Primeiro Bispo de Dume na origem das primeiras nomenclaturas do idioma Galego–Português

Nomes que hoje atribuímos aos dias da semana remontam às orientações linguísticas de Martinho da Panónia, o célebre S. Martinho de Dume, que aboliram na antiga Galécia as nomenclaturas pagãs

Terça, 05 Março 2013 09:41

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Pedro Leitão (*) - Foi decisivo para a consolidação do catolicismo no noroeste peninsular e contribuiu para a posterior afirmação do idioma Galego–Português. Martinho da Panónia, primeiro bispo de Dume, a pequena diocese que perdurou cinco séculos às portas de Braga, integra desde há muito a galeria das divindades culturais veneradas pelos galegos lusófonos que se identificam com as raízes bracarenses da Língua Portuguesa. Os nomes que hoje atribuímos aos dias da semana, que também foram usados na Galiza, remontam às primeiras orientações linguísticas com origem na acção do célebre S. Martinho de Dume, nascido na Panónia, actual Hungria, em 518 ou 528.

Apesar da origem dumiense das primeiras nomenclaturas do idioma galego-português, a Língua Castelhana, hoje dominante na Galiza, e o Galego castelhanizado, imposto pelas elites espanholistas, mantêm, ainda assim, resquícios do paganismo que S. Martinho de Dume conseguira abolir na antiga Galécia, que incluía a actual Galiza. Além de bispo de Dume, Martinho foi também bispo metropolita de Braga, a partir do ano de 569, o que lhe conferiu uma autoridade eclesiástica acrescida sobre a actual Galiza e no resto da antiga Galécia, que incluía o ocidente das Astúrias e de Leão, além do norte e centro de Portugal.

Foi pela força da sua pregação que os dias da semana deixaram de estar associados, no Galego – Português, a deuses pagãos ou a entidades celestes, como Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter e Vénus. A nomenclatura de S. Martinho de Dume impôs-se, ao longo dos tempos, em Portugal e na Galiza, embora aqui fosse depois substituída pelos antigos nomes pagãos, com o processo de imposição da Língua Castelhana junto do povo galego, em especial durante a ditadura franquista.

Francisco Franco, ele próprio um galego, proibira o ensino da Língua Galega nas escolas ou mesmo o seu uso nas ruas, lares e até nas homílias. Hoje, só a população mais idosa das zonas rurais da Galiza mantém a nomenclatura de S. Martinho de Dume para os dias da semana: “Segunda – Feira”, “Terça – Feira”, “Quarta – Feira”, “Quinta – Feira” e “Sexta – Feira (O primeiro bispo de Dume manteve “Sábado” e “Domingo”, por serem da tradição hebraica–cristã). A maioria da população galega, mesmo a que se exprime em Língua Galega, recorre às designações pagãs mantidas no Castelhano: “Lunes” (segunda-feira), “Martes” (terça-feira), “Miércoles” (quarta-feira), “Jueves” (quinta-feira) e “Viernes” (sexta-feira).

O Galego oficial, que tende cada vez mais para uma ortografia próxima do Castelhano, afasta-se das raízes históricas com origem em S. Martinho de Dume, ao adoptar formas castelhanizantes: “Luns” (segunda –feira), “Martes” (Terça –feira), “Mércores” (quarta – feira), “Xoves” (quinta –feira) e “Venres” (sexta –feira). O movimento reintegracionista (defensor da reintegração da Língua Galega no sistema linguístico luso-brasileiro-africano) conseguiu que o Galego oficial consagrasse, como também válidas, as formas galego–portuguesas, mas, ainda assim, deturpadas pela elite oficialista: em vez de “Terça–Feira” ou de “Quarta– Feira” só é válido no Galego oficial … “Terceira Feira” e “Cuarta – Feira”! Hoje, em todo o mundo das línguas novilatinas, só os países de expressão oficial portuguesa não usam nomes pagãos para designar os dias da semana, mantendo assim a nomenclatura do primeiro Bispo de Dume, o célebre S. Martinho.

 

Imagem de Martinho de Dume na catedral de Mondonhedo
[foto: Pedro Leitão]

 

Lápide em S. Vicente testemunha eficácia das reformas de Martinho

A primeira grande prova da eficácia das reformas linguísticas de S. Martinho de Dume surgiu em S. Vicente, Braga. É a lápide de uma defunta sepultada na antiga ermida de Sancti Vicenti de Infidias (Infias), no ano 618. O monumento terá sido retirado das ruínas dessa ermida, após a sua destruição pelas hostes sarracenas. Foi colocada séculos mais tarde na actual Igreja paroquial de S. Vicente, onde permaneceu oculta até ter sido reencontrada nos alicerces do mesmo templo, durante obras de reconstrução em meados do século XVI.

“Aqui descansa Remisnuera, desde o primeiro de Maio de 618, dia de segunda feira, em paz, amen”. Assim reza a referida lápide sueva – visigótica, que se encontra na Igreja de S. Vicente. Para os investigadores, a inscrição do termo Segunda – Feira significa que a nomenclatura galega - portuguesa do primeiro bispo de Dume já estava em pleno uso no território da antiga Galécia um século após a chegada S. Martinho a Braga.

Avelino Jesus da Costa, cónego da Sé Braga e catedrático da Universidade de Coimbra, falecido em Outubro de 2000, e outros investigadores concluíram tratar-se do monumento mais antigo da cristianização da península. A lápide acabou por ficar embutida na parede interior da sacristia da Igreja de S. Vicente, provavelmente desde as obras de reconstrução lá realizadas no século XVI.

O nome Remisnuera inscrito nessa lápide é de origem germânica, segundo a conclusão a que chegou em 1896 o epigrafista (e padre) Fidel Fita, a partir de uma foto do monumento que lhe enviara o arqueólogo Albano Belino. Isto significa que os nomes germânicos, trazidos para Braga pelos suevos, também continuavam em pleno uso dois séculos depois da chegada à antiga capital da Galécia desse povo originário da região de Berlim.

Dume ainda goza do direito a ter bispo em memória do seu passado

A diocese dumiense fora criada após a chegada a Braga, no ano de 550, de S. Martinho. Por esses tempos, os suevos já governavam, a partir de Braga, o vasto território da Galécia, que compreendia a actual Galiza e o ocidente das Astúrias e de Leão, o norte de Portugal e parte da sua região centro. Instalaram-se, sobretudo, nas zonas de Braga, Porto, Lugo e Astorga. Na região do Porto, estabeleceram-se em duas povoações, a Portucale Castrum (Gaia) e Portucale Locum (zona da Sé do Porto). Até 585, o Reino Suevo manteve-se com alguma estabilidade. Nos últimos anos, teve de aceitar a suserania dos Visigodos até ser anexado por Leovigildo, rei visigodo, em 589. A partir de então, Braga passou a ser governada por Toledo, a capital do Reino Visigodo
O bispado dumiense foi extinto nos inícios do século XII, mas Dume ainda goza do direito a ter bispo, em memória do seu passado, apesar da vacatura do cargo, por morte do último titular, D. Carlos Pinheiro, em 2010. A histórica diocese abarcava áreas das freguesias bracarenses de S. Vicente, Real, Parada de Tibães, Mire de Tibães, Panóias, Frossos, S. Pedro de Merelim, Palmeira, Semelhe e Gondizalves, segundo estudos do arqueólogo Luís Fontes sobre a sua delimitação. A referida delimitação coincidirá com a que foi reconfirmada por Ordonho II, rei da Galiza, no século X, a pedido de Sabarico II, bispo de Mondonhedo (e de Dume), quando já estavam dissipados os perigos de novas investidas sarracenas sobre Braga.

Ao tempo da chegada de Martinho a Dume, o território da Galécia, outrora uma província romana, já constituía o Reino dos Suevos, um povo germânico oriundo da região de Berlim. Até chegarem à Galécia, os suevos protagonizaram um longo êxodo bélico. Acabaram por invadir Braga e o resto da Galécia em 409, mas, no ano seguinte, estabeleceram um pacto com o Império Romano do Ocidente, que lhes atribuiu a posse dessa região, a troco de vassalagem a Roma, mas que depressa ignoraram, tirando partido da fragilidade do império. A partir dessa época, o território galego – português da Galécia ficou, definitivamente, fora da alçada do Império Romano. A capital do reino dos suevos era Braga ou a área que restava da sua cidade romana, Bracara Augusta.
Ao tempo da sua chegada a Dume, o Reino dos Suevos acabava de sair de um período obscuro, após século e meio de existência. Já antes de Martinho, no ano de 449, Requiário, um rei suevo, adoptara o catolicismo, mas Remismundo, outro rei suevo, viu-se forçado, em 465, a voltar ao arianismo para reunificar o reino.

Mais tarde, em 550, o rei suevo Karriarico, converte-se à fé católica, mas esta segunda conversão dos Suevos já ocorre por acção de S. Martinho de Dume. Homem erudito, Martinho fundara em Dume uma escola de tradutores do Grego para o Latim, uma vez que os documentos de interesse para a cristandade estavam, até então, escritos em Grego. Como a região da Galécia estava latinizada, o primeiro Bispo de Dume preocupou-se em tornar acessíveis textos necessários à plena cristianização do noroeste peninsular. O escol de tradutores que emerge em Dume, entre os quais sobressai o padre Pascácio, vai ser também fundamental à posterior transposição para o Galego-Português de textos traduzidos do Grego para o Latim.

A primitiva corte dos reis suevos terá sido em Santa Marta das Cortiças, em Braga, mas um século e meio depois já estava instalada numa majestosa edificação em Dume, anexa ao mosteiro que foi sede do bispado dumiense. As ruínas dessas construções foram, em grande parte, destruídas durante a reedificação da actual Igreja de Dume, mandada realizar, em 1731, pelo Cabido da Sé de Braga. Durante essa reedificação foram descobertas pedras “soterradas” que “inculcavam majestade”, nomeadamente “pedaços de colunas com boa arte lavradas”, além de “sepulturas de pedras inteiriças e muitas outras de outra cantaria”, por informação do Abade de Dume em 1758, Francisco Duarte. O sacerdote mencionava que, em meados do século XVIII, ainda continuavam a ser encontrados vestígios na igreja e “nas vizinhanças”.

Bispos galegos de Mondonhedo (Lugo) governaram a diocese de Dume (Braga)

Bispos de Mondonhedo e de… Dume! O título foi usado durante séculos pelos sucessores em Mondonhedo (Galiza) de Sabarico I, abade do Mosteiro de Dume e, por inerência desta função, também bispo de Dume, nos arredores de Braga.

Mondonhedo já não manda no Bispado de Dume, nem o reclama, mas permanece fiel às suas origens dumienses. Um dos seus jornais tem mesmo o nome de … “Dumio”, o primitivo topónimo de Dume. Tudo isto porque Sabarico I fugira de Dume no ano de 864 ou 866, refugiando-se na Galiza, para escapar a novas investidas árabes sobre Braga. D. Afonso III, rei de Oviedo (Astúrias), doou-lhe os territórios da diocese de Britonia ou Santa Maria de Bretonha (Galiza), criada no 1º Concílio de Braga, em 561, (ou em 569 no 1º Concílio de Lugo), ao tempo de S. Martinho de Dume, o mentor desses conclaves, assim como do 2º Concílio de Braga, em 572.

A diocese galega de Britonia tinha sido devastada pelas primeiras invasões árabes, mas os seus territórios foram reconquistados. Após a sua doação ao abade de Dume, emerge nessa região da Galiza uma nova diocese com o título de S. Martinho de Mondonhedo. Sabarico tornava-se, assim, o primeiro bispo de Mondonhedo, mas manteve o título de abade e bispo de Dume, apesar de nunca ter regressado a Braga. Os seus sucessores, em memória de Dume, adoptaram também o título de bispos de Mondonhedo e Dumienses. Sabe-se que Sabarico de Dume construíra o mosteiro existente na actual paróquia de S. Martinho da Foz, nos arredores de Mondonhedo, província de Lugo.

A reconfirmação dos limites do bispado de Dume e da respectiva doação a favor da diocese de Mondonhedo foi determinada no ano de 911 pelo Concílio Aliobrinense, ao tempo de D. Ordonho II, rei da Galiza, a pedido do então bispo de Mondonhedo (e de Dume), Sabarico II. Este prelado era tio de S. Rosendo, uma figura marcante do catolicismo na Galiza com raízes familiares a Santo Tirso. S. Rosendo, fundador do Mosteiro de Cela Nova (Ourense), sucedeu, em 925, a Sabarico II, tendo sido, também assim, bispo de Dume.


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(*) Pedro Leitão é jornalista.