Nacionalismo galego e sociedade aberta

"Seguro que há também um lugar para nós no mundo se sabemos fazer as coisas com inteligência e tendo algo verdadeiramente nosso que oferecer ao acervo espiritual da Humanidade"

Quarta, 25 Janeiro 2012 00:00

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Xosé Carlos Morell - Nomeadamente desde o século XIX, o nacionalismo, enquanto uma ideologia que responde à necessidade que temos as pessoas de sentirmo-nos pertencentes a algo maior, tem que estar em contínua evolução para não ficar desconectado de uma sociedade sempre cambiante.

É quase um tópico o paradigma do nacionalismo basco, que soube mudar de uma ideologia etnicista e reacionária, e adaptar-se à sociedade industrial moderna. Mas o mais interessante é que capilarizou a sociedade até tal ponto que veio resultar um modelo de democracia real fronte à estrutura do Estado, conseguindo na descentralização autonómica de este um alto degrau de soberania e sustentabilidade cidadã com câmaras municipais abertas. De igual maneira o sistema arrecadador basco cara abaixo mediante deputações e câmaras, e cara arriba polo mais famoso cupo, ainda longe de ser perfeito, oferece um degrau de soberania e sustentabilidade económicas maior que qualquer nação sem estado da UE. Para quê seguir admirando o seu modelo de soberania e sustentabilidade educativa nunca discutida por ninguém

Por outro lado, o nacionalismo basco, nunca negou nem ocultou o facto de o país albergar distintos referentes de adscrição nacional. Esta divisão que chegou a adquirir traças dramáticas, conflitivas e mesmo criminais, nunca se pretendeu superar mediante o negacionismo ou descafeinamento da própria identidade. A outra cara da moeda é que também se reconheceu como integrante da nação basca, e portanto como sujeito e objeto de todos os direitos, não só um multiculturalismo altermundista superficial, mas ainda a existência de cidadãos bascos de adscrição nacional espanhola. Em consequência, a euskaldunização –de maneira paralela a Catalunha- tomou como base, não só o facto de serem os nacionais bascos conscientes maioria social e política mais sobre tudo a sustentabilidade da identidade nacional própria.

Na Galiza, a história recente do nacionalismo é bem distinta. O caminho polo que foram levados os nossos referentes identitários poderia dizer-se que foi à inversa. A língua foi definitivamente arrincada da sua raiz histórica e familiar, e misturada com aquela outra que (formando também parte em maior ou menor medida da identidade pessoal dos galegos) contava com todo o poder do Estado, cuja autonomia outorgada seria posta ao serviço da galeguização, sem muito entusiasmo -como é óbvio mentres foi um galeguismo conservador e populista quem ocupava o poder.

De esta maneira (pensaram os estrategas inspirados no piñeirismo no desenho intelectual da autonomia nos anos 80) o galeguismo chegaria à maioria social pola via cultural, e poderia desenvolver o seu projeto a imagem e semelhança de Euskadi ou Catalunha. Outra parte do nacionalismo seguiu intentando a via política, de inspiração social-democrata ou comunista, num processo de adaptação que o pudesse levar ao poder com a promessa de que então seria não só o piñeirismo teórico mas também a praxe nacionalista e progressista quem completaria o processo redentor. No ano 2005 todas as correntes do nacionalismo político e cultural progressista conseguiram o objectivo sonhado de aceder ao poder autonómico.

A derrota de 2009, e a chegada de um projeto político reacionário, foi explicada polos perdedores com base em muitas razões cojunturais adolescendo talvez do talento de entrever a realidade ou o poder para a transformar. Pola outra banda, sabemos que a vitória tem muitos pais... O caso é que nem a transformação radical e repentina do modelo económico e portanto das condições de vida, nem o fracasso social da galeguização tal e como se concebeu foram até o dia de hoje bem lidas por um nacionalismo político e cultural ainda ancorado em velhos esquemas e velhas respostas perante os novos modelos sociais que se estão a impor com a cumplicidade do Estado.

Galiza está a demandar uma proposta que assuma a sério e desde a sociedade civil a identidade nacional, mas sem a obsessão por ocupar quanto antes o poder do Estado Outorgado com a única ferramenta de um quadro legal teórico. Uma proposta que não faça da menorização uma escusa da falta de eficácia, imaginação ou qualificação dos representantes, em ordem a ser implementadas uma vez mais polo voluntarismo cidadão. Precisa uma proposta que assuma a multiculturalidade e a diversidade como um facto positivo e no que temos muito a oferecer não só como maioria mas também, dado o caso, como minoria. Que aproveite toda a força do património histórico de uma Galiza por caso soterrada na Catedral de Santiago e rotulada como “Reis de Leão”. E como parte de esse património, a nossa dimensão internacionalizada. Em resumo: que lhe devolva à cidadania a sua dignidade, soberania e sustentabilidade.

Seguro que há também um lugar para nós no mundo se sabemos fazer as coisas com inteligência e tendo algo verdadeiramente nosso que oferecer ao acervo espiritual da Humanidade. A questão é se isso é a agenda do atual nacionalismo galego cultural e político. Como dizia o autor de estas citas, o povo confiará no nacionalismo quando o nacionalismo confie no povo.

 

Xosé Carlos Morell

Define-se como multicultural por família e mentalidade. Foi Secretário de Organização do PNG-PG. Atualmente está orientado profissionalmente à empresa privada, sendo Diretor de Exportações de um grupo de empresas. É membro do Partido da Terra, no que apresentou as palestras iniciais de Soberania e Sustentabilidade Económica e Linguística, agora em fase de receção de contribuições por parte da cidadania.

 

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