O Santo Profeta Judeu da Babilónia que São Tiago ressuscitou em Braga

É o “milagre” que Compostela procurou ofuscar para retirar peso à importância (e primazia) de Braga nas origens do culto a S. Tiago entre os povos das Espanhas

Sábado, 16 Março 2013 00:00

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Pedro Leitão (*) - Uma lenda prodigiosa com origem em escritos de Atanásio de Saragoça coloca Braga em primeiro lugar na rota das pregações de S. Tiago aos povos das Espanhas e atribui ao apóstolo a ressuscitação do “primeiro” bispo bracarense, S. Pedro de Rates. Apesar de estar pouco difundida pelo mundo católico, a lenda do milagre de S. Tiago em Braga retira peso à de Compostela, por ser a história surpreendente da única ressuscitação do apóstolo durante a sua lendária digressão pelas Espanhas. Faz parte de “uns fragmentos” de obras atribuídas a Santo Atanásio, “primeiro bispo” de Saragoça e “discípulo” de Santiago. Esses fragmentos foram descobertos em livrarias monásticas da Sardenha e de Aragão, há quase quatro séculos, pelo padre jesuíta Bartolomeu André de Olivença, lente de Teologia no Colégio de Alcalá, por informação em 1635 do arcebispo de Braga, D. Rodrigo da Cunha.

O fabuloso relato só não catapultou Braga para centro das peregrinações europeias em torno do apóstolo porque, ao longo dos tempos, a igreja compostelana procurou ofuscá-lo. Apesar de ter surgido 900 anos após a fundação de Bracara Augusta, mesmo assim Compostela acabou por trocar as voltas a Braga ao disputar-lhe a primazia já no século XII. Em 1102, o bispo compostelano Diogo Gelmires levou de Braga, pela calada da noite, qual salteador, as relíquias do bispo bracarense S. Frutuoso e dos mártires S. Silvestre, S. Cucufate e Santa Susana. No dia 1 de Abril de 1103, S. Geraldo, arcebispo de Braga, estava em Roma para se queixar desse acto extorsivo de Compostela, regressando de lá com poderes eclesiásticos acrescidos sobre as Espanhas. Porém, o “roubo” de Diogo Gelmires ou “Pio Latrocínio”, como lhe chamou eufemisticamente a Igreja compostelana, só foi reparado oito séculos mais tarde: as relíquias de S. Frutuoso foram devolvidas a Braga em 1966 e as dos mártires referidos em 1993.

S. Tiago escolheu Bracara Augusta por ser cidade com enorme afluência de povos

Segundo a lenda com origem nos supostos fragmentos de Atanásio, o corpo de S. Pedro de Rates repousava, havia seis séculos, numa “sepultura célebre” de Bracara Augusta, a cidade romana de Braga. Nos primórdios de Bracara Augusta, a população bracarense, apesar de paganizada, ainda nutria admiração pela sepultura, por ouvir contar que nela “jazia um Santo Profeta Judeu”. À luz do suposto testemunho de Atanásio, a tradição da Cristandade Ocidental atribuiu o nome de “Samuel, o Moço” ou “Malaquias, o Velho” a esse profeta, que teria ido para Braga com outros judeus, após longo cativeiro na Babilónia, ao tempo do todo-poderoso rei babilónico Nabucodonosor, ou seja, séculos antes da fundação de Bracara Augusta (a fundação da cidade romana de Braga remonta ao ano 20 antes de Cristo).

Diz a lenda que S. Tiago escolhera Bracara Augusta, no ano de 37 depois de Cristo, para início das suas pregações pelas Espanhas. À luz do suposto testemunho de Atanásio, a opção do apóstolo pela cidade romana de Braga foi intencional, pois, ao tempo, Bracara Augusta já era a sede de um Convento Jurídico. Só esse estatuto político-administrativo fazia confluir à cidade inúmeros povos gentios que estavam sob a sua jurisdição, nomeadamente da actual Galiza, para dirimirem litígios junto dos representantes do Império Romano. Por conseguinte, S. Tiago tinha diante si uma cidade “em tudo acomodada para nela se fundar a primeira e principal Igreja de Espanha”, como escrevia em 1635 D. Rodrigo da Cunha.

Mal chegou a Braga, o apóstolo foi atraído pela enigmática sepultura e, na presença de “infinito povo”, fez o milagre de trazer à vida esse profeta judeu para o proclamar “1º Bispo” da cidade e das Espanhas, dando-lhe o nome de Pedro, quando o batizou. Pelo espanto que causara, a ressuscitação levou à conversão de habitantes de Bracara Augusta, entre os quais judeus presumivelmente descendentes dos libertos da Babilónia, que passaram a venerar o apóstolo “como homem vindo do Céu”.

S. Tiago percorreu depois outras cidades das Espanhas, mas voltou a Braga para consagrar, “em forma de capela”, uma cova que ficava junto ao templo da Deusa Isis, no sítio com o nome de Banhos. Segundo a lenda, dedicou à Virgem esse primitivo templo cristão e assim edificou em Braga a primeira igreja instituída nas Espanhas em honra de Santa Maria.

À luz dessa tradição multisecular, Braga foi também a primeira cidade do Império Romano, depois das “Províncias da Palestina”, a “receber a Fé de Cristo” e a instituir entre muros, apesar do paganismo que nela imperava, a primeira igreja cristã da Europa apenas quatro anos após a crucificação de Jesus, quando ainda reinava o imperador Tibério.

Limoges chegou a considerar-se terra natal do “primeiro” bispo de Braga

A tradição que atribuía a S. Tiago a ressuscitação em Braga de S. Pedro de Rates repercutiu-se de tal modo na Europa ocidental que a cidade francesa de Limoges considerou-se, mais tarde, terra natal desse lendário bispo bracarense. O sobrenome Rates deste prelado teve origem no sítio onde foi martirizado no ano de 47 por ordem de um régulo romano de Braga, segundo os supostos escritos de Atanásio. Porém, um bispo francês de época recuada, citado pelo Arcebispo de Braga D. Rodrigo da Cunha em 1635, apresenta a versão fantasiosa de que S. Pedro de Rates fora buscar o sobrenome a Limoges, que o terá venerado com os nomes de S. Pedro Ratense ou Ratistense.

Embora pretendam entroncar a lenda de Compostela com a que remonta ao ano de 47 em Padrão, que indica ter sido para aqui levado o corpo de S. Tiago, ainda assim é S. Pedro de Rates, como bispo de Braga e primaz das Espanhas, que aparece em Padrão a presidir às cerimónias de consagração da sepultura do apóstolo, segundo reza o relato de Atanásio.

À luz do testemunho de Atanásio, atribui-se a S. Pedro de Rates o milagre de ter curado da lepra a filha e a mulher de um régulo romano de Braga. As duas mulheres converteram-se, mas o régulo, enfurecido com a conversão, mandou-o perseguir. Segundo a lenda, os soldados às ordens do régulo mataram esse “1º Bispo” de Braga e das Espanhas em Rates, perto da Póvoa de Varzim, e cobriram o corpo de pedras e assim permaneceu até ter sido encontrado por um ermita, S. Félix, perto da Póvoa de Varzim

Libertos da Babilónia podem ter viajado por mares nunca antes navegados

A libertação do grupo de judeus por ordem do próprio Nabucodonosor ocorre depois de o profeta Daniel ter decifrado o enigma da estátua em ouro, prata, bronze e ferro, aparecida em sonhos a Nabucodonosor, mas que nenhum dos seus sábios, adivinhos e astrólogos conseguira decifrar, a não ser Daniel, que também era um dos judeus cativos da Babilónia. Pela forma como foi interpretado em épocas muito posteriores à do império da Babilónia, com base na decifração feita por Daniel, pode dizer-se que o sonho de Nabucodonosor previu, implicitamente, o apogeu e queda dos impérios persa, grego-macedónico de Alexandre Magno e romano e foi muito premonitório quanto à prevalência “para todo o sempre” de um outro reino bem mais poderoso do que todos os outros - o “Reino de Deus”! Essa “Revelação” de Daniel “assustou” Nabucodonosor que se julgava, até ali, rei e senhor do mundo antigo. Até que ponto esse “susto” influenciou Nabucodonosor na decisão de libertar os judeus que acabaram por se instalar, segundo a mesma tradição, no território à volta de Braga, séculos antes da fundação da sua cidade romana, é o grande enigma que permanece em torno do sonho. O êxodo dos libertos da Babilónia está a suscitar, mesmo assim, a atenção de antropólogos norte-americanos por admitirem a hipótese de muitos desses judeus terem atingido a costa leste dos Estados Unidos da América. A pesquisa incide sobre uma tribo índia norte-americana que apresenta traços fisionómicos bem diferentes das outras tribos e que utiliza rituais religiosos semelhantes aos do judaísmo.

 


 

(*) Pedro Leitão, jornalista (ex-redactor do Jornal de Notícias)