Indivíduos poliglotas numha sociedade em galego

Artigo escrito por um indivíduo, quando menos, pentalíngüe

Terça, 10 Março 2009 00:00

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
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Ramiro Vidal Alvarinho - O Presidente eleito da Junta da Galiza já anunciou que nom há marcha atrás na liquidaçom das galescolas. Também está decidido a eliminar o decreto de 50% do galego no ensino. Para este segundo golpe de efeito imprimiu um ritmo e um protocolo que o libertem de parecer expeditivo, ou seja, de ser o que é: umha medida golpista.

Di que «escuitará a voz da rua». Vamos ter que suportar continuamente a falácia democratista para justificar o que nom é mais do que mera imposiçom. Muita atençom ao novo discurso dos lingüicidas...

Em qualquer caso, e para nom variar, como elemento difuminador do debate lingüístico que ninguém promoveu nunca a sério no nosso País, por isso agora temos o que temos, de novo sai o fogo de artifício do inglês. A estes pailáns iletrados que temos como classe política, sai-lhes surpreendentemente barato encher a boca com o inglês quando falam de educaçom, nomeadamente quando se referem às línguas. O importante é aprender inglês.

Eu podo compreender que, dentro da lógica do sistema, seja importante aprender inglês, e que o pessoal assim o assimile. A questom é: como é possível que quando um político formula o argumento mágico do inglês, nesta altura, ainda haja quem lhe aplauda. Porque os que nascemos antes da morte de Franco, sabemos por quantos planos de educaçom passou a nossa sociedade, conhecemos como estava em tempos passados a aprendizagem do inglês e temos umha ideia da sua evoluçom. E, em qualquer caso, todos temos ao nosso alcance um dado: o pessoal, polo geral, nom fala inglês, nem pouco nem muito. Porque, tal como está a educaçom, e tendo em conta a importáncia que se dá ao ensino das línguas, se confiamos o nosso nível de inglês à educaçom ordinária... já vemos os resultados.

O futurismo de cartom-pedra dos «populares» fala de trilingüismo; é curioso escuitar falar de trilingüismo pola boca de Núñez Feijóo, um gajo que fala mal o castelhano, pior o galego e nada (como a média na sociedade galega, vaia) de inglês. Digo nada de inglês, porque alguém se preocupou de comprová-lo e eu, felizmente, constatei-no. Um reporteiro de já nom me lembro quê programa de humor de umha tv espanhola, assaltou-no no seu dia formulando-lhe umha pregunta em inglês. O sketch ia disso, de comprovar quantos políticos espanhois falam inglês, e alá fôrom, às portas do Congreso de los Diputados, a comprová-lo. Nom fai falta dizer que o resultado deixava em evidência muitos. A questom é que nom sei porquê, ali, nos corredores do parlamento espanhol estava o Feijóo, que safou do reporteiro com um chulesco «que no te entiendo, te digo...». Pois podia começar por predicar com o exemplo, ele que é tam católico.

Nom quero seguir emprestando a menor atençom a umha política lingüística à que será mais fácil e mais efectivo golpear quando se traduza em factos e nom agora, que se reduz a declaraçons. A questom é que eu, que som um nacionalista galego, independentista, que é a única maneira que eu concebo de ser nacionalista, declaro-me pentalíngüe, como mínimo. Por nom dizer que som heptalíngüe ou decalíngüe. Em realidade todas as línguas do mundo som a minha língua, porque eu penso que se existem é porque no seu momento foi necessário que existissem, mas claro, tenho as minhas preferências. Por enquanto, de trilíngüe tenho mais do que Núñez Feijóo. Porque eu preocupei-me de aprender inglês.

A questom é que, a pesar de saber mais línguas do que Feijóo (que nom domina decentemente nem a própria) quero umha Galiza monolíngüe em galego, como é lógico. Nom sei quantas vezes se repetiu já, desde posicionamentos nacionalistas, que existem indivíduos poliglotas, mas as sociedades tenhem umha língua vehicular...e nom creio que isso  faga muita falta explicá-lo.

Que eu defenda que na Galiza o idioma vehicular tem que ser o galego, nom significa que eu quera exterminar outras línguas, nem que me oponha a que nos centros de ensino se estudem outras línguas. E nom fai falta dizer que, polo contrário, o senhor Feijóo e os seus acólitos, se querem meter mao ao sistema educativo, é, antes de nada, para confinar ao galego ao seu guetto habitual, para fomentar pedagogicamente a perseveráncia nos preconceitos tam bem cultivados nas últimas décadas. O do inglês, podo apostar o que for sem temor a perder que é pura traca eleitoral.

Eu claro que defenderia pôr em valor o ensino de línguas. Oxalá chegasse um governo que figesse algumha cousa relevante para dignificar o ensino de línguas. Nom vai ser este. Se eu som poliglota, é graças à minha iniciativa pessoal e ao meu entorno, e nom porque o sistema educativo me facilitasse o estudo daquelas línguas em que eu estava interessado.

Concretamente o inglês, já é a minha língua desde há muitos anos. Por questons afectivas. Porque os grandes génios do jazz, do rock and roll ou do blues, tinham essa língua como língua de criaçom. Nina Simone, Aretha Franklin, AC/DC ou os Rolling Stones, cantavam/cantam em inglês. Ainda me lembro de eu e mais o meu irmao adolescentes escachando a cabeça a traduzir as letras de Sepultura, Iron Maiden ou Metallica. Isso ajudou muito ao nosso achegamento ao mundo anglo-saxom, muito mais do que a escola.

O cinema e a literatura também figerom o seu. Saber que Lord Byron, Shakespeare, Jack London ou Robert Louis Stevenson concebérom as suas obras em inglês, já é outro motivo de admiraçom para essa língua. Saber que há umha imensa produçom de cinema que está pensado e soa em inglês, também. Desde o cinema negro até os Monty Python, passando por milhares de produçons hollywoodianas ou independentes de todos os tempos.

E o mesmo poderia dizer do russo, do italiano, do alemám, ou do francês. Ou do árabe, ou do japonês. Eu nunca abstraio umha manifestaçom cultural ou artística do seu ADN ou do seu entorno, ainda que poderia nalguns casos, claro.

A questom é que o cinema, a literatura, a música, som maneiras de viajar e nom simples produtos que possuir e obstentar, por isso gosto delas. E por isso poid dizer que, graças a elas, sinto línguas que às vezes nem percebo como próprias. E por isso já som pentalíngüe, ou decalíngüe, ou quem sabe se dodecalíngüe.