A política cultural do PP galego: “Que muera la inteligencia”!

No espaço dumha semana figérom anos dous pessoeiros do PP galego, e ambos os dous celebrárom-no com cadansua anedota infeliz

Quarta, 19 Outubro 2011 07:45

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Jorge M. de la Calle - Há pouco foi o Dia da Hispanidade, antigamente chamado polos fascistas Dia da Raça, que guarda no seu anedotário um episódio digno de mençom: o do 12 de outubro de 1936, quando Miguel de Unamuno se enfrentou à violência verbal dos fascistas ali reunidos, entre eles Millán Astray.

 

O escritor basco respondeu a um discurso racista do professor Francisco Maldonado, em que este criticava os nacionalistas bascos e cataláns. De seguido, um indignado Unamuno pronunciou um apaixonado discurso em contra da “guerra incivil”, em prol do povo basco e catalám, e a favor da Universidade, “templo da cultura”: “Vencer nom é convencer”. Millán-Astray (quem por certo conserva os honores de filho predileto da Corunha graças à inoperância do PP nesta cidade e o seu alcaide, Carlos Negreira) sentiu-se aludido por essas sábias verbas, ainda que nom fossem dirigidas diretamente cara a sua pessoa, e tentou introduzir-se no debate, berrando o lema da Legiom: “¡Viva la muerte!”, e lançando contínuas proclamas fascistas. Quando Unamuno recuperou a palavra arrebatada, e fijo um retrato mais detalhado do mutilado general de guerra do exército de Franco, este acabou por se irritar, e exclamou, fora de si: “¡Muera la intelectualidad traidora! ¡Viva la muerte!”, ainda que polo balbordo do numeroso público que o presenciava, nom se ouviu bem, e a versom mais conhecida, lenda já, aperfeiçoada mas nom real, é a de “¡Muera la inteligencia! ¡Viva la muerte!”. Os fascistas tentárom emendar com desiguais resultados estas verbas, porque nem sequer na sua formulaçom podem alcançar um mínimo de brilho, qualidade vetada aos obscuros de-mentes.

Parece umha irónica casualidade, mas é fruito dumha trágica causalidade: no espaço dumha semana figérom anos dous pessoeiros do PP galego, e ambos os dous celebrárom-no com cadansua anedota infeliz, consequência do cargo e da carga de prepotência que lhe acompanha quando, num mesmo indivíduo sem educaçom, concorrem os dous. Refiro-me a Conde Roa, alcaide de Santiago e líder do Partido Popular na capital da Galiza, e a Anxo Lorenzo, secretário-geral de Política Linguística da Junta de Núñez Feijóo. E também di muito da particular conceçom da cultura e dos criadores, ademais da “política cultural”, destes sujeitos, herdeira quiçá de obscuras personagens doutros tempos.

O primeiro é Conde Roa, do que me absterei de fazer graças com o nome, que já figuram nos anais da fraseologia popular, e que, portanto, podem conhecer todos os leitores e leitoras. Ainda que, tendo em conta que chamou “terroristas” aos responsáveis e público da Sala Nasa e centros Gentalha do Pichel e Henriqueta Outeiro, mereceria todos os qualificativos que a educaçom que ele nom tem mas a nós se nos supom, no-lo impede. A educaçom, a contençom e as boas maneiras nom som um dom que esteja ao alcance de qualquer. O devandito alcaide celebrou por todo o alto o seu aniversário, no dia 28 de setembro, dous dias depois, erigindo-se em protagonista eventual dumha ópera bufa, ao remate da representaçom d’O Barbeiro de Sevilha, no Auditório da Galiza. Sentiu-se aludido por lemas dos indignados que se agochavam entre muitos de carácter revolucionário e que se mostrárom ao final da funçom, e, interpretando erroneamente um sinal do iluminador, o grande Baltasar Patiño, alporiçou-se como nunca e arremeteu contra este, chamando-lhe “maleducado”, “parásito”, “mamón”, e chegando quase às maos, a interatuar brechtianamente, a nom ser pola sensata intervençom dos secundários que o enroupavam.

Ao dia seguinte, pediu desculpas pola sua atitude a “todo aquele que se pudesse sentir ofendido”, mas nom lhas pediu a quem realmente tinha que pedir-lhas, a “Balta”, o melhor iluminador teatral de toda a Galiza, ganhador de numerosos prémios Max e um homem, em descriçom de amigos seus, “pacífico”, “moderado”, e que nunca dixo umha palavra mais alta que outra até que o alcaide, a quem aliás dizia nom conhecer, o provocou com a sua violência verbal e vandalismo gestual. Também dixo que os lemas do 15M “nom tinham lugar numha representaçom assim”. Por aí nadava também Roberto Varela Fariña, conselheiro de Cultura, que fijo “mutis polo foro” até o carro oficial. Sim, o mesmo que di que “a cultura galega está bem, mas limita”, e que existe umha localidade galega chamada “Desván de los Monjes”. O Conde Roa, que polo seu nome de reminiscências nobiliárias, parece sacado doutra ópera, também bufa, é ademais responsável doutras pérolas discursivas: aos indignados e indignadas do Obradoiro chamou “okupas”, que davam “má imagem” à cidade (ver a palha no olho alheio… sem ver a trave no próprio). A umha política do PSOE a tachou de “marimacho”, e do galego dixo que nom tinha “problemas com ele”, porque o falava quando o tinha que falar (sic).

A 10 de outubro foi o aniversário de Anxo Lorenzo. Nom nos é desconhecida a sua particular beligerância cara o galego e os grupos sociais e culturais que o defendem, algo paradoxal tendo o cargo que ostenta. No blogue enredando.blogaliza.org conta-se-nos outra anedota, esta mais “en petit comité”, que narra, também com a presença como secundário de renome de Roberto Varela, a saída em excursom do Governo galego ao Reino Unido, ocorrida no passado 4 de março. O objeto da peregrinaçom a terras saxónicas era a apresentaçom dumha antologia de literatura galega traduzida ao inglês. “Um grande contributo, sem dúvida, à projeçom internacional da nossa literatura, mas em cujo mérito pouca parte tenhem os mesmos responsáveis políticos que boicotam essa linha de atuaçom um dia sim e outro também”, comenta o autor do blogue. “De feito, o próprio Varela encarregou-se de rebaixar a categoria do nosso sistema literário, qualificando-o de “rexional”, em declaraçons aos meios durante o ato”. Mas o capítulo tragicómico véu depois, quando centros de estudos galegos britânicos e irlandeses solicitárom manter umha entrevista com ele.

A juntança tivo lugar em Oxford, cenário também de reminiscências teatrais, onde o político encenou umha das suas saídas de tom mais bufonescas, com todo o respeito para todos os bufons do mundo. “Já de início, Anxo Lorenzo mostrou-se incómodo, nervoso e inseguro: temendo umha enxurrada de petiçons económicas que nom se produziu, começou fazendo umha apelaçom à austeridade, o mantra de Feijoo e os seus sequazes”. O professor demostrou nom estar preparado para responder às reivindicaçons que se lhe figérom, todas na linha de melhorar a comunicaçom entre os centros e a Junta. Mas “um detalhe crucial”: nengumha questionou a linha política da Secretaria que dirige, “o que fai ainda mais difícil compreender a atitude de Anxo Lorenzo”. Seica pola sua insegurança e falta de razom, o hominho perdeu os nervos e montou em cólera, começando a falar “aos berros, ademais de proferir um bom número de expresons soezes e de adotar um tom prepotente, chegando a afirmar que quem manda nos centros galegos é ele e nom o pessoal que trabalha nessas instituiçons”. Os seus interlocutores, muito mais educados que ele, optárom polo silêncio, e nom se pugérom à sua altura, que ficou, como a do governo, polo chao. Com o seu comportamento, impróprio dum alto responsável político, Anxo Lorenzo desperdiçou a oportunidade de melhorar a imagem e o nível de estudo do galego no exterior. O mesmo “anjo”, em resposta a um comentário no seu “facebook”, chamou a umha internauta há poucas semanas “cancro”, e respondeu com visível frivolidade (gargalhadas incluídas) às repetidas críticas que se fazia da sua sectária política de subvençons.

Todo este elenco de (maus) atores de sátira representam-nos nas altas instituiçons, numha grande farsa de governo que di estar ao favor da educaçom pública mentres recorta professores, que di estar a prol da sanidade pública quando recorta médicos, e que di defender o galego ao tempo que elimina de raiz os quartos para a difusom, promoçom e traduçom do idioma próprio. Um “Divino Sainete” que seguro faria as delícias do grande Curros Enríquez, com semelhante reparto de personagens com toda a carga da palavra. É sintomático que os dous, Conde Roa e Anxo Lorenzo, se vejam atacados mesmo antes de qualquer ataque. De que eles mesmos pensam que nom o estám a fazer bem. Também sintomático que nom vejam apropriadas as críticas à sua gestom, quando o normal em democracia é discutir pacificamente as ideias, sem recorrer à violência ou à grosseria. Gerardo Conde cria que os indignados nom deviam estar nessa representaçom, mesmo ainda numha obra com conteúdo social e atualizada aos tempos. E Anxo Lorenzo que nom se devia melhorar a rede de centros galegos. É a sua conceçom da cultura, como algo museístico, inútil e objeto só de culto, sem potencialidades de ser revolucionária, cambiante, transformadora. E do galego como umha relíquia de museu, ou como umha ópera afastada da realidade, só ao alcance duns poucos. Nom deixam questionar umha soa palavra. Autoritarismo feroz, modos tirânicos, formas totalitárias.

Conviria recordar-lhes as exemplares palavras de Unamuno naquela história do 36, porque vem muito a conto da sua atitude e da de muitos. Umhas palavras valentes, tanto no fundo como na forma, pronunciadas firmemente fronte aos fascistas, num ambiente violento e hostil:

«Este é o templo da inteligência, e eu sou o seu sumo sacerdote! Vós estades profanando o seu sagrado recinto (…). Venceredes, porque tendes sobrada força bruta. Mas nom convenceredes, porque para convencer há que persuadir. E para persuadir necesitaredes algo que vos falta: razom e direito na luita. Parece-me inútil pedir-vos que pensedes (…). Dixem».