A nossa língua vista por Isaac Díaz Pardo

Uma tentativa de estruturação das ideias que me parecem constituir a estrutura concetual da visão da língua da Galiza que tinha Isaac Díaz Pardo

Sexta, 06 Janeiro 2012 10:54

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José-Martinho Montero Santalha, presidente da Academia Galega da Língua Portuguesa | Foto: Versão Original

José-Martinho Montero Santalha (*) - Em vários dos seus artigos jornalísticos, Isaac Díaz Pardo fez sair à luz, insistentemente, embora fosse quase sempre de modo incidental, a ideia que ele tem da nossa língua.

Recolho aqui, à maneira de soma de citações, uma tentativa de estruturação das ideias que me parecem constituir a estrutura concetual da sua visão da língua da Galiza, indicando no fim de cada citação, entre parênteses, o número do artigo onde esse texto foi tomado.

Um não linguista que se preocupa da língua

Antes de mais, Díaz Pardo declara-se não especialista da língua, não linguista, não filólogo. Um dos seus artigos levava o significativo título «O problema da língua visto por um que não é filólogo» (La Voz de Galicia, 14-02-1993: artigo 4 dos incluídos no livro Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008).

Porém, faz essa declaração, por um lado, com respeitosa modéstia frente ao saber especializado, e, por outro, com plena consciência de que a preocupação pela língua constitui não só um direito cívico mas um dever de responsabilidade perante um bem fundamental da herança comum. Por isso dois artigos intitulavam-se respectivamente «A inércia dos especialistas» (La Voz de Galicia, 23-11-1999: artigo 9) e «Os especialistas» (La Voz de Galicia, 17-12-1999: Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 10).

“Não quisera desqualificar ninguém por sentir-me inconforme com o seu saber especializado. O meu inconformismo vai porque se creiam que não há mais na vida que os seus conhecimentos e se esqueçam da dinámica histórica e da função social que há de ter todo conhecimento”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 10).

Como resultado dessa responsabilidade de pessoa culta, interessada pelo futuro da língua do seu povo, surgem as suas críticas aos «especialistas de laboratório» e aos académicos, e às suas ideias e propostas sobre a nossa língua, especialmente no que diz respeito à unidade linguística galego-portuguesa:

“Não me vou meter em cousas que não entendo, mas não faz falta ser linguista para aperceber-se de que, se uma palavra serve para Portugal e para a Galiza, sem criar qualquer problema intelectivo, e tem tradição, política e economicamente é útil o respeitá-la”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 1).

“Nada estaria mais longe da minha intenção que desacreditar os académicos: isso seria injusto; só tentar rebaixar-lhes um pouco essa fachenda de ser académicos, e pedir-lhes que aceitem o diálogo cordial e a total liberdade para considerar o problema da língua, sem desacreditar pejorativamente de «portuguesismo» a quem não fica de acordo com a normativa actual”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 9).

“Alguns especialistas da língua defendem-se para que Galiza não se acerque à língua de Portugal. Quase não tenho nada contra os seus saberes especializados, mas, sem se decatarem, arrastam um ódio de séculos engendrado na meseta contra Portugal, a região maior e mais importante da Hispánia, que não quis arredar-se do concerto hispano, mas se negou em várias guerras e circunstâncias a ser assimilada por Castela, que o intentou com as armas”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 10).

Também faz ressaltar as consequências que a atitude e as medidas adotadas por alguns desses responsáveis têm na situação dramática em que a nossa língua se encontra hoje pela falta de transmissão às novas gerações:

“Depois, alguns laiam-se de que todo o seu saber (importante saber que ninguém pode negar) não conseguisse que as cousas fossem pelo caminho que pretendiam. Um importante linguista que vem trabalhando arreu pelo estudo das línguas em geral e da língua galega em particular acaba de dizer que, apesar do prestígio social que adquiriu, a língua galega não goza de boa saúde porque está a perder falantes nas gerações mais novas”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 11).

A língua como núcleo da identidade cultural galega

Tratando da recuperação da consciência da nossa identidade colectiva por parte dos ideólogos do galeguismo nos séculos XIX e XX, Díaz Pardo adverte como uma parte dessa consciência consistia em colocar a língua como parte fundamental do nosso ser comunitário:

“Na afirmação risquiana fala-se de «nós os inadaptados» como uma confissão de que não suportamos as condições que nos impuseram uns interesses alheios ao noso ser nacional, é dizer: à nossa cultura, nossa língua, nossas tradições, ao nosso ser doce e maciço como a nossa alma românica” [...]. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 12).

“A recuperação da cultura galega, em que vai a nossa língua, fizeram-na homens de «Nós» e do «Seminário de Estudos Galegos», preocupados, além de pela língua, pela nossa história e pelo futuro da Galiza”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 4).

A unidade linguística galego-portuguesa

Na defesa da unidade linguística galego-portuguesa, Díaz Pardo não esquece lembrar o exemplo dos mestres do galeguismo:

“Quem luitaram pela reivindicação da língua galega, que padeceram a história (quando não pagaram com a sua vida a pretensão de tal «ousadia»), eram contestes em acercar a língua galega à sua irmã, ou filha, a portuguesa, sem beatices que violentassem a realidade existente bloqueando a comunicação, mas tratando de descastelhanizar o galego como Pompeu Fabra fizera com o catalão no seio do «Institut». Acho que isto era cordo, era político, e tinha certo carácter científico”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 3).

“Os homens que sonharam e reivindicaram a personalidade histórica da Galiza, e por tal padeceram a história, procuravam, sem beatarias, descastelhanizar o galego e aproximá-lo da sua origem, na qual ele possa encontrar-se com o seu irmão o português”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 1).

A normativa linguística galega

Como parte da política linguística realizada pelas instituições que agora gozam de poder nesse campo (isto é, a Real Academia Galega e o Instituto da Língua Galega), Díaz Pardo faz notar o desacordo que ao respeito existe em significativos sectores da cultura e da sociedade galegas:

“Há unanimidade em considerar que não há unanimidade enquanto ao tratamento que se dá hoje oficialmente ao tema da língua na Galiza”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 3).

São claras e reiteradas as suas críticas à Real Academia Galega, que acusa de falta de perspectiva histórica e de sentido político da língua:

“A Academia Galega (que, num princípio, com o espírito que a criou, ia ser menos especializada do que se veu convertendo –irrespetuosa, até este ano, com o seu primeiro presidente–) é um «Instituto» em que se integram os meus melhores e leais amigos, e eu tenho um grande respeito pelos saberes de cada um. Mais isso de que são intocáveis únicos no saber da língua, e portanto podem ditar, como um poder hierárquico que nos recorda tempos passados, disso nada. Quem legitima a Academia para se considerar intocável?” (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 9).

“Isto não o digo para negar a utilidade de uma instituição normalizadora da língua, mas para assinalar que, com todo o saber que se encerra na instituição que temos (e isto é inegável), por falta de sentido político, junto com a deformação profissional (da qual ninguém nos livramos), não cumpre, acho, os propósitos normalizadores” [...]. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 3).

Acusa-a de castelhanismo nas suas opções linguísticas, até o ponto de chamá-la, humoristicamente, “Real Academia do Castrapo”:

[...] “ aparcadoiro (como dizem alguns protegidos pela Real Academia do Castrapo)” [...]. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 12).

Não são menos insistentes nem menos graves as acusações ao ILGA (Instituto da Língua Galega).

“Reconheceu-se um «Instituto» para ditar uma normativa, e os seus componentes deram a impressão de estar felizes com a titularidade atingida e puseram-se a normativizar tudo o que encontraram por diante, sem mais norma –dizem alguns– que a que nasce na sua mesa de lucubrações”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 3).

Em primeiro lugar, acusa-o de criar uma dissensão, antes inexistente, a respeito da língua:

“Galiza não tinha nenhum problema deste tipo antes de ter uma instituição linguística”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 3).

“Quanto à língua, então não havia problemas. As divisões criaram-se a partir do momento em que se fez possível converter a utopia em realidade, quando uma instituição se apropriou da ideia da língua, indubitavelmente com grandes conhecimentos técnicos mas sem sentido histórico e político, desconhecendo, consciente ou inconscientemente, a função social, económica e política que tem que cumprir também a língua, já que todo o que não tem essa orientação fica em vácua arqueologia, válida só para guardar nos armários. Assim se dizia que determinados filólogos, entregados sobre uma mesa, febrilmente, à normativização da língua, produziam uma dúzia de ultralusistas cada vez que abriam a boca”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 4).

“À base de deformações profissionais não deveríamos estar a criar «cristos» linguísticos entre as beatarias de uns e de outros, mostrando uma discórdia que não tínhamos antes de haver instituições da língua”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 1).

E critica o seu pseudo-populismo linguístico, que assume por vezes formas demagógicas:

“O que está mais generalizado entre os normativizadores é essa espécie demagógica de se querer justificar na fala do povo. Que aconteceria se o «Instituto da Língua Espanhola» tomasse isso a sério e metesse nos dicionários a fala dos andaluzes?” (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 4).

[..] “se se trata de deixar as cousas como estavam, sem nenhum rigor histórico, político nem científico, para quê se queria um «Instituto da Língua»? Nesse caso seria melhor que o povo siga dizendo ayer em lugar de onte, e abuela em lugar de avoa, e carretera, e calle e ventana e niebla em lugar de estrada, rua, fiestra ou janela, brêtema ou névoa, porque já não estão no povo, e assim talvez não teríamos que suportar na TVG essas expressões pandorcas de suplantar perto por preto; até por ata... (“ata mañá”)”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 3)

“Do ponto de vista político aquela batalha austral está totalmente superada, e, se alguma inconformidade seguimos sustendo, não é com os governos mas com os institutos técnicos que mantêm determinados critérios”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 14).

O futuro da língua

Díaz Pardo é bem consciente de que, fora da atmosfera vital da lusofonia, a nossa língua não poderá sobreviver, num mundo das características do nosso:

“Se não nos aproximarmos a Portugal em todos os campos da comunicação, da indústria e do comércio, no século XXI, no qual entraremos o 1 de janeiro do ano 2001 (e não, como se está a programar, para o 1 de janeiro do ano 2000), no século XXI, digo, o galego ficará como uma língua litúrgica, que só se falará nos laboratórios de filologia universitária”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 8).

[...] “a diferença da fala da Galiza e de Portugal é só uma questão política arrolada num leito conjugal: a aproximação do galego à área a que pertence, como propunha Castelao, sem beatarias, ajudaria a multiplicar por cem a área de expansão que precisamos, não só a cultural, mas também a comercial, que é, igualmente, cultura”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 4).

“A instituição que controle o da língua não pode ser um obstáculo na reconstrução duma fala deturpada pelo tempo, conservada por um povo por tradição oral e sustida pelas virtudes duma cultura popular assombrosa”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 4).

“Falava há poucos dias o empresário e economista Enrique Sáez que a grande obra da Galiza era o ser mãe dum idioma que hoje falam 200 milhões de almas, campo a que teremos que nos achegarmos para não desaparecer como galegos. Os que produzem livros sabem que aqui somos poucos e quase não lemos. E assim não vamos a nenhures. Isto recorda-me a Valentim Paz Andrade, que vivia também a intempérie da protecção pública, quem pensava e trabalhava dum jeito parecido”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 8).

Vemos, pois, que Isaac Díaz Pardo possui uma clara conceção da unidade linguística galego-portuguesa. Nela devem incluir-se as suas repetidas críticas à atitude isolacionista e culturalmente suicida da Real Academia Galega e do Instituto da Língua Galega: a língua da Galiza, deformada pela secular pressão do castelhano cada vez mais marcada, sem a unidade vital com o restante âmbito lusófono irá ficando sem a seiva que pode mantê-la em vida e revitalizá-la: continuará o seu já longo processo de esmorecimento, com progressiva perda de falantes, até à desaparição:

“Desgraçadamente, com a colonização que padecemos, o galego seguirá desaparecendo como língua coloquial –não como liturgia–, e os académicos e semelhantes seguirão olhando as suas medalhas e o seu embigo”. (Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008, artigo 10).

“O achegar-se a Portugal é o único que pode salvar o galego duma morte segura. Ou os que se laiam de que o galego morre têm outra fórmula para o defender? E com Portugal iríamos entrando num mundo de mais de cem milhões de galego-luso falantes”. (La Voz de Galicia, segunda-feira 14 de janeiro de 2002, artigo não recolhido no livro Isaac Díaz Pardo e a língua, 2008; a ele fez-se alusão na revista Agália, núms. 69-70, 1º semestre de 2002, p. 272).

 

(*) «A nossa língua vista por Isaac Díaz Pardo», em: Isaac Alonso Estraviz (Coord.), Isaac Díaz Pardo e a língua: Homenagem da AGAL, Associaçom Galega da Língua (AGAL), Ourense 2008, 166 pp., pp. 59-69.

 

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