Traços vocálicos nos cantares galego-portugueses (ligeira aproximação para um mapa comum)

Neste artigo, interessa-me apenas ressaltar um traço comum que tenho vindo a constatar na música tradicional e popular (e alguns géneros de elite daí criados), tanto na música cantada em território galego como na música cantada em território português

Sexta, 09 Setembro 2011 08:18

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João Sousa (*) - A música é, entre tudo o resto, expressão genuína da cultura popular. A cultura popular é, entre tudo o resto, carga simbólica de uma idiossincrasia, de hábitos, de costumes, de sistemas de valores e pensamentos, de vidas e traços distintivos entre culturas semelhantes.

Neste artigo, interessa-me apenas ressaltar um traço comum que tenho vindo a constatar na música tradicional e popular (e alguns géneros de elite daí criados), tanto na música cantada em território galego como na música cantada em território português.

Antes de mais, indicar apenas que as semelhanças são óbvias. As músicas que eu aprendi no meu país, quando criança, ouvi-as cantadas na Galiza, com ritmos ou melodias diferentes, com léxico diferente (pela óbvia realidade contextual e imaginário de cada zona). Em Portugal canta-se "A saia da Carolina tem um lagarto pintado / Quando a Carolina baila o lagarto dá ao rabo / Sim Carolina, oh i oh ai / Sim Carolina, oh ai meu bem (...)", mas também se canta em certas zonas como eu ouvi na Galiza, que inclui um estribilho alternativo " (...) Bailache Carolina / Bailei sim senhor / Dime com quem bailache / Bailei com o meu amor (...)" (e restante letra e variações). De citar também que são duas melodias bem distintas. A primeira assemelha-se as danças corridas do Sul Português, a outra às melodias mais lentas e carregadas de certa melancolia melódica típicas do Norte. Tal como este exemplo existem outros tantos, desde músicas que eu só ouvia a minha avó cantar e que ouvi tantos cantarem na Galiza, etc.

A este artigo interessa apenas ressaltar os traços fonéticos próprios de diferentes tipos de música (associados a diferentes zonas do campo cultural galego-português). Certos traços que ligam tendências entre Cante Alentejano e Munheiras Galegas, entre Fado de Coimbra e qualquer outra música popular galega. São esses traços a abertura de certas vogais finais, assim como a inserção de outras vogais (ou semi-vogais) no fim de infinitivos ou outra palavras acabadas em /r/.

Passamos aos exemplos.

Em algumas músicas que me foram mostradas por amig@s galeg@s reparei (e foi-me dado a reparar) nalguns traços que exemplificam o que acabo de mencionar. Numa música, do grupo "A Roda", ouvimos frases como "Nom te enfades Leonore / Porque as pernas che mireié (...)" ou "Bem seguro podes tere (...)". São precisamente as letras em negrito que compreendem a alteração fonética. No caso de /Leonore/ trata-se de um acréscimo da vogal /E/ (que podemos escutar como semicerrada (como na palavra "medo" ou por vezes quase tão aberta como nas palavras "perto" ou "pé"); no caso de /mireié/, optámos por acentuar o é final, uma vez que a prolongação do ditongo final /ei/ é feita com a vogal ligeiramente mais aberta do que no primeiro exemplo – criando um belíssimo jogo com as vogais finais do verbo, fazendo-o subir, descer e voltar a subir. Para além de extremamente melódico, esta tendência fonética é quase sempre utilizada ao longo da música e com uma função também ela métrica.

No caso da música tradicional alentejana (as Modas, o Cante Alentejano, etc.), um fenómeno muito idêntico se regista em infinitivos e palavras terminadas em /r/. Trata-se do acrescento da vogal /i/ junto ao /r/, traço, também ele, típico de algumas zonas do Alentejo (ou quase todo) no quotidiano oral. Ouvem-se em verbos como "Cantari", "Bailari", etc. a utilização desta vogal é inclusive ensinada a quem canta o Cante ou as Modas Alentejanas, não é sistematizada em todas as palavras ou verbos com terminação em /r/ e pode-se ouvir em vários contextos musicais (como é o caso da música "Canção Sem Maneiras" do grupo musical pós-25 de Abril "Grupo Acção Cultural, onde se escuta apenas na frase "Enquanto for o burguês a mandari / É o fascismo que vai regressar" – note-se que o segundo verbo não tem acréscimo de vogal final de apoio).

Fenómeno de idêntica natureza, embora meramente fonética quanto à sua função, regista-se no Fado de Coimbra (assim como nas Baladas). Género popularizado, primeiro, entre o meio estudantil de Coimbra desde muitos anos, mas também por José Afonso (cuja formação vocálica vem precisamente da escola de Coimbra), cujas primeiras gravações assinava como "Dr. José Afonso", em álbuns ou k7 como "Baladas de Coimbra" ou o mais recente "Fados de Coimbra". Pegando precisamente na primeira música do último álbum refdo "Fados..."erido, hoje popularizado e parte da discografia obrigatória dum apreciador do Zeca e do Fado de Coimbra, "Saudades de Coimbra" transcrevemos o exemplo pretendido:

"Ó Coimbra do Mondego / e dos amores que lá tive (...)" sendo que em /Mondego/ a vogal final é ligeiramente aberta, prolongando a mesma e soando algo como /Mondegô(o)/ (ainda que o /o/ não seja totalmente aberto, estando num impasse entre o /ô/ e o acentuado como em /próprio/). Este fenómeno regista-se na forma de cantar das baladas e fados da escola musical coimbrã – mais demarcado em certos fadistas do que outros. "Quem te não viu anda cegô(o) / Quem te não ama não vive(e)" – e apesar da prolongação que outras vogais finais sofrem, a abertura regista-se essencialmente na vogal /o/. Este fenómeno é encontrado também nas músicas cantadas na Galiza, apenas porque a vogal é ligeiramente aberta na oralidade (embora em algumas zonas se abram e fechem vogais de uma forma que a norma oficial galega não reconhece). Pode então ser esta uma tendência das gentes do Norte, que na hora do canto regista diferentes traços fonéticos tanto em território galego como português, em contextos populares, académicos ou classistas.

Os exemplos acima referidos revelam uma tendência de dois fenómenos espalhados pelo terreno cultural galego-português peninsular, geograficamente, registos de traços ditos dialectais, registos de técnicas de canto que são utilizadas em regiões aparentemente distintas (compare-se a cultura alentejana com a do norte de Portugal ou da Galiza; comparem-se os corridos algarvios ou até das ilhas da Madeira com música também popular nortenha, ou com a música culta da escola Coimbrã). Fenómenos de natureza cultural e popular que, apesar da "separação" ou das "costas viradas" entre os eixos norte e sul, preservam-se e têm claramente traços comuns que provam mais uma vez um génio criativo comum apesar dos séculos de ignorância mútua de forma geral.

Referir apenas, antes de terminar o presente artigo, que outros traços ditos dialectais são também eles marca das similitudes entre as nossas músicas populares, em palavras como "iagua" ou "iauga" ou apenas "auga", "ialma", etc. Todos estes traços sobrevivem por vezes na música popular portuguesa (ainda que a norma de Portugal, foneticamente, os condene e os rotule de dialectalismos, quando na verdade já foram a norma e na Galiza têm tanta vitalidade como em zonas nortenha, beirãs e sulistas do território português) e representam autênticas ferramentas etnográficas e antropológicas para quem ainda não tenha bem a certeza da "irmandade" que tanta gente tentou e tenta apagar e desprezar, mas que vive ainda no génio e no imaginário criativo, laboral, humorístico e familiar de ambos os territórios. Dois nomes, um só coração – e que grande e fértil pode ser esse coração.

 


(*) Artigo publicado originalmente no Diário Liberdade