Madeira de Mulher

Texto lido por Gonçalves Maia na apresentação no Porto de Madeira de Mulher, livro de Adela Figueroa ilustrado por Celsa Sánchez

Quarta, 23 Novembro 2011 09:21

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Raquel Gonçalves Maia (*) - Madeira de Mulher não é um livro de contos; é, sim, um livro de histórias. Histórias que nos tocam de muito perto, por vezes de uma realidade assustadora, que tanto se podem desenrolar na Galiza como no Minho, em qualquer outra parte do mundo ou no interior de uma outra qualquer civilização.

É a própria escritora que assim o afirma por metáfora simbólica. Escreve que o seu Lourenço bem se podia chamar Maximino ou Demétrio e que a sua Milagros podia ser Rosário ou Hermínia.
Este livro de histórias tem, pois, uma dimensão universal. Desde logo, um bom motivo para em volta dele nos reunirmos.

Mas comecemos pelo princípio. Não há livro sem autor, ou autores, nem sem título. E, por vezes, uma oportunidade, uma faísca, faz prodígios de criação.

Como as badanas do livro o indicam há uma autora para o texto – Adela Figueroa – e uma autora para as ilustrações – Maria Celsa Sánchez. A correspondência é biunívoca e o todo fica bem maior do que as duas partes em somatório. Ganhamos todos.

Adela Figueroa escreve, tem vários livros publicados e, creio poder dizê-lo sem sombra de dúvida, que é uma activista pelos direitos humanos, pelos direitos das mulheres e pelo desenvolvimento ecológico sustentável. É bióloga de formação, com diplomas de licenciatura e de mestrado, e professora do ensino secundário. A Associação para a Defesa Ecológica da Galiza tem nela uma porta-voz na protecção do ambiente e os seus artigos de opinião no Portal Galego da Língua ou no Mundo Galiza são atentamente escutados.

Maria Celsa Sánchez é também bióloga de formação, lecciona na Escola de Enfermagem da Universidade de Vigo em Pontevedra e, como as Ciências nunca se opuseram às Artes, cultiva uma profunda paixão: a Pintura. Neste domínio tem exposto com regularidade. Salientamos a exposição com o título “Destemidas”, que teve lugar na Galeria de Arte Imagem em 2010, e “Encuentros en el Camino”, que ocorreu no Mosteiro de Samos em 2011.

Para Maria Celsa Sánchez, a Arte é o caminho que lhe permite transmitir os valores da solidariedade, do respeito e da justiça social.

Segue-se o título. O título é magnífico. Interprete-se como se quiser e estará sempre correctamente enquadrado no conteúdo da obra.

Tal como as autoras, também eu tenho o meu lado de cientista. Tudo o que existe no Universo é constituído a partir de um alfabeto elementar – o alfabeto dos químicos, a Tabela Periódica. Isto significa muito simplesmente que uma mulher (tal como um homem) e uma árvore e uma rocha para formarem os seus compostos constituintes têm pouco mais do que uma centena de elementos que se podem combinar entre si. O que somos e tudo o que nos rodeia são combinações de carbono, oxigénio, hidrogénio, azoto, etc.

Assim sendo, compete-nos ter igual respeito quer pelo nosso mais semelhante, quer pelo nosso mais dissemelhante; madeira ou mulher...

Mas o sentido do título vai muito mais além do que o sentido material; acolhe também o imaterial. A multiplicidade de braços que a mulher ganha ao longo da vida aproxima-a das árvores; elas são suas irmãs.

A madeira molda-se, sustenta, é fonte de energia – tal como as mulheres.

A madeira tem medula, cerne, ... alguns nós, signos de vida; tem cor, água e estrutura. É a matéria prima para produtos fundamentais – tal como as mulheres.

A sua destruição ameaça a biodiversidade do planeta... Não esqueçam!

Em relação à oportunidade da criação de que falei à pouco, acrescento que 2011 é o Ano Internacional das Florestas e, como tal, trazer este livro a público em 2011 tem um sentido ainda mais profundo: cada vez que há um incêndio  na floresta, não é apenas o passado que perdemos. É também o futuro.

Não lhes vou contar as histórias, devem lê-las; e, apesar da língua escrita ser o galego, passados alguns minutos de leitura sentimo-nos completamente integrados.

Mas isso não impede que revele alguns aspectos gerais e mesmo alguns particulares que me seduziram.

As histórias são histórias da vida contadas com tanto pormenor quanto sentimento. A escritora possui um profundo poder de análise psicológica – “mente analítica”, nas palavras da autora – e uma destreza de escrita compatível. Conforme lemos vamos imaginando as cenas com total clareza. Por vezes, sorrimos; a maior parte das vezes sentimos um arrepio...

A leitura é simples, mas os temas são pesados. Doem, mas é proibitivo ficar surdo.

Tudo o que dá vida a uma mulher, ao seu corpo e ao seu espírito, vem delineado com exactidão: sonhos, cheiros, sabores, desejos, frustrações, volúpias... travões da Natureza. Também não se encontra alheio um toque de magia, venha ele da terra, do uivo dos lobos, das pequenas deusas dos rios ou das algas despenteadas dos oceanos.

E, quantas vezes!, o silêncio presente que esconde a persistência e responde com folhas na Primavera.

Este livro é uma verdadeira caixinha de surpresas. Desde a procura das nossas origens, as nossas raízes, não dizemos assim?, e o encontro da árvore do paraíso – por vezes mesmo com uma cobra enrolada (melhor, o Cobra), das árvores protectoras pela sombra e pelo propósito, desde a costa-mar galega, aqui tão perto, até à remota Moçambique, tão nossa, dos presságios de Cuba na voz da noite, desde as emancipações actuais aos fatos de banho do padre Laburu – que as nossas mães terão inevitavelmente usado, desde os relatos de mulheres comprometidas com o seu tempo, tudo lá está, sabiamente descrito e analisado.

É um livro feminista? É.

Mas ao longo da sua leitura não encontraremos os “maus” de um lado e os “bons” do outro. Encontramos relações humanas, conflitos, muitos deles tradicionais e ainda bem presentes nos dias de hoje. Encontramos o repúdio pelas desigualdades de género que não fazem qualquer sentido, pelas chantagens emocionais que provocam dor – a dor do braço era o de menos... , escreve Adela Figueroa. A humilhação e os sentimentos de culpa... Estímulos para a raiva, a rebeldia, a indignação... a inevitável partida. É a Árvore da Vida com a sua parcela de imortalidade.

Escreve Adela Figueroa (pag. 174):

O circulo completa-se, como o fai a roda da vida:
mar e pedra,
erva e flor,
peixes, ramos e
“amorinas das silveiras qu eu lle daba ao meu amor...”,
Olá e adeus. Num imperdurábel chegar e partir.
A dura loita pola terra,
Como sempre: A Vida.

É na valorização dos sentimentos de liberdade e de libertação, na valorização do amor pelos seres – por todos os seres, pela terra e pela água onde as mulheres e as árvores se encontram na mesma substância, a seiva que ascende como orvalho celeste, ciosamente defendidas, que aqui nos devemos deter.

É nesta alquimia de excelência, onde não faltam as árvores com bocas e seios redondos, com folhas e frutos como asas temperadas pelas brisas, carvalhos celtas, nogueiras clarividentes, pinheiros verticais, castanheiros acautelados e tantas outras, primorosamente desenhadas por Maria Celsa Sánchez, que a nossa reflexão se assume e se prolonga para além da leitura...
E agradece às autoras a publicação deste livro.

Como nasceu a obra? Não sei. Mas espero bem que as autoras nos elucidem.

 

 


 

(*) Raquel Maria da Cruz Gonçalves Maia é doutorada em Química e Professora Catedrática da FCUL desde 1995, Departamento de Química e Bioquímica. Em paralelo com a sua actividade de investigação na área da Química, a Epistemologia, a História das Ciências e a Divulgação Científica têm suscitado o seu vivo interesse. Desde 1994, leccionou disciplinas de âmbito científico-cultural, de que se destacam Ética das Ciências e das Técnicas, História das Ideias em Química, História das Ciências e Ciência na História (Licenciaturas em Química, Ensino da Física e da Química - Variante Química e Bioquímica). De 2003-2006, leccionou, em colaboração, no curso de Mestrado/Especialização na Universidade do Minho Evolução e origem da vida, as disciplinas História das Ideias, Filosofia das Ciências e Temas Interdisciplinares. De 2004 a 2007, colaborou na leccionação de várias disciplinas do curso de Mestrado/Especialização Química aplicada ao património cultural (2004-2007). Desde 1999, é colaboradora permanente do JL. Jornal de Letras, Artes e Ideias, tendo tido a seu cargo a coluna Ciência e Sociedade. É colaboradora do CFCUL desde 2005.