O potencial económico da língua

«Alguns governos investem significativamente na defesa e promoção da língua»

Segunda, 10 Dezembro 2012 09:35

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Manuel C. Vila é professor de Administração de empresas

Manuel César Vila (*) - Falar em valor económico ou potencial económico de uma língua resulta recente no tempo, apesar do trabalho pioneiro de Marschak (1965).  Em Portugal acaba de ver a luz o livro intitulado O potencial económico da língua portuguesa.  No Estado espanhol tinha saído em 2003, El valor económico de la lengua española.  O primeiro abre campo nesse potencial (valor) a respeito da pesquisa espanhola, dedicando só um dos seus nove capítulos a realizar uma réplica ao estudo pioneiro de Martin Municio, baseado em métodos econométricos.

Já desde o começo, o estudo salienta a importância da língua portuguesa num mundo mais interconectado, tanto a nível de falantes (3,7% da população mundial), como de riqueza total (4%) e de dimensão geográfica (8 países a ocupar cerca de 10,8 milhões de quilómetros quadrados), constatando que num mercado cada vez mais global, o português implantou-se como língua de comunicação internacional devido a três fatores principais:

  1. crescimento económico muito acentuado na última década;
  2. reconhecimento de boas práticas de governo em praticamente todo o universo dos países de expressão portuguesa;
  3. reconhecimento internacional de personalidades e instituições do espaço lusófono, em paralelo com a afirmação internacional de empresas multinacionais.

Atingida a posição atual, no caso do português, a intercompreensão dos seus falantes devém numa mais-valia, reforçando a sua vantagem comparativa no quadro da globalização.  A língua é um facilitador significativo nas dimensões de intercâmbio: migrações, turismo, comércio exterior e investimentos diretos.  Os factos vêm a confirmar as previsões baseadas na teoria dos custos de transação.

Desta maneira, alguns governos, conscientes da sua dimensão estratégica, investem significativamente na defesa e promoção da língua.  Os países de língua oficial portuguesa têm neste âmbito uma posição privilegiada, visto que no contexto da globalização atual em que a sobrevivência de tantas “espécies” linguísticas está ameaçada, a utilização e a procura do português está em franca expansão, como é demonstrado pela tendência da procura da sua aprendizagem como segunda língua, as elevadas taxas de crescimento a nível da Internet e assim para a frente.

Mas apesar de tudo isto, existe uma tensão quanto à visão da língua.  Frente a esta visão pragmática e funcionalista permanece inamovível a visão essencialista, fechada na conceição da língua como instrumento de identidade e cultura.  A visão aberta da língua como instrumento de comunicação não nega os aspectos identitários e culturais da mesma, mas considera que em cada país deverão estar subordinados a uma estratégia de cooperação na difusão da língua a nível global.

Na Galiza vai sendo hora de mudar de esquema.  Estudos como este e outros que virão fortalecem a estratégia galego-luso-brasileiro ou utilitarista da língua.  Os frutos destes últimos trinta anos de visão identitária da língua são teimosos.  Chegou o momento de abrir a mente, de abrir a nossa língua ao mundo.

Manuel César Vila, Santiago de Compostela. Licenciado em Ciências Económicas (secçom Económicas) e em Administraçom e Direção de Empresas, e Diploma de Estudos Avançados em Economia, todos pela USC. Professor de Administração de empresas no Liceu Macias o Namorado de Padrom. Entre junho de 2009 e outubro de 2012 foi tesoureiro da AGAL. Na atualidade, faz parte do Conselho Federal da CIG-Ensino e da sua Executiva na comarca de Compostela.

 

(*) Artigo publicado originalmente no semanário Sermos Galiza