Mercúrio

«No dia 1 de outubro, a DPG organiza em Lugo o seu III Encontro de Didática do Português. Inscrevam-se, tragam este Mercúrio de Emílio Alonso no peto para amenizar a viagem»

Quarta, 21 Setembro 2011 06:54

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Joseph Ghanime - Duas voltas à muralha e dous cafezinhos da manhã avondam para ler de forma aprazível o Mercúrio de Emílio Alonso, publicado na Xerais com fermosa ilustração de capa de Jorge Peteiro.

Não venho aqui desvendar os pormenores da trama do romance, que se abeira do género policial. Queria, sim, chamar a atenção para o efeito-termómetro deste livro, que ao ser-lhe colocado a Lugo por baixo dos sovacos, mede com precisão os sintomas de faringite social que acompanham o dia-a-dia da capital do antigamente da Galiza.

Especuladores imobiliários, fabricantes clandestinos de explosivos, mencinheiros, figurantes da elite local, e até falangistas de falar orteguiano desfilam por esta radiografia, a meio caminho entre o saudosismo por uma cidade a que sempre se regressa e a desilusão retranqueira perante o seu gangrenado devir.

Alguns dos lugares-comuns que inscrevem Lugo no imaginário emocional dos galegos e dos próprios lugueses venhem à tona no livro, sob um olhar apimentado e descrido. O famoso e iribarniano “e para comer... Lugo” traduz-se nas grotescas paparotas das primeiras comunhões dos filhos da classe dirigente; a águia imperial da praça de São Domingos é vista polos transeuntes como uma galinha, e por aí fora.

O ritual e a convenção surgem, em última instância, como calados propulsores das engrenagens da cidade: creio que, coma a cidade, cada luguês estava psicologicamente amuralhado e era incapaz de entender que havia vida mais aló do recinto amuralhado. Polo menos essa vida tranquila, sossegada e monótona na que ata os sobressaltos e as más novas estavam programadas. Poucos éramos capazes de dar o passo de instalarmo-nos fora mas, ainda assim, tinhamos uma espécie de inércia do retorno (página 10 – ortografia adaptada).

Este Lugo daqui e de agora; este artefacto insólito de brêtema nortista e de revirada inspiração para o crime; este Lugo que amanhece aqui agorinha devagar é a cidade galega com maior potencial para os filmes de série B e o romance negro. Queiramos encorajar os autores locais para tirar partido desta veia, antes que um Arnadul Indridason ou um Francisco José Viegas venham da Islândia ou do Porto para explorá-la.

E ainda que não venha muito ao caso, aproveito para lembrar-vos que no dia 1 de outubro, a DPG organiza em Lugo o seu III Encontro de Didática do Português. Inscrevam-se, tragam este Mercúrio de Emílio Alonso no peto para amenizar a viagem do Freire, aproveitem para visitar o tanque dos patos no parque Rosalia, onde o cadáver do Homem de Gelo foi encontrado.

P.S. Segundo se véu a saber pola leitura de Mercúrio, a organização do III Encontro de Didática resolveu alojar alguns dos assistentes num hotel construído sobre as ruínas dum antigo camposanto, o que garante uma abordagem translúcida e bem remoída dos assuntos escolhidos para debate.

 

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