Trilinguismo harmónico

«Para poder falar ou comunicar-te tens que ter pessoas com as que o poder fazer»

Quarta, 13 Junho 2012 07:14

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Carlos Ndungmandum Comesanha (*) - Curiosa experiência é morar numa cidade como Londres, onde qualquer um, além do inglês, pode ficar em contacto com muitos outros idiomas, ou relacionar-se em mais de um.

Atualmente acontece-me morar em três, mas não é um facto aleatório. Já que é uma escolha feita por mim, que me fai desfrutar da língua do meu País de um jeito muito mais engraçado e positivo para além de desfrutar de falar espanhol e inglês.

Fica totalmente claro que para poder falar ou comunicar-te tens que ter pessoas com as que o poder fazer. Neste sentido, eu movo-me em quatro grupos que podem interatuar tanto no trabalho, em momentos de ócio, no dia-a-dia ou na própria casa. Dentro desses factos comunicacionais posso separar os seguintes perfis que me levam a ter que inclinar-me por uma língua ou outra.

[Inglês] Neste grupo praticamente entram todas as pessoas que moram em Londres, já que é evidente que cá temos que falar inglês. Sejam os motivos que forem, que te levaram a ficar aqui, terás que dominar a principal língua veicular desta cidade. Então podes-te encontrar falando inglês com qualquer pessoa do planeta que passe por Londres.

[Espanhol] Podemos isolar neste grupo todas as pessoas dos países de língua espanhola, obviamente. Cá entram equatorianos, venezuelanos, colombianos, argentinos, espanhóis... e entre muitos outros coletivos, os galegos, já que muitos destes só falam —à parte do inglês— em espanhol. E usam termos da igual maneira que uma pessoa de Sória ou Burgos. Por exemplo, conversa entre dous galegos, onde um diz para o outro, sabendo que ambos são da Galiza: «Este finde tengo que ir a España». Claro sintoma da herança cultural que muitos dos galegos tenhem instalada no seu miolo.

[Galego] Do meu ponto de vista, um dos factos mais positivos de morar em Londres é poder fazer uso da minha língua de uma maneira tão funcional como com o inglês ou o espanhol. Devido à multiculturalidade desta cidade, vejo-me muitas vezes falando com brasileiros, portugueses, angolanos, etc… Claro, nada fora do normal. O único a destacar deste facto é que eu escolho falar com esta gente em português, porque eu perfeitamente poderia falar com eles em inglês ou inclusive em espanhol, já que muitos deles dominam também esta língua. Mas, como galego consciente de ficar sentadinho num icebergue, comunico-me com outros coletivos aprendendo muito mais da minha fala e à sua vez eles podem ouvir alguma palavra que só ouviram aos seus avós. Facto que também me acontece a mim, com certeza.

É magnífico poder experimentar a formosa vivência de morar num lugar onde posso viver em três línguas, ficando só uma oficial e querendo eu utilizar as três. Porque levo tempo cuidando do meu galego, porque levo tempo aprendendo inglês e porque levo tempo desgaleguizando o meu castelão, tiro a seguinte dúvida: quando nas instituições galegas optam por estratégias linguísticas, que o único que fão é que muitos dos galegos se precipitem irreversivelmente para o espanhol, tendendo a pensar que essa é a única língua de proveito. Realmente acreditam em todos esses discursos infetos, que o único que logram é que a gente tenha uma pior qualidade de vida. Ou perder a oportunidade de normalizar-se de um jeito tão profundo que permita os habitantes da Galiza situar-se no mundo de uma maneira super inteligente, fazendo deles pessoas muito mais competitivas, eficazes e ledas.

Do meu ponto de vista só há duas opções, ou saltar ao mar e nadar desfrutando da formosura dos peixes, ou morrer afogado num barco que fica a afundir-se numa pochanca.

 

 


 

(*) Carlos Ndungmandum é desenhador gráfico e sócio da AGAL. Seu pai é da Guiné-Equatorial e sua mãe é galega. Criou-se em Alcavre (Vigo), mas desde há uns meses mora em Londres.

 

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