Apresentação da AGLP em Bruxelas

Quinta, 09 Julho 2009 00:00

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Ernesto V. Souza, Concha Rousia, Carlos Durão e Joaquim Pinto da Silva

Carlos Durão - Nos dias 4 a 6 passados, a Academia Galega da Língua Portuguesa desenvolveu em Bruxelas diversas atividades, culturais e de relacionamento com o Parlamento Europeu. Iniciáram-se com a apresentação do livro “Galiza: língua e sociedade”, primeiro anexo do Boletim no. 1 da AGLP, na livraria Orfeu, no dia 4 à tarde.

A livraria Orfeu está especializada no livro português e galego, e é regentada por Joaquim Pinto da Silva, «galego do sul», como ele gosta de se chamar, e como assim é, pois este grande amigo da Galiza leva a vias de prática os melhores ideais duma Portugaliza sonhada.

Exemplar do Atlas Histórico da Galiza na livraria Orfeu de Bruxelas


Na apresentação participáram, além dos três académicos Concha Rousia, Ernesto Vázquez Souza e Carlos Durão (nesta ordem), a deputada do BNG no PE Ana Miranda e o próprio Joaquim Pinto da Silva.

Joaquim iniciou o ato com uma introdução necessária do livro e da AGLP para o público ali reunido. Disse que era mágoa não se ter convocado o ato para a volta das férias, de maneira que pudessem assistir mais pessoas. Mas ainda assim podiam-se contar umas 20, ao todo, entre elas um timorense (que não falou, mas que tomava muitas notas), vários funcionários portugueses do PE, colegas galegos, etc.

 


Ernesto Vázquez Souza, Concha Rousia, Carlos Durão e Joaquim Pinto da Silva
na apresentação que teve lugar na livraria Orfeu de Bruxelas


Referiu-se também o Joaquim à comunidade de fundo entre os povos de aquém e além Minho (em ambos os sentidos), nunca tronçada ao longo da história apesar da fronteira política traçada entre os dous Estados por cima da realidade que a transcende: a raia não é fronteira.

A seguir Ana Miranda falou de o galego ser a forma do português na Galiza, que tem pleno direito a ser usado no PE, o que tem o precedente dos deputados Camilo Nogueira e José Posada que, falando cada um com o seu sotaque, fôram interpretados nas cabinas de português, ficando assim registadas as suas intervenções no livro das Atas na nossa língua internacional.

Concha explicou a génese da AGLP, desde os Colóquios de Bragança e antes, com as propostas de Ricardo Carvalho Calero e Martinho Montero Santalha, e deixou claro que ela falava no seu galego do norte da raia, que é comum com o do sul, numa zona do interior com caraterísticas próprias que a diferenciam do resto da Galiza e de Portugal. Também falou do Couto Misto, e da naturalidade com que as gentes de ambos lados da raia se relacionam sem repararem em se são do N ou do S.

Ernesto apresentou as produções e os projetos da AGLP, como o Boletim, o DVD da inauguração e o Léxico da Galiza para ser integrado no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa. E disse-nos que a Galiza não vai perder o seu caráter pelo que irá a acontecer nos próximos anos, pois durante pelo menos os derradeiros 5.000 anos vem reproduzindo a sua forte identidade num habitat fortemente humanizado. Ah!, e lembrou-lhe aos portugueses que a palavra “pedra” não é particularmente lusa nem brasileira, mas... galega! O humor não impediu, antes ajudou a partilhar connosco a sua erudição.

Eu fiz um percorrido pelos ensaios do livro objeto da apresentação, procurando dizer algo informativo sobre os autores e o conteúdo para um público não galego. Cá e lá fazia excursos explicativos para arredondar alguma ideia do reintegracionismo, sempre pensando nos que se achegam à problemática desde as coordenadas de quem não tem questionada a sua identidade linguística e acha difícil entender a nossa urgência.

No colóquio interviéram tradutores e funcionários portugueses do PE; o ambiente foi-se animando até abranger a maior parte do público (incluídos Miro Momán e Suso Requena), com todos nós, que tocamos afinal todos os temas fundamentais da nossa problemática: o acosso não declarado do Estado Espanhol (denominado Reino de España) à língua própria da Galiza, a Constituição Espanhola, propositadamente desigual para as línguas estatais, a trajetória da sociolinguística galega nos derradeiros 30 anos (a começar pelo próprio editor do livro apresentado, António Gil Hernández), a justificação para se fundar a AGLP como entidade galega cívica, orientadora da língua nacional da Galiza, etc.

No remate veio à baila a utilidade ou não das línguas ditas menos extensas: o pano de fundo era se não seria melhor sacrificar o uso de línguas oficiais como o gaélico ou o maltês (entre as 23 do PE) em benefício do inglês, para poupar os custos de tradução cada vez maiores.

A seguir assinamos exemplares do livro, e do Boletim, que o Joaquim já tinha na sua livraria (como também o DVD, trípticos da Pró-AGLP, e ainda o Léxico da Galiza, que lhe foi presenteado).

O ato resultou muito positivo, não só para a AGLP, mas também para a valente livraria Orfeu, onde se vêm realizando desde há muito tempo atos deste tipo, palestras, concertos, etc., num quadro geral galego-português (alguns nomes: José L. Fontenla, Fernando Venâncio, César Varela, Isabel Rei).

O outro alvo da visita da AGLP a Bruxelas era o relacionamento com o PE. Mas o domingo, 5, passamo-lo em visitas à cidade ou, no meu caso, acolhido à generosa hospitalidade do Joaquim e a sua esposa; com eles tive tempo para tratar os temas “galécios” muito queridos para nós, e falarmos de atividades e projetos.

Com eles fui convidado ao lar doutro “galego do sul”, neste caso do Barroso, e ali pude escuitar uma fala bem galega, até com a adversativa “pero”, assim pronunciada, paroxítona, que os dicionários portugueses dão como antiga ou arcaica. E falava-se da raia, do Couto Misto, de Lôvios e Entrimo, do Ginzo, como de lugares que estavam aí à mão.

O facto de a casa do Joaquim estar situada nos arredores de Bruxelas, na zona flamenga, deu-nos pé para refletir na imersão total na língua própria, levada a cabo até com beligerância, dita intransigente, pelos francófonos; mas é difícil ver-se uma alternativa para os flamengos manterem a sua identidade (como não fosse a independência). Dá que pensar para nós.

Reunimo-nos em fim, à tardinha, com o grupo galego, ao que se sumou Xavier Queipo. E com Ana combinamos a visita ao PE no dia seguinte.

 

Carlos Durão, Ana Miranda e Concha Rousia no Parlamento Europeu


Na segunda, 6, fomos ao PE com Ana; entramos no moderno edifício, onde tivemos que nos deixar retratar por uma câmara automática, para se fazer uns passes que nos identificassem cada vez que havia que passar um controlo automático.

Ana mostrou-nos as confortáveis dependências do “nosso” parlamento, na “nossa” capital. Retratamo-nos na tribuna do grande auditório das sessões solenes. Conversamos sobre questões linguísticas e outras. Continua a ser possível seguir o precedente do Camilo no PE de empregar ali a nossa língua. Mais uma vez, constatamos a “inveja” dos deputados bascos e catalães, que não têm essa opção e que não entendem como é que as instituições galegas não a aproveitam.

Jantamos todos, junto com o Joaquim (que voltara do seu escritório no PE, onde trabalha), no refeitório do local. Ele mencionou que seria útil  divulgar mais em Portugal a história da língua comum, a origem e o nome, porquê ela, nada na Galécia, chegou a se conhecer internacionalmente como português, etc.

Em fim, entrando já a tarde, chegou a hora das despedidas; todos um pouco saudosos, mas muito gratos pela amabilidade da Ana Miranda, com quem prometemos manter o contato no futuro.

Concluímos que a AGLP é levada a sério nas instituições europeias, que tem um grande amigo no portuense Joaquim, e que representa um grande valor para a sociedade galega e a Galiza.