"Adelaida"

Texto lido na apresentação de Adelaida em Ourense no passado 1 de dezembro de 2011

Terça, 14 Fevereiro 2012 00:00

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Maria Jesus Méndez Álvarez (*) - Adelaida é o primeiro romance do autor ourensano Artur Alonso publicado em 2011 sob o selo editorial Atravês editora.

Artur Alonso é um poeta intimista, lírico e emotivo como reflite nos livros que tem publicados : Entre os teus olhos, Uma meixela depois a outra, Filhas da Brétema e no livro colectivo Dez por Dez.

No seu percurso poético tem conseguido o Prémio de poesia Feliciano Rolán em 2004 e o Premio de Poesía Nosside em 2010.

Ligado desde há muitos anos ao mundo da lusofonia, tem participado como estudoso en numerosos colóquios e congressos sendo a dia de hoje numerário da Academia Galega da Língua Portuguesa e Secretário do Instituto Galego de Estudos Celtas.

Em Adelaida as personagens amostram, de maneira crítica, uma realidade social dos tempos atuais: a incomunicação das pessoas numa sociedade materialista e egoista, mas muitas delas lutam pela afetividade, os sentimentos, o amor e a liberdade das relações humanas.

Mas Adelaida põe em relevo outras faces que a situam em destaque nas letras lusófonas:

1º En primeiro lugar a língua. No decurso das suas páginas Artur resgata palavras hoje adormecidas na fala galega, salvadas e salvaguardadas no ámbito lusófono e nas páginas de Adelaida, verbas próprias como debruçar, vazar, fita, coscovilhar, apañar, ou farejar.

2º Em segundo lugar o universo literário, pessoal e humano em que nos mergulha Adelaida:

Através da consciência das personagens vemos o mundo interior de cada uma delas, personagens emotivas, comovedoras, por vezes frustradas e malogradas, por vezes contentes, e amadas e detestadas a um tempo. De entre todas elas sobressaem com energia a voz das mulheres en alternância narrativa: ora Emília, ora Adelaida, ora Emília, ora Adelaida…, mas também Alberto, Sonia, Ana e Roberto.

Emília (mãe e esposa), Adelaida (esposa e amante), almas silenciosamente confidentes, maltratadas pelo tempo e pelos homens, faltas de ar e de liberdade, tenras e infelizes que procuram conforto na contemplação plácida da água do lago ou no êxtase recendente das glicínias, sem mais.

Mulheres que amaram e não foram amadas que viveram atrás de uma vidraça, atrás de uma janela como aquele Percival de Méndez Ferrín em Percival e outras historias. Mulheres que reclaman o direito a viver o amor e a felicidade como diz a protagonista Adelaida nalgum momento suscitando a lembrança do Carpe diem da Antiguidade Clássica:

Acredito na beleza natural das cousas, a que habita en cada cousa

Viver cada momento como se fose o último suspiro

Emília, antes empregada de limpeza nun hotel de uma distante cidade estrangeira, atingida pelo traballo e pela incomunicação, que reinventa melancolicamente o seu passado para poder viver a soidade do seu presente como tinha feito Felipe de Amancia ou o velho Simbad nos romances cunqueirianos:

Procuramos un pasado que nos estimule para o presente suportar, cheios como estamos de quotidianos cansaços

Emília, amarga solidão, longe dos seus dois únicos filhos : Roberto e Alberto, os dois únicos homens do romance , tão antitéticos e semelhantes como o Adrián Solovio e o Xacobe de Otero Pedrayo:

Roberto, casado con Adelaida e depois com Ana, homem inepto que representa a nescidade, a desconfiança, as mentiras e remorsos, a debilidade e a agonia duns negócios que tinham ocultado inúmeras infidelidades.

Ao estilo de Celso Emilio Ferreiro em Viaxe ao País dos Ananos diz Roberto à Adelaida:

Movo diñeiro, preciosa… obteño e amplio capital….procuro xuros…faço a xente acrecentar a miña confianza e depois deposito en valores seguros ….

Mas Roberto, o pobre do Roberto, procura o alívio quando caminha sem rumo pelas compridas ruas de uma cidade anónima como aquelas personagens complexas, atormentadas e desnorteadas do Nouveau Roman francês e da nossa Nova Narrativa Galega.

À tarde inteira tinha estado a deambular , tentando descontraír o medo inserido no abdómen (o medo, talvez o medo a si próprio ou o medo a viver)

Alberto, o irmão mais velho, melhor sucedido, que simula viver a vida perfeita que a sociedade imediata lhe demanda: mulher elegante e fina, bela e fidel esposa, corpórea; filhas ricas estudadas e malcriadas, mas também manipuladas por uma mãe perversa, traiçoeira, vingativa, mentirosa, infiel e infeliz mas também vencedora que fecha portas a avó Emilia e a tia Adelaida.

Alberto, “boneco nas mãos da sua mulher Sonia”invisível e infeliz desde que Emília –mãe- morre de orfandade e solidão; incomunicado e medíocre desde que deixou a Adelaida como amante.

Adelaida, personagem tenra, magnificamente desenhada, mulher inferiorizada e traiçoada pela debilidade primeiro de Roberto e depois de Alberto, voz que enfeitiça o leitor na procura desesperada do amor eterno e da liberdade, personagem sensual, mulher delicada, mimosa e luminosa (como a luz e as brilhantes cores que surgem da capa) sobre quem o autor descarrega os momentos mais intensos, mais líricos e deliciosos:

No tempero da primevera, no assobio letal do outono, nas tardes calmas, no olhar da água cristalina, no remanso á beira dun fresco río, no parque e no val mofoso.

Momentos que acariciam a nossa sensibilidade com agradáveis sinestesias visuais: as cores cálidas do outono, o sol na nossa terra em contraste com o ar gélido de uma cidade e de uma língua estrangeira.

Pungentes sinestesias olfactivas: com os cheiros recendentes das glicínias, do jasmim, da roseira, da aurora, da frescura do ar e do campo, do aroma a jardim “beco por onde sair das lembranças que me asfixian” diz Emília.

Subtilmente, muito subtilmente agradecemos como leitores a voz social que interiormente grita em Emília ao lembrar aqueles anos de trabalho:

  • A emigração numa grande cidade que trouxe a invisibilidade e incomunicação do ser humano.
  • As diferenças entre clases sociais “as damas altivas e as camponesas galegas, ou como descreve Emília “os que dão as moedas e as que as apanham do chão”.
  • A língua tornada inferior fora e dentro da Galiza “lingua esquecida e colonizada que procura na luta dignidade e honra”.
  • A soidade dos idosos deixados ao abandono em lares.

Adelaida tece um fio intimista de sentimentos, sensações, emoções humanas que o autor tira do interior do ser humano para deitá-los à luz e reivindicá-los por cima dos interesses materialistas da sociedade atual, facto, sem dúvida, a ter em conta .

 

(*) Professora de Galego e Português no IES "12 de Outubro" de Ourense.


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