História e tradição. Perspectivas psicopatológicas

O português da Galiza há muito tempo que recua gerando psicopatologia social. Enquanto o povo o falou não houve perda do inconsciente linguístico

Quarta, 04 Abril 2012 13:38

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Professor Higino Martins Esteves

Higino Martins (*) - Vou meter-me onde não me chamam. Não sou historiador nem psicoterapeuta; só um Galego da diáspora que não quer ficar de espetador do longo e doloroso processo histórico que envolve a nossa própria essência.

Castelão na Alva de Glória distingue Tradição e História. Para Oliveira Martins, esta era um cemitério. Castelão fala da galega e contrapõe-lhe a Tradição, como fruto vivo do decurso do tempo. É questão terminológica e a epistemologia talvez esteja a mudá-la, mas trás as palavras há um nó bem certo.

A história, como memória consciente do passado, não serve hoje em dia para os galegos assumirem a sua identidade. É certo que foram surgindo factos, capítulos inteiros, há pouco ignorados, que vão demudando criticamente essa história cativa, para nos fornecer um lídimo orgulho, embora no Estado sobranceie ainda a história oficial, criada ad usum civium.

Pode salvar-se a dignidade da História com maiúscula redefinindo-a. Mas o que aqui quero distinguir é aqueles rueiros conceitos da história. Dum lado, a de manual, a memória consciente do passado, construível – digamos História 1 –, e doutro, a história objetiva anterior aos historiadores, memória celular, ingente, em bruto, irrevogável, quase toda inconsciente, o passado mesmo – digamos História 2.

A Alva de Glória levantava uma História 1 com o intuito de contestar à do Estado, destinada a construi-lo. Tentava arvorar a alternativa galega, mas ao cabo Castelão reconhece cativo o fruto, filho da ciência do século XX, que lá não abrangia quase nada do tempo pré-romano, pouquíssimo do misterioso primeiro milénio cristão e poucas sondagens nos séculos seguintes.

Tempo andou, e hoje a historiografia galega já tem Davides competentes, ante os quais ainda apavora um Golias monumental. Com pontaria milagrosa, cumpre fazer chegar a eficaz história galega ao conjunto da sociedade. Nesse rumo, projetos como o Atlas Histórico da Galiza é um tiro bem lançado.

Os tiros devem amiudar e sobretudo atinar. Enquanto não se dê na testa do gigante, haverá que pôr a esperança na Tradição - História Galega 2. Mas cabe confiar na bruta objetividade? Pode-se, não é inerte. A esperança aqui não é enervante, mas bem fundada na recém-descoberta natureza dessa tradição viva.

O passado humano não é pétreo tempo perdido. Vive na genética e também – eis a maravilhosa novidade – no inconsciente da linguagem. Não me cansarei de repetir o que não deu chegado à consciência do século XXI. A linguagem define o humano e é clara contracara do pensamento, que já o definia.

O corolário que não se tirava já se manifestou: tal qual a psique tem uma consciência e um inconsciente – muito maior que a consciência, orgânico, estruturado, que assoma nos sonhos, mitos e contos populares –, assim a hominizadora linguagem tem um segmento visível – cifrável nas gramáticas e dicionários –, e um muito mais vasto inconsciente orgânico.

Chomsky e Dumézil têm descoberto senhas partes desse misterioso inconsciente: estruturas sintáticas profundas e estruturas semânticas, arquetípicas ou míticas profundas. A palavra-chave é profundas, não conscientes. Surge na estrutura sinonímica, no adagiário, na inúmera toponímia. Mas há muito mais: os arquétipos, mitos vivos a condicionarmos sem controle. Dumézil aí é insubstituível.

O português da Galiza há muito tempo que recua gerando psicopatologia social. Enquanto o povo o falou não houve perda do inconsciente linguístico. As classes dominantes não o falavam, não havia literatura escrita, nem modelos para a unidade da língua, mas a perda era da consciência linguística; a tradição, História 2, o inconsciente ainda vigorava.

Vida cataléptica, sem sinais externos a termos da História 1. Quem nega o vigor do povo cigano? Mas não conta na perspectiva dos povos que jogam a partida visível. Os galegos éramos, ainda somos, ciganos com terra. Lúcidos houve: Sarmiento, Rosalia, Castelão, indivíduos, não coletivos. Sarmiento editou-se para poucos dous séculos tarde. Rosalia ecoou desde a diáspora, para acabar esmagada sob clichés que a tentam borrar. Castelão foi derrotado em vida.

Animação suspensa e esquizofrenia

Experimentou-se a solução final da substituição linguística. Foram extirpados os dirigentes de cultura local (nobreza, comunidade judia, abades e priores). No século XIX a língua está acantonada no lar dos lavradores e marinheiros. Estagnada, isolada das funções ditas nobres, deu fragmentada e ferrada com o estigma de rusticidade. Animação suspensa.

O fruto foi a esquizofrenia descrita por Castelão. Sem consciência nítida da língua que falava, o lavrador sentia que flutuava entre dous pólos: falar bem e falar mal. Mau era o falar do lar e da comunicação dos afetos, com grande proporção da fala local. “Falar bem”, falar com proporção máxima da língua dos senhores, servia a defender-se. Os pais hesitavam no trágico dilema de por amor não induzir nos filhos o uso da língua dos amores.

Uma nova economia e o ensino centralizado trouxeram mudanças qualitativas na sociedade galega. Morreram falantes monolingues e cresceu o número dos urbanizados e educados em castelhano. Os mais deveram optar entre as pulsões económicas imediatas e as pulsões éticas que no desassossego crónico procuram restabelecer a paz. Recusar a língua própria com o favor do poder foi a opção fácil. Mas também foi mais fácil reconhecer a família linguística das falas galegas.

O desassossego chegou a produzir auto-ódio, fenómeno estudado no povo judeu anterior à metade do século XX. E é facto bem visível que boa parte dos adaís do centralismo, para o nosso rubor, procedem do próprio torrão. A atenuar os rigores da eiva dispõem do disfarce de cavaleiro espanhol do século XVII.

Mas hoje, a meu ver, o obstáculo principal para que uma parte importante da sociedade galega tenha clara a identidade vem dado por uma variante coletiva da síndrome de Estocolmo. Sem se confundir com o auto-ódio, com ele pode misturar-se. A aliança com os sequestradores produz um transitório alívio dos pesares. O remédio é não ceder e confiar na herança milenar.

 

(*) Artigo publicado na nova revista O Peteiro, publicação do Partido da Terra para a reflexão e o debate.


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