 a Filgueira Valverde).

...pelos encantos dessa Galiza, rincão do noroeste da Península onde vive gente que, pela cultura e pelo sentimento, tanto se nos assemelha” (carta 66 a Idem).

Já tenho saudades dessas terras encantadoras da encantadora Galiza que os meus olhos tanto gostam de ver e a minha alma de deleitar” (carta 168 a Idem)

... dessa terra de maravilha e de encantamento” (carta 175 a Idem).

... falando da tua encantadora Pátria essa adorada Galiza que tanto me enfeitiçou. Quanto mais a conheço melhor a quero” (carta 14 a F. Bouza Brey).

Na verdade essa adorada Galiza tem coisas bem extraordinárias” (carta 34 a A. Fraguas)

... dessa encantadora Galiza, a que o meu coração muito quer, e não menos apaixonado do povo galego tão irmão do povo minhoto” (carta 42 a A. Fraguas)

Regalei-me de lêr no teu discurso a doce lingua galega, ‘a mais nídia e enxebre espresion’ dessa encantadora e ridente Galiza a quem, sem saber bem porquê, o meu coração tanto quer” (carta a S. Martínez Risco).

E como resumo de tudo isto o discurso de boas-vindas que deu aos galegos em Viana do Castelo aquando da Semana Galega no Porto:

Porto, 27 de Maio de 1935

Meus Amigos:

Não encontro melhor saudação para vos dirigir do que aquela que expressa a palavra amigo.

É com grande alegria que vos saúdo, meus amigos, amigos nossos da Galiza irmã.

Quis o acaso que seja eu o primeiro a dirigir-vos cumprimentos de boas-vindas, nesta vossa romagem fraternal ao Porto e às terras do Norte de Portugal.

Faço-o com grande satisfação e o maior contentamento, embora outro qualquer o pudera fazer melhor do que eu.

E é grande a nossa alegria encontrando-nos hoje aqui, nesta linda terra minhota de Viana do Castelo, com seu monte de maravilha e encantamento.

E como não hade ser assim, se vós, estando no Minho, vos julgais ainda na vossa encantadora e ridente Galiza, e nós, quando entramos na vossa Pátria, nos julgamos ainda em pleno Minho.

Os milagres da côr e da paisagem do Minho e da Galiza, são os mesmos milagres da luz e da selva.

Os pinheiros tristes e rumorosos ungem estranhos delírios dos nossos olhos embriagados pela contemplação dos campos e das serras.

Os nossos olhos, como gaivotas brancas, voam sôbre o mesmo mar que em dias de calma se torna mais íntimo e parece ciciar à terra segredos que ninguem pode entender, mar que, quando o vento sopra rijo, esbraveja como cão medonho e alucinado, e morde enfurecido a terra e os rochedos e cobre as praias com um branco lençol de baba espumante, que é raiva desfeita.

O norte de Portugal e a Galiza são bem irmãos e devem ser cada vez mais amigos.

Fazendo votos, os mais ardentes votos, pelo estreitamento da nossa amizade, eu grito do fundo d’alma: VIVA A GALIZA.

Santos Jr.”

(*) Académicos da AGLP, professores jubilados da Faculdade de Educaçom de Ourense e diretivos da Fundaçom Meendinho.