O galego e o português

Sexta, 06 Janeiro 2012 11:23

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Por Isaac Díaz Pardo (*) - Camilo Nogueira, que sabe da história da Galiza como o que mais sabe, falou no Parlamento Europeu em português, e a alguém nom lhe pareceu bem. Se tivesse falado em francês ou em inglês, se calhar, esse alguém nom se zangaria.

Camilo tem a opçom de utilizar algum dos idiomas dos estados da Uniom Europeia, entre os quais se encontram o castelhano e o português, e escolhe, por afinidade lógica, o português, que é filho do galego, enquanto que o castelhano é um irmão da nossa fala de nom confiar e que tem agentes inconscientes metidos nela.

O português é um idioma espanhol. Camões sentia-se orgulhoso de ser espanhol. Francisco Grandão pede a João IV que recuse a Filipe IV o título de Rei de Espanha porque já se desuniu Portugal, que é parte principal de Espanha. E Almeida Garret dirá: “Espanhois somos e de espanhois devemos prezarmo-nos, mas de castelhanos não”. E Castelão acrescentava: “Os galegos anelamos viver com Castela dentro dum mesmo Estado, mas, isso sim, reclamamos .../... uma máxima soberania”.

Esse receio que há entre galego e castelhano dasapareceria no momento em que o nacionalismo mesetário, que resultou ser o mais intransigente, reconhecesse que a Espanha é um Estado plurinacional.

É certo que o galego leva nove séculos (926 anos) sem amparo legal, perdido com o último rei que teve a Galiza, tempo em que o castelhano malhou todo o que pôde, face ao catalám, que perdeu o amparo legal há 285 anos, o que permitiu aos catalães uma restauraçom mais rápida e melhor.

Desde finais do século XIV o galego conhece-se como língua poética, mas no século XIII, ao mesmo tempo que o castelhano, passou a empregar-se como língua jurídica. A independência política da Galiza bracarense, por motivos familiares e certos privilégios e preeminências lidados nos campos de batalha, nom rompeu a unidade linguístico-cultural das duas Galizas, que perdurou inalterável até o século XVI, em que Portugal se consolidava como Estado na aventura transatlântica do seu império.

Se nom nos aproximarmos a Portugal em todos os campos da comunicaçom, da indústria e do comércio, no século XXI, no qual entraremos o 1 de Janeiro do ano 2001 (e nom, como se está a programar, para o 1 de Janeiro do ano 2000), no século XXI, digo, o galego ficará como uma língua litúrgica, que só se falará nos laboratórios de filologia universitária.

Há poucos dias dizia a uns cultos professores de Caldas da Rainha que tinham que aceitar que o português é galego, mas o galego nom é português, o que aceitarom como pessoas inteligentes e informadas, razom esta pola qual o Camilo Nogueira fala no Parlamento Europeu numa língua mais vinculada a nós que o castelhano.

A quem vive do erário público estas cousas nom o preocupam, e no melhor dos casos podem suspeitar que com a sua transigência nom estám a fazer bem, mas a correcçom deixam-na para manhã. Ainda há que estudar muita história.

Falava há poucos dias o empresário e economista Enrique Sáez que a grande obra da Galiza era o ser mãe dum idioma que hoje falam 200 milhões de almas, campo a que teremos que nos achegarmos para nom desaparecer como galegos. Os que produzem livros sabem que aqui somos poucos e quase nom lemos. E assim nom vamos a nenhures. Isto recorda-me a Valentim Paz Andrade, que vivia também a intempérie da protecçom pública, quem pensava e trabalhava dum jeito parecido.

 

(*) [Capítulo 8 do livro organizado por Isaac Alonso Estraviz (Coord.), Isaac Díaz Pardo e a língua: Homenagem da AGAL, Associaçom Galega da Língua (AGAL), Ourense 2008. Publicado antes em La Voz de Galicia de 3 de outubro de 1999 (com o título «Inconformismo no fim de século»)].

 

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