Línguas rendíveis

«Os idiomas som meios de transmissom de informaçom. Velaí logo o comércio como grande impulsor da aprendizagem de falas alheias, primeiro estádio de aproximaçom entre povos»

Terça, 22 Novembro 2011 00:00

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O engenheiro e escritor Xavier Alcalá foi o primeiro presidente da Associaçom Galega da Língua

Xavier Alcalá - O professor Manuel Rodrigues Lapa, ilustre colaborador de La Voz de Galicia, considerava-se “o mais galego de todos os portugueses”. Com esse espírito, em 1978 escrevia que “a Galiza tem a sorte, única na Península Ibérica, de ter uma língua identificada com a de um estado soberano como é Portugal, coisa que não se dá nem com o catalão nem com o basco”.

Daquela, Galiza começava a deixar de ser “el Noroeste”, o Brasil era “o país do futuro” e as ex-colónias portuguesas viviam abocadas à guerra. Faltavam oito anos para os estados ibéricos entrarem na Comunidade Europeia. Só gente com muita visom era capaz de imaginar o que viria ser a Eurorregiom Galiza-Norte de Portugal...

Tradicionalmente as línguas fôrom consideradas património discursivo de linguistas e políticos. Mas os economistas entremetêrom-se nesse eido e logo desenhavam valoraçons objetivas, medíveis em dinheiro, dos fenómenos linguísticos.

Os idiomas som meios de transmissom de informaçom. Velaí logo o comércio como grande impulsor da aprendizagem de falas alheias, primeiro estádio de aproximaçom entre povos. Conhecidos som os casos do suaíli na atualidade e do português nos séculos de expansom europeia polo Oriente. As línguas adotadas para a comunicaçom comercial passárom a ser mesmo as de expansom das religions (sam Francisco Xavier predicava em português no Japom).

As falas, convertidas em idiomas formais, estritamente codificados, passam a ser instrumentos de uso múltiplo: económico, político, científico... Tenhem umha componente fria, a de transferência de dados ordenados, e outra emocional: condicionam pensamento e sentimento. Nom se deve esquecer que nos negócios também se sente.

O ferrolano Xosé María Sáinz Penas, intérprete em Bruxelas (de quatro idiomas latinos, quatro germânicos e um eslavo), di que a língua franca do mundo hoje é o “Globish”, inglês simplificado que mesmo entendem os ingleses; e que a Comissom Europeia usa o “Eurenglish”, um “Globish” expandido, que inclui matizes.

Cumpre reconhecer-lhe ao inglês a sua importância global (forcada polo império norte-americano e a Commonwealth britânica), mas existem outros idiomas de grande valor racional e emocional nos negócios. Hoje já nom se usam as velhas tabelas para valorar idiomas: o número de falantes e a suma de produtos internos brutos das suas comunidades. Tem-se em conta também a emocionalidade...

Trinta e três anos depois da frase famosa de Rodrigues Lapa, os estados ibéricos formam parte da Uniom Europeia, Galiza é umha comunidade autónoma espanhola fundida com o Norte de Portugal numha eurorregiom, Brasil é um dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) emergentes, o PIB de Angola medra de jeito espetacular e Moçambique é um país em paz e com futuro.

Os cálculos da “language usefulness” situam o português por diante do castelám, o italiano e o russo, alcançando o francês e ficando só por trás do alemám, o japonês, o mandarim e o insuperável inglês (língua franca da Índia e da África do Sul).

A importância do português como língua de negócios supera com muito os interesses de relaçom transminhota, a irmandade natural da Portugaliza dos poetas. Daí a rendibilidade económica do galego em termos da sua pertença ao bloco galaico-luso-africano-brasileiro.

Por um momento, linguistas e políticos deveriam escuitar vozes coma as do economista Henrique Sáez Ponte: o galego, além de criaçom indiscutível do povo da Galiza, é um instrumento de aproximaçom a um mundo em explosom económica. Conhecido o galego, o esforço para dominar o português formal é mínimo.

A língua galega é de alta utilidade económica, e mui rendível. Bem conhecida, facilita o acesso à oficial do Brasil, Angola, Portugal e meia dúzia mais de países africanos. Desse ponto de vista, o ensino do português deveria-se introduzir no sistema escolar galego como, por razons económicas, ocorre no da Estremadura.

Polo momento, em Bruxelas deteta-se um fenómeno interessante: os moços galegos que optam a umha carreira na capital da Uniom, assistem aos cursos oficiais de português, entram nos grupos de alunos mais avançados e aginha saem com umha habilitaçom importante no seu curriculum.

Por muita simpatia que lhe tenham a Portugal, nom pensam no país vizinho à hora da escolha. Move-os a rendibilidade mencionada: doadamente acadam diploma dum mais “dos vinte e três oficiais” (com o mesmo valor que o húngaro “impossível”) e preparam-se para penetrarem polos corredores administrativos de Brasília ou de Luanda, cada dia mais conectados com os de capital da Uniom Europeia.

 

(*) Versão em galego-português para o PGL. Original em ILG-RAG publicado no suplemento INNOVA de La Voz de Galicia (1 de maio de 2011).