A língua seica tem que seduzir

Segunda, 20 Abril 2009 07:48

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Domingos Antom Garcia Fernandes - Está-se a falar de língua amável, dos sentimentos, cordial (e nom cardíaca polo que puidera recordar de enfarte de miocárdio, taquicardia, et cetera) e que “tem de seduzir”. De ir ao Dicionário, achas que tal palavra, em sentido recto (nom tropológico ou figurado), aparece como tratar de enganar, corromper por meio de insinuaçons ou falsas promessas…

E somente nas acepçons finais vem de significar encantar, fascinar, atrair… E no fecho“dominar a vontade de”. Com qual ficamos?

As línguas imperiais nom tenhem de seduzir, estám aí como algo natural. Som as línguas B, as minoradas as que ham de enfeitiçar.

O galego é a língua que muitos pais ainda falam com os seus pais, com os seus amigos, com os seus vizinhos…

O espanhol é a língua que demasiados pais estám a falar com os seus filhos, com a Administraçom, em boa parte das instituiçons…

Um típico caso de zoodiglossia: o galego para falar com os animais e o espanhol com as pessoas… Mas por vezes som atraiçoados por sonhos diglóssicos. Mesmo semelha que as estruturas profundas seguem a ser as da língua represada…

A nossa língua vem ser umha língua simpática, deleitosa, agarimosa, afectuosa, mas de andar pola casa. Umha língua em que funcionam ininterruptamente estratégias de condescendência.

O galego é língua de vassalagem, resíduo… Mas também é essa língua que emerge, como umha afogada, no meio de falares em espanhol…

Há um antagonismo entre a língua da economia doméstica e a da economia formal; a língua de “rústicos” e a língua culta; a língua eleiçoeira e a da alta política; a má e a boa; a útil e a inútil… Pido desculpas por esta reduçom binária.

Pois que Galiza é umha naçom dependente e submetida, com um papel periférico num dos principais centros do Capitalismo Mundializado, a sua língua, o seu imaginário social, as suas representaçons, o seu mundo simbólico leva séculos num processo de assimilaçom crescente. O Galego está a ser engolido.

Há, portanto, que luitar para que a nossa língua se integre (sem perdas fonológicas, semánticas e sintácticas) no mundo da lusofonia e polo direito a sermos monolíngües em galego.

Sabe-se que a idade dos idiomas som os primeiros anos (as palavras nascem entre mamadeiras), que a habilidade lingüística principia a esfumar-se arredor dos seis anos e que aos doze teria de produzir-se um domínio quase completo. Aprender quantas línguas se puder, mas a nossa somente é umha e tem ser a língua da nossa cultura (uso esta palavra em sentido antropológico ao abranger a economia, as relaçons sociais, a política e todas as formas de pensamento). O galego tem de ser a língua do Ensino, dos meios de comunicaçom, et cetera: a língua total. Ou é que se considera, como os “neocom”, que o desaparecimento das línguas é consoante o progressar para a modernidade?

Quando alguém di que nom é o momento oportuno para o anterior, que há que ir com jeito, pouco a pouco, pensa em verdade isso ou mais bem dá-se tempo para seguir instalado no sistema? Está muito difundida a ideologia de que a gente nom está pronta, que nom se pode favorecer o ódio ao galego, que há que proceder com meiguice. Como é que o sabe? Importa também a determinaçom.

O radicalizar-se a favor do monolingüismo vai levar a que os que tenhem umha visom morna, tépida, da língua se enfastiem e renunciem ao seu escasso compromisso?

As interpretaçons anteriores, cheias de psicologismo, nom serám pérfidas para o porvir da língua?

Claro que sempre haverá quem diga: como é que estás a falar por mim? Som eu quem escolho a língua e marco os ritmos… Quem pode crer por mais tempo que a língua é umha questom individual, que o imaginário social e a sua expressom nom é colectivo?

O poder simbólico, escrevia Pierre Bourdieu, é um poder económico, político, cultural. As palavras fam ver, crer, actuar. Mas onde é que reside o princípio dessa acçom, que condiçons sociais fam possível a eficácia das palavras? O poder das palavras desempenha-se sobre os que estám em disposiçom de as ouvir. Há toda umha cumplicidade entre um corpo social encarnado num corpo biológico, o do “porta-voz autorizado”, e os corpos formados para reconhecer as suas ordens. A submissom está inscrita nas posturas, nas pregas do corpo e nos automatismos do cérebro.


* Artigo publicado originariamente em Primeira Linha em Rede 2.0 .