Do outro lado da encruzilhada

Segunda, 06 Maio 2013 00:00

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Teresa Moure - Quando o Édipo se pôs a caminhar depois de ter decidido que via escolheria na encruzilhada, muitas das pessoas de Tebas advertiram-lhe: "Olha lá, não há nada desse lado!". Falaram-lhe dum campo ermo, transitado de radicalismos diferentes, mas todos igualmente inúteis, de desavenças internas com feridas difíceis de curar. Ia instalar-se numas margens tingidas dessa desesperança underground, própria de quem decidiu deliberadamente deitar-se fora das normas do bom convívio.

Se calhar, o lógico seria que, ao menos durante um minuto o Édipo sentisse medo, mas não foi o caso porque ele já sabia de muito tempo atrás que, quando alguém se fatigava em relatar-lhe os padecimentos a que o forçava qualquer escolha, seria com a didática intenção de assustá-lo e de provocar que reconsiderasse a sua decisão. Porém, ao atravessar aquela encruzilhada, o primeiro que achou o Édipo foi o entusiasmo: gentes que valoravam o seu passo, acolhendo-o de braços abertos, especialistas dispost@s a perderem o seu tempo aclarando dúvidas, amizades novas ou renovadas que se dispunham a colaborar brindando-lhe os seus recursos. E o Édipo, obrigado, soube que estava conforme com o que fizera, e mais que não estava só. Obviamente, na encruzilhada já calculara os efeitos do seu passo, já previra as consequências e mesmo valorara que, caso não tivesse estas cálidas boas-vindas, a decisão deveria ser a mesma. Falávamos de normas ortográficas, de reconhecer o galego falado na Galiza como uma única e a mesma língua que outras variedades geográficas que tiveram maior fortuna histórica. Falávamos de escrever segundo as convenções históricas adotadas na variedade de galego melhor assente como forma linguística prestigiosa e não segundo uma tradição amedrontada, que procurava apegar-se ao espanhol para não se ver dissidente, para perder auto-afirmação, para não resultar perigosa perante o estado. Falávamos de história e de independência. Perante questões técnicas e políticas como estas, o cálculo sobre a recepção que pudesse ter a própria decisão estava de mais: obviamente, depois de refletir sobre estas questões já nada podia deter o Édipo. Aliás, sentia que esse acolhimento era necessário, atuava como bálsamo: fortalecia.

Do outro lado do caminho ainda se escutavam as vozes de protesta, mas o Édipo já não podia ouvi-las, porque ele caminhara para dentro do problema, em vez de evitá-lo, e chegara mais fundo, a essa parte do cérebro onde apenas podem chegar as palavras. E descobria aí um novo sentido da sua língua. Ao ter que lutar por ela, mais uma vez, ao ter que aprender certas convenções − pois disso e de mais nada se tratava, a língua era a mesma −, a língua tornava-se num território que reconquistar: a sua expressão refugava lugares comuns; percebia com facilidade quantas metáforas alheias, quantos decalques se apropriaram da sua criatividade, forçando-a. Libertava-se. Como em Tebas todo se passa com muita pressa, rapidamente houve uma nova direção da RAG e o presidente eleito, Xesús Alonso Montero, cujo antigo gabinete agora − por um acaso certamente irónico − ocupava esse Édipo na Faculdade de Filologia, insistia nas suas primeiras declarações à imprensa em que gostaria de voltar à norma de 1982, a norma dos -ble e dos ó, a norma da segunda forma do artigo. Os caminhos habitualmente bifurcam-se mais do que julgamos a simples vista. Se mesmo as linhas paralelas não chegam a tocar-se nunca, o que não se passará como os caminhos tortuosos que se vão distanciando enquanto se percorrem? Ainda bem que o Édipo atravessara a tempo para as filas do NH... porque também se teria arrancado os olhos de ficar do outro lado e escutar uma tão agressiva declaração. Quer a RAG o aceite, quer não nas filas do reintegracionismo militam figuras eminentes da filologia, entre elas Carvalho Calero, esse mestre que desafia, como a sua exclusão reiterada, um ano após outro, a celebração do dia das letras galegas. Do lado do reintegracionismo figuram intelectuais, docentes e literat@s cujos nomes e cujas obras são impossíveis de esquecer numa listagem minimamente objetiva dos contributos da cultura galega para a cultura mundial. Mas, sobretudo, do lado do reintegracionismo, e isso é singularmente importante, estão boa parte dos ativistas em defensa dessa língua que o poder esmaga. Pode permitir-se uma instituição como a RAG prescindir de todas estas forças? A verdade é que sim. Pode. E, com efeito, fá-lo. Mas isso só demonstra falta de capacidade de diálogo, falta de democracia real e excesso de liderados individuais.

Há coisa dum ano, numa das conversas que mantenho frequentemente com a minha amiga a escritora madrilena Belén Gopegui, falamos muito de língua. Ainda que como pessoa sensível que ela é, compreendesse a resistência que representa a literatura para @s escritor@s em língua galega, não deixava de surpreender-se. Surpreendia-a que fôssemos a qualquer vila distante da nossa casa sem cobrar − que é o habitual no trabalho físico ou intelectual − pelo simples desejo de que tivesse lugar um ato em língua galega. Surpreendia-a o nível de compromisso e de militância com que se mantém esta língua em pé. Eram estas surpresas gratas para uma pessoa comprometida como ela. Mas quiçá o que lhe causasse maior estranheza era a nossa teima na língua, em depurá-la, em pôr à prova a sua versatilidade, na necessidade de performar mentalmente as situações que se descrevem na literatura para verificar a sua naturalidade num país de esquizo-glóssia absoluta. Ela − insistia-me − ao escrever só tinha na cabeça questões relativas ao próprio ato de criação, à coerência dos personagens: a língua, a sua qualidade ou a sua correção, tanto lhe tinha. Suponho que Belén Gopegui goza duma língua normal, uma língua que as pessoas criadoras usam para produzir os seus artefatos, uma língua que é meio para um fim. Para nós, para as gentes galegas, mas também para quem escreve neste idioma desde tantos territórios afastados da Europa/metrópole, a língua não é simples veículo, mas é a massa com que somos quem de levantar o edifício da própria cultura, da própria cosmovisão; é uma arma de resistentes.

Do outro lado da encruzilhada houve quem ousou dizer a Édipo que desprezara o público leitor obrigando-o a partilhar decisões que lhe eram alheias e que diminuíam o público natural da literatura galega. Do outro lado da encruzilhada, alguns atreveram-se mesmo a considerar que a norma ILGA era a norma patriótica. Contra toda previsão, o Édipo não riu. Tampouco chorou. O Édipo não disse nada. Procurou concentrar-se no essencial e não perder o tempo em conversas confusas de tão pouco fiadas, quando não se vai chegar a nenhum sítio. O Édipo, por uma vez certo, sabia desde que se passara às filas do NH que nada ia ser doado, que a capacidade de agir contra o poder não é premiada, ainda que seja, em por si, um prémio. E por isso, mais que nunca, soube que pagava a pena ter arrancado os olhos.

 

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