Crónica 110. Santa Maria ilha-mãe (outubro 2011)

Quinta, 27 Outubro 2011 10:04

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Chrys Chrystello - A chegada à ilha-mãe para o 16º colóquio da lusofonia estava pejada de incertezas, indecisões, dúvidas meteorológicas e outras, mas com uma esperança enorme de que se conseguisse mais um sucesso, e por tal motivo o discurso de abertura dos colóquios assim o manifestava.

Agradecimentos são devidos ao nosso anfitrião, o Município de Vila do Porto representado pelo Presidente Carlos Rodrigues e pelo seu Vice-Presidente Roberto Furtado, incansável nos meses de negociações e de preparação deste evento incluído no roteiro de turismo cultural da ilha, agradecemos ao Dr Jorge Paulus Bruno, Diretor Regional da Cultura pelo seu apoio aos colóquios e por aqui se deslocar em representação do presidente do governo regional, à Professora Dra. Graça Castanho, Diretora Regional Das Comunidades, pelo apoio nestes últimos quatro anos, e agradeço ainda aos 3 representantes das academias de língua portuguesa, Professor Doutor Malaca Casteleiro (Academia de Ciências de Lisboa), Professor Doutor Evanildo Bechara (Academia Brasileira de Letras) e Mestre Concha Rousia (Academia Galega de Língua Portuguesa) Patronos destes eventos.

Quero ainda deixar aqui uma palavra especial de muito apreço pelos esforços desenvolvidos pelos nossos delegado na ilha, Dr. JOÃO SANTOS diretor do museu, DANIEL GONÇALVES da escola secundária e ANA LOURA que estabeleceram localmente os contactos indispensáveis a um evento desta envergadura, ao senhor Aldeberto Chaves presidente da Junta de Freguesia de Santo Espírito por nos honrar com o convite para umas “Sopas de Império” e foliões num encontro entre os colóquios e o que há de mais genuíno no povo mariense…e um especial BEM-HAJAS ao artista plástico José Nuno da Câmara Pereira nosso guia artístico durante a semana. A todos os colegas e aos sócios da AICL que nos honram com a sua presença, o nosso muito obrigado. Minhas senhoras e meus senhores.

Como é hábito em todos os colóquios farei uma rápida abordagem histórica para aqueles que aqui chegam pela primeira vez. A mais antiga referência ao arquipélago é feita no Atlas de Médici de 1351. A sua descoberta pode ter ocorrido com uma expedição luso-genovesa em viagem de retorno às Canárias. Santa Maria fora designada Ilha dos Lobos-marinhos no Mapa de Pizzigani de 1367 e Gonçalo Velho pode ter sido o descobridor mas Damião de Peres assinala que Diogo de Silves terá aportado aqui no regresso da Madeira, em 1427. Daniel de Sá aventa também a hipótese de o nome ser o de Diego Gullén e não de Silves... Houve sempre em relação a este ponto e a outros, como a data da descoberta dos Açores, um nevoeiro histórico que assombra tais eventos: muitas são as dúvidas e poucas as certezas. Gaspar Frutuoso, no século XVI, indica que Gonçalo Velho Cabral, a mando do Infante D. Henrique, chegou a St.ª Maria em 1432 e a S. Miguel em 1444. A carta do catalão Gabriel de Valsequa de 1439 apresenta dados mais precisos e na legenda lê-se que teriam sido descobertos por um Diego. De acordo com uma teoria, relativamente recente, de Damião Peres, este seria Diogo de Silves, marinheiro do Infante D. Henrique, no ano de 1427, mas há quem dispute esta versão. No mais antigo documento régio referente aos Açores, de 2 de Julho de 1439, é dada permissão ao Infante D. Henrique para mandar povoar e lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores pressupondo que, apesar de as viagens entre o continente e as ilhas terem ocorrido desde 1427 com Gonçalo Velho, o povoamento só se terá iniciado em 1439 na Praia dos Lobos, ao longo da Ribeira do Capitão, segundo Gaspar Frutuoso, mas foi João Soares de Albergaria, sobrinho do primeiro capitão-donatário e seu herdeiro, quem trouxe famílias do continente.

Os portulanos genoveses conhecidos até essa data, não fornecem qualquer indicação sobre ilhas no Mar Oceano. A partir dela, entretanto, registam-se:

1325 - Portulano de Angellinus de Dalort, assinala uma ilha, a oeste da Irlanda, denominada como "Bracile";

1339 - Portulano de Angelino Dulcert assinala não apenas a ilha "Bracile", como outras, nas alturas dos acuais arquipélagos das Canárias (descoberto anteriormente a Agosto de 1336 pelos portugueses e nomeando a Canária, Lançarote, Forteventura e outras) e da Madeira, e ainda a "Capraria", que alguns autores associam ao conjunto das atuais ilhas de Santa Maria e S. Miguel. Esses indícios por si só, entretanto, não constituem elementos seguros para se afirmar se testemunham a visita (deliberada ou incidental) de navegantes a serviço de Portugal, ou se se trata tão-somente de ilhas fantásticas (vejam-se as lendas da Atlântida, das Sete Cidades, da ilha de S. Brandão, das ilhas Afortunadas, da ilha do Brasil, da Antília, das Ilhas Azuis, da Terra dos Bacalhaus).

1340-1345: Outros autores pretendem que o conhecimento das ilhas dos Açores teve lugar quando do regresso das expedições às Canárias realizadas cerca de 1340-1345, sob o reinado de D. Afonso IV (1325-1357).

O primeiro foral açoriano foi concedido a Vila do Porto em 1470, a mais antiga vila que mantém hoje a sua estrutura original e com vestígios da época como a casa do Capitão Donatário ou mais baixo outra com janelas do séc. XV. A prosperidade assentou, no pastel e urzela até ao séc. XVII, exportados para as tinturarias da Flandres bem como no trigo que abastecia as praças-fortes portuguesas do norte de África.

Em 1493, aqui aportou Cristóvão Colombo, no regresso da sua primeira viagem à América. Sendo confundido com um mero pirata, dizem as crónicas que preso se quedou às ordens do governador, até se esclarecer a sua presença. A internet da época não permitia a informação em tempo real sobre quem era e o que fazia o Colombo ou Cristóvam Cólon. Os verdadeiros piratas vieram nos sécs. XVI e XVII. Tratava-se de corsários ingleses, franceses, holandeses, turcos, marroquinos e argelinos, que faziam as suas razias, incendiavam, violavam, pilhavam, levando mulheres e homens como escravos e reféns. Moedas de troca vulgares nesses dias.

Digna de menção é a presença, mais tarde, de um contingente de tropas liberais [vindos da Achadinha e da batalha da Ladeira da Velha (S. Miguel)] rumo ao desembarque do Mindelo, na Arnosa de Pampelido, atual Praia da Memória, Matosinhos, em 8 de julho de 1832, durante as Guerras Liberais ou Guerra Civil Portuguesa (1828-34). Nesses 7500 homens transportados em 60 navios, estavam Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Joaquim António Aguiar.

O séc. XX trouxe a Santa Maria, em 1944, o progresso de uma forma súbita e inesperada, com a construção do aeroporto por tropas norte-americanas. O aeroporto não teve importância estratégica para a guerra ou durante ela, tanto mais que não existia ainda. Ele serviu apenas para reabastecimento das tropas de regresso dos campos de batalha na Europa mas seria escala obrigatória nas travessias atlânticas até finais de 1960 e das suas três pistas, uma é a mais extensa do arquipélago, com 3.048 metros. Foi destino do voo inaugural da SATA e da aeronave “Açor” que cairia ao mar a 5 agosto 1947, após descolar de S. Miguel, morrendo seis pessoas. A TAP passou a escalar a partir de 1962, seguindo-se voos para Nova Iorque (1969) e Montreal (1971), bem como a presença habitual do supersónico Concorde, ligando a Europa e a América. Embora a introdução de novos aviões com maior autonomia reduzisse o tráfego, é um dos aeroportos mais bem equipados dos Açores. O FIR (controlo de tráfego aéreo da Região de Informação Aérea Oceânica) também se situa aqui e serviu para seguir o lançamento do “Automated Transfer Vehicle (ATV)” europeu para a Estação Espacial Internacional (ISS) para ajudar o reabastecimento dos astronautas em órbita.

Hoje a fértil ilha de 97,42 km² (17 km por 9,5 largura) tem apenas 5547 almas, menos mil do que há dez anos. É a única com terra de origem sedimentar e fósseis marinhos. As singulares e elegantes chaminés brancas que pontilham a ilha podem evocar as congéneres algarvias mas não terão a ver com Portugal como exprime o autor aqui homenageado, Daniel de Sá: “Pensa-se que foram brasileiros de torna-viagem que se inspiraram nas chaminés dos transatlânticos que os traziam à ilha. Por isso lhes chamam chaminés de vapor. Em Santana, no meu tempo, haveria só três ou quatro. O que quer dizer que todas as outras casas seriam provavelmente do século XIX.”

Na gastronomia local saliento as sopas de Império confecionadas em grandes panelas de ferro e acompanhadas por pão para além do caldo de nabos, o bolo na panela, a caçoila, o molho de fígado, a sopa e caldeirada de peixe. Nos mariscos há o cavaco, lagosta, lapa e cracas. Na doçaria há biscoitos encanelados, biscoitos de orelha, biscoitos brancos, biscoitos de aguardente e as típicas cavacas. Dos socalcos de S. Lourenço, vem o vinho de cheiro, o abafado, o abafadinho, o licor e a aguardente, todos produzidos de forma artesanal.

Apesar da sua reputação de repouso e sossego existem na ilha praias de areia branca e águas cristalinas para surf, windsurf, vela, mergulho, pesca desportiva.

O traçado original da vila chegou quase intacto até ao séc. XX sendo exemplar único de vila medieval (1450) fora da Europa sem a habitual muralha. O antigo aglomerado urbano, datando do início do povoamento insular coexiste com algo que me impressionou pela sua imponência histórica, a zona da velha base norte-americana na zona aeroportuária. O bairro do Aeroporto deveria ser preservado como autêntico Museu vivo da história recente europeia. Trata-se de um exemplar da construção militar norte-americana da 2ª Guerra. O seu valor, além do turístico totalmente inexplorado, poderia ser aproveitado como cenário de filmes de época, dado que muitas das instalações e a igreja conservam as características originais de há mais de 60 anos.

A qualquer momento vindos do porto pela Estrada da Birmânia, ao chegar junto ao “açucareiro” esperamos que salte ao caminho um “GI” Joe, fardado a rigor, para nos parar e pedir os documentos de circulação na base...existe aqui potencial de recriação histórica e turística que urge não desperdiçar apesar dos tempos de crise. Este bairro moderno assumiu, na época, um caráter arquitetónico inovador, em sintonia com o urbanismo americano: ruas largas e curvilíneas; edifícios simples, prefabricados com estrutura metálica trazida dos Estados Unidos e vastos espaços arborizados. A base americana revolucionou o quotidiano mariense com equipamentos como o abandonado “Atlântida Cine” inaugurado em 1946; o clube “Asas do Atlântico” em 1950; e ainda a igreja, ginásio e residências, isoladas em blocos coletivos. As áreas mais residenciais, a nascente, estão agrupadas em largos quarteirões abertos, muito arborizados e com as edificações afastadas entre si. As imagens das casas prefabricadas contrasta com a flora de antenas parabólicas de TV. Em Santa Maria há tanta riqueza que podia e devia ser acarinhada e preservada mas não foi devidamente tratada, esperemos que algo possa ser feito pois ela faz parte da história viva da ilha e do arquipélago.

Chegamos à Ilha-Mãe depois do luxo oriental de Macau onde estivemos em abril passado no 15º colóquio mas estamos convictos de que também Santa Maria irá marcar indelevelmente os que aqui estão connosco pela sua beleza, sortilégio, hospitalidade e simplicidade. O Município de Vila do Porto teve a inovadora ideia de colocar este Colóquio no Roteiro Cultural do Turismo da ilha. As nossas sessões refletem já essa mudança de paradigma, havendo mais tempo para visitar e aprender os locais que fazem a História da ilha, e para tal contamos com Daniel Gonçalves, Daniel de Sá, João Santos e Joana Pombo para nos guiarem nesse roteiro.

Visitei pela primeira vez o Museu de Santa Maria em Santo Espírito, em 2006, e em longa conversa com o Diretor, Dr. João Manuel Trindade Reis dos Santos, fui convidado a trazer os Colóquios para a ilha. Cinco anos mais tarde aqui estamos a concretizar esse sonho antigo com o alto patrocínio do município e apoio da direção regional da cultura.

Ao longo desta vida, aprendi novas linguagens e culturas enriquecendo a bagagem que comigo transporto às costas, caixeiro-viajante de sonhos que insisto em tornar realidade. Assim se explica que este 16º colóquio da lusofonia tenha chegado não numa caravela quinhentista mas nas asas do sonho a que chamamos Lusofonia. Os únicos corsários que encontramos por esses mares foram aqueles que ainda não reconheceram o valor dos colóquios, da necessidade da defesa intransigente da língua e da cultura de todos nós. Mas a nossa artilharia de mais de 200 milhões de lusofalantes, a Gramática de Evanildo Bechara, os Dicionários de Malaca Casteleiro e a obras da novel Academia Galega da Língua Portuguesa foram suficientes para evitarmos a abordagem. Os monstros adamastores, para os quais nos haviam alertado, soçobraram com as primazias do novo Acordo Ortográfico de 1990 e foram juntar-se em triste carpideira aos Velhos do Restelo. Que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passamos ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificamos o Novo Reino da Lusofonia, que tanto sublimámos.

A nossa Lusofonia será sempre um diálogo na secular língua. Inclui os países de língua oficial, as Regiões em que é utilizada como língua materna ou de património e inclui todos os que a trabalham como sua. Esta Lusofonia pluricontinental, teve as suas raízes no séc. XVI, quando era “língua franca” e meio universal de comunicação entre os povos.

O poeta devaneia, deus concilia e o homem cumpre, esta a definição da génese do 16º colóquio da lusofonia. Bem-haja o Município de Vila do Porto por reconhecer a capacidade de realização dos Colóquios que por obras valorosas se vão da lei da morte libertando.

Isto de Lusofonias e Lusotopias tem muito que se lhe diga. Falta muitas vezes a visão, o amor e a dedicação que só alguns conseguem ter pela língua e cultura. Frequentemente, os Governos e os governantes estão de candeias às avessas para a defesa desses valores tal como a ilha de S. Miguel está de costas voltadas para o mar. Mas aqui, a Ilha-Mãe abre-se ao mar. As inquietas ondas apartando, os ventos brandamente respiravam, das naus as velas côncavas inchando; da branca escuma os mares se mostravam e a bandeira da nossa Lusofonia se enfunando.

Em 2001, os Colóquios dispuseram-se a criar uma Cidadania da Língua idealizada por José Augusto Seabra, nosso primeiro patrono, e arribaram aos Açores em 2006 para debater a sua escrita, lendas e tradições. Como escritores convidados tivemos Dias de Melo 2008, Cristóvão de Aguiar 2009, Vasco Pereira da Costa 2010, Eduardo Bettencourt Pinto 2011 e agora Daniel de Sá. Em 2010, sulcamos o Grande Mar Oceano para ir a Florianópolis no Brasil e em 2011, rumámos a Macau onde se fala mais Português do que quando lá vivi há trinta anos. Ao contrário de Vasco da Gama, as nossas naus não buscam as Índias, antes se deslumbram espalhando as palavras dos mestres Malaca e Bechara que nos acompanham desde 2007.

Na nossa porfia por repor os escritores portugueses, de matriz açoriana, no panteão que merecem, as colegas Helena Chrystello e Rosário Girão elaboraram a primeira Antologia de Escritores Açorianos Contemporâneos cuja edição bilingue será de seguida aqui apresentada. Orientaremos as edições futuras dos colóquios, para que tais autores sejam traduzidos em Francês, Italiano, Polaco, Romeno, Russo, Búlgaro, Esloveno e posteriormente editados naquelas línguas com apoio do Instituto Camões. Já são estudados em universidades brasileiras, romenas e polacas, e chegaram a novos destinatários no curso de Açorianidades e Insularidades da Universidade do Minho, da colega Rosário Girão, que queremos ministrar futuramente em plataforma e-learning. Há menos de dois anos lançámos em linha os Cadernos de Estudos Açorianos, cuja 12ª edição hoje publicada é dedicada a Eduíno de Jesus. Os Cadernos servem para dar a conhecer excertos de obras dos escritores destas ilhas onde há mais vacas que gente. O clima, a vegetação, os vulcões e terramotos criaram um número desmedido de escritores.

Nos últimos anos, assinámos parcerias com Universidades, Politécnicos e Academias para, com a sua validação científica, completar projetos e em janeiro último passamos a associação cultural e científica sem fins lucrativos. Os nossos oradores permutam ideias, metodologias, vivências, dentro e fora das sessões, repartem passeios e refeições e despedem-se, no último dia, como se de amigos se tratasse. Somos capazes de atingir o que a burocracia não pode ou não quer irmanados no ideal de "sociedade civil" capaz e atuante. É o que nos torna distintos doutros congressos. Teremos além das palestras mais científicas, sessões de música, teatro e poesia. Os temas escolhidos retratam os Colóquios, como construtores de pontes entre Lusofonias, do Brasil ao Canadá, Australásia, Açores, África, Europa e China. Todos aqui presentes nos próximos dias ajudarão a prestar a justa homenagem a DANIEL AUGUSTO RAPOSO DE SÁ, o nosso escritor convidado e o escritor micaelense mais mariense.

Parafraseando mais uma vez o grande vate Luís Vaz de Camões termino dizendo

Tão brandamente os ventos os levavam,

Como quem o céu tinha por amigo:

Sereno o ar, e os tempos se mostravam

Sem nuvens, sem receio de perigo.”

E como todos sabemos: Os poetas têm sempre razão! É esse amor e o espírito de poeta que me trouxe a mim, e aos nossos convidados até esta Ilha-Mãe. Bem-haja o Município de Vila do Porto por ter apoiado este sonho.

As ameaças de chuva eram enormes em todos os boletins meteorológicos em várias línguas, bem como a incerteza sobre a presença do autor homenageado a cujo título se fora buscar o mote deste colóquio. Connosco, num avião quase vazio, viajava o autor Caetano Valadão Serpa dos EUA que vinha assistir ao lançamento da Antologia bilingue de autores açorianos contemporâneos que a Helena Chrystello e a Rosário Girão organizaram em versão mais curta do que a monolingue em que trabalharam nos últimos dois anos. Viajava também o diretor da cultura que pessoalmente só conheceríamos no dia seguinte. No aeroporto à chegada estava a Ana Loura que seria uma das fotógrafas de serviço aos colóquios sempre pronta a disparar e que conheceríamos pessoalmente depois de anos de contactos virtuais. Como diria o António Pacheco no final dos colóquios estes viriam deixar marcas na ilha que dificilmente se esqueceriam e também isso aconteceria coma Ana Loura e os nossos congressistas.

Ao jantar éramos cerca de uma trintena de pessoas cujos laços de amizade se solidificam de ano para ano como se uma família unida se tratasse agora que a família nuclear se encontra desagregada e em vias de extinção. Reencontro agradável com outros autores homenageados como Vasco Pereira da Costa e Eduardo Bettencourt Pinto, o regresso da amiga Zélia Borges e Cícero depois de longa ausência por motivos de saúde, algumas caras novas. Após o jantar visitaram-se as instalações da nova biblioteca municipal onde iriam decorrer os trabalhos. Seria fastidioso narrar o que se passou nos dias seguintes por entre emoções fortes (o Daniel de Sá chegaria na noite de dia 1 e regressaria dia 3), e momentos de beleza indescritível acompanhados pelo José Nuno da Câmara Pereira, artista plástico local (irmão da poeta Madalena Férin) que nos acompanharia ao longo da semana e deixaria recordações marcantes em todos os presentes.

Na primeira manhã de trabalhos tivemos 3 turmas da escola secundária local acompanhadas de vários professores, com jovens atentos, silenciosos e inquisidores no final da sessão com os mestres do Acordo Ortográfico e com os escritores presentes.

Depois do almoço as sessões formais com o presidente do município, diretor da cultura e a apresentação da antologia nascida no seio destes colóquios, com a presença da diretora regional das comunidades que a viabilizou. Resta esperar que seja adotada além-mar…houve tempo para um curto documentário sobre a ilha, e depois a chuva miudinha veio impedir a sessão de poesia com vista para o mar ao ar livre. Acabar-se-ia o dia com um passeio pelo porto, narrando aspetos geológicos da ilha com a Joana Pombo e comigo a dar uma breve explicação do porto de mar, da estrada da Birmânia, do bairro do aeroporto e outras coisas fundamentais para explicar esta vila que se por um lado parece ter parado há séculos, por outro consegue ter também a sua peculiar magia intimista que atrai as pessoas e as enleia com paisagens surpreendentes. Nessa noite começariam as celebrações de aniversários que se haviam de repetir quase todas as noites no átrio do Hotel Santa Maria. Depois, nos dias seguintes além das sessões teóricas seguiram-se passeios de descoberta das facetas distintas da ilha, desde a visita aos Picos e aos Anjos, até à descoberta maravilhosa do Barreiro da Faneca que tanta gente emocionou e marcou os presentes habituados a marcas telúricas em São Miguel e descobrindo aqui a idade destas duas metades da ilha uma com 5 milhões de anos e a outra entre 8 a 10 milhões…houve tempo suficiente para percorrermos outros recantos como o Poço da pedreira em que a natureza reconquista lentamente o local donde se retirava pedra ara a construção das casas da ilha, antes de as pessoas ficarem enlevadas pela beleza da baía na cratera vulcânica de São Lourenço, o imponente farol da Maia e a Maia de encantos mil até ao lugar de Aveiro na foz da Ribeira Grande onde os vinhedos ainda permitiram que se provassem algumas uvas que sobraram da recente colheita. Santo Espírito acabou por ser a sede dos colóquios em dois almoços consecutivos permitindo um contacto bem direto com as populações locais, trabalhadoras, humildes, sinceras e hospitaleiras mas bem orgulhosas do seu património imaterial como nos foi dado a ver nas Sopas de Império e nos foliões. Há muito que os nossos conferencistas haviam esquecido os luxos orientais de Macau e se mostravam rendidos a esta ilha que primeiro se mostra agreste, árida e plana e depois se desdobra em mil e um cantos de encantos mil.

Há emoções que não se descrevem e isso pode ver-se nos rostos, na alegria, nos sorrisos dos participantes neste colóquio ao longo de uma semana que acabou depressa demais, pois se há momentos e épocas que se devem guardar esta era uma delas. Normalmente não sou parco com palavras mas já disse tudo o que sentia sobre Santa Maria, ilha-mãe nos poemas que sobre ela escrevi e quis dar a conhecer a todos antes de conhecerem a ilha e a sua história pelo que se me torna difícil falar aqui do calor humano e da emoção da Joana Pombo tão orgulhosa da herança do seu avô Dalberto, da alegria que o João Santos sentiu por ter tão ilustres visitantes no seu calmo Museu etnográfico de Santa Maria onde pudemos apreciar uma exposição de gravuras de Siza Vieira, o mais celebrado arquiteto português. Como explicar a emoção dos jovens que nos ouviram logo na sessão inaugural e dos outros que foram tocar para nós música contemporânea, arranjos de canções de intervenção dos anos 70 e música local transitando do cancioneiro para o rock? Como não dizer que havia pessoas com lágrimas nos olhos extasiadas com a magia do piano da Ana Paula Andrade, a elevada voz soprano da diminutiva Raquel Machado e com a maestria do jovem Henrique Constância de apenas 14 anos dominando o violoncelo como só os mestres sabem? E como ele brilhou nos improvisos no hotel, na sessão de aniversário do dia 2…acompanhando poesia e fazendo solos para dançar…a homenagem a Daniel de Sá nesse dia teve momentos de encontros antigos em percursos de mais de sessenta anos, trazendo mais gente aos colóquios e ligando-os mais às gentes da terra que este povo há muito merecia um colóquio da lusofonia (e mais se seguirão se a tanto ajudar o engenho e arte).

Daniel comoveu-se e comoveu outras pessoas como foi o caso da coautora da antologia ao ofertar-lhe um livro raro de tamanho monstruoso reproduzindo textos seculares. Foi também o caso do seu antigo professor e sua família. E houve momentos de sã loucura contagiante pela artista Margarida Madruga e pela florentina Gabriela Silva que sonhava, todos os dias em voz alta, que iria levar os colóquios a uma das mais pequenas e esquecidas ilhas do arquipélago. Depois também a elétrica Dina Ferreira sonhava em publicar estes autores no Brasil e a estreante Zilda Zapparoli (COM UM L APENAS! DESTA VEZ ACERTEI) que há anos fora convidada pela Zélia e Cícero para vir aos colóquios lamentava não ter vindo aos anteriores…o Luciano Pereira prestes a ser bi-pai (ele que faz parte de um dos dois casais da Lusofonia, e já com um filho carinhosamente chamado “Santiago Lusofonia” andava extático por entre poesias várias enquanto se interrogava sobre a coincidência do seu novo filho se vir a chamar Gonçalo…uma repetição de percursos dos colóquios e das sua cilhas).

Todos achavam o Vasco (Pereira da Costa) mais suave do que em aparições anteriores em que amedrontava as pessoas que não conheciam os seus histrionismos próprios de artista da palavra e o Eduardo encantava todos os que dele se abeiravam com a sua suavidade africana, açoriana e canadiana, a paz em versão zen da poesia entrecortada pelas milhentas fotografias que nunca deixava de captar uma imagem mesmo que mais ninguém a visse. E as “mininas” da Guarda que são quatro mas se deslocam normalmente em grupos variáveis de 3 desta vez trouxeram um menino de nome Formoso que rapidamente se integrou no ambiente dos colóquios. Malaca e Bechara acompanhados das suas mulheres foram deliciosos na sua gentileza, amizade, humor e acessibilidade apadrinhando a entrada de novo patrono dos colóquios, a Concha em representação da Academia Galega.

Depois houve o infindável trabalho de bastidores, entrevistas, gestão de egos e distribuição equitativa de atenção a todos os participantes com o jovem técnico informático (João Chrystello) a fazer alguns dos seus conhecidos milagres tecnológicos encantando os presentes e comportando-se com gostaríamos ao longo do ano…dentre os jovens a simpatia da Catarina Madruga e a Fátima, sua médica mãe foram duas novas aquisições de muito valor que marcaram pela sua aparente invisibilidade mas estavam sempre presentes em todos os momentos deixado amizades espalhadas pelo mundo ali representado.

Neste colóquio houve os momentos sérios, os comoventes, os científicos, os alegres, os despreocupados e muito convívio como não acontecera antes, pois teve-se o cuidado de deixar tempo entre sessões e refeições para as pessoas conversarem e fazerem projetos futuros.

A Ana Loura trabalhava quase 48 horas em cada 24 para poder acompanhar-nos o mais que podia e nunca se cansou de nos fotografar, acompanhada do João Santos e da Joana Pombo que à noite não resistia ao nosso convívio. O Daniel Gonçalves que adoeceu e não fez a sessão de poesia acabaria por trazer os jovens ao nosso convívio e acompanhou-nos nalguns passeios e sessões graças ao apoio que a Escola Secundária acabaria por dar ao colóquio e que permitiu a meia dúzia de professoras assistirem aos colóquios em mais momentos do que se esperava. Os trabalhos da Ilyana Chalakova, Elisa Branquinho, Anabela Sardo e Zaida Pinto emocionaram o nosso poeta Vasco numa curta homenagem à sua obra. a Anabela Mimoso homenageou Rodrigo Leal de Carvalho e Eduardo Bettencourt, dois nomes de duas diásporas. A Dina fez uma homenagem bem sentida ao nosso mestre Bechara, o Francisco Madruga alertou para a necessidade de repensar o futuro dos colóquios face aos cortes nos apoios de deslocações dos nossos conferencistas portugueses e o Luciano levou-nos ao imagético fabulário das Sete Cidades em São Miguel. Raul Gaião o homem que percorre os açorianos pelo mundo homenageou Dom Arquimínio da Costa, um picaroto, Rolf Kemmler falou de um autodidata da Ribeira Grande que traduziu Beauzée, Rui Formoso expressou o domínio da escrita sobre o oral, a Zélia Borges conseguiu apresentar um interessante trabalho terminológico começando por falar no fim dos carros de bois. Luís Gaivão contou a interessante história do avô de Mouzinho de Albuquerque e a sua ação nos Açores. Fernanda Santos falou da educação no tempo dos Jesuítas, a Concha contou e encantou a saga da língua portuguesa na Galiza enquanto o Vasco fez a génese de dois poemas seus alusivos a Santa Maria.

Mas se isto aconteceu nas sessões, fora delas aconteceu poesia e prosa jorrando em pequenos blocos de notas, novos projetos nasceram, outros solidificaram e ficou no ar a promessa de regressar para mais dois colóquios sendo o próximo já em 2013 pois em 2012 iremos à Lagoa e à Galiza…por mim, eu teria já ficado na ilha a preparar o próximo colóquio e como aqueles que nos acompanharam (na última manhã após o fim dos trabalhos) em busca de fósseis na zona dos Cabrestantes creio ser justo dizer que a hospitalidade da ilha nos cativou ao ponto de querermos todos ficar e partilhar esta paz e humildade (que nem o louco tresloucado acusado de violência doméstica que começou a disparar contra os polícias ao embarcarmos e depois se suicidou, conseguiriam abalar). Mas exigimos ter connosco a calma Zen do Eduardo para nos guiar e a Zaida a fazer tai chi.

Obrigado marienses por nos deixarem ficar uma semana inesquecível na vossa ilha que queremos adotar como nossa. No fim deste colóquio sinto que valeu a pena o esforço e trabalho e recarreguei baterias para novas aventuras lusófonas. Deixo, a terminar, poemas sobre Santa Maria em tributo a esta ilha-mãe tão injustamente esquecida no arquipélago bem como outros dedicados ao Daniel, Vasco e Eduardo…

 

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