A AGAL em Torre de Moncorvo

Espólio Santos Júnior: um tesouro para o relacionamento Galiza-Portugal

Sexta, 02 Outubro 2009 00:00

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Elvira Cuevilhas: «O meu pai foi sempre lusista partidário da convergência com o português»

Alexandre Banhos - No passado 26 de setembro às 11h00 foi inaugurada, no Centro de Memória, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, a exposição documental e fotográfica: Diálogo de dois intelectuais em torno da História e da Cultura do Nordeste Transmontano: Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior e António Maria Mourinho.

Em representação da AGAL lá esteve uma comitiva galega de até sete pessoas, num evento em que muitas cousas vieram à tona.

Na organização do evento participava a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, a Câmara Municipal de Miranda do Douro, e a família Santos Júnior.  A professora Maria Olinda Santana, da Universidade de Trás-os-Montes, foi a organizadora da exposição, colaborando com ela uma doutoranda, junto com o pessoal das bibliotecas municipais de Torre de Moncorvo e de Miranda do Douro.

Todas essas pessoas e entidades foram que realizaram os maiores esforços para que o evento pudesse ter lugar com o apoio entusiasta da família Santos Júnior. No acto estava Norberto Santos, filho de Santos Júnior, os filhos deste, netos do casal Santos Júnior: Norberto, Jorge, Alexandra. Estavam também bisnetos de Santos Júnior, noras, genros...

 

Convite oficial ao Conselho da AGAL

Da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e da família Santos Júnior houve um convite ao Conselho da AGAL para a sua participação no evento, dada a ligação dos dous vultos homenageados, especialmente Santos Júnior, com a Galiza. Ademais houve um convite individual a vários dos membros do anterior Conselho da AGAL por parte da família e da Câmara Municipal.

Ante a impossibilidade de assistirem membros do actual Conselho, este esteve representado por vários membros do anterior. Deslocamo-nos a Torre de Moncorvo: Isaac Alonso Estraviz, -a quem muito querem já-, Manuela Ribeiro Cascudo, José Paz Rodrigues, Ana Cabanas, Margarida Martins e Alexandre Banhos, sendo acompanhados por Elvira, filha de Florentino López Cuevilhas.

Florentino López Cuevilhas foi muito amigo de Santos Júnior e dele figuram mais de 300 cartas no espólio Santos Júnior, todas elas escritas num galego com norma AGAL muito antes de que esta norma existir. Como dizia a Elvira, «o meu pai, foi sempre lusista partidário da convergência com o português», cousa que nenhuma biografia de Cuevilhas cita.

Na exposição estava uma foto de Santos Júnior com uma formosa moça galega na altura dos anos 50, que não era outra que a própria Elvira, que continua a ser uma mulher muito formosa e cheia de luz e agarimo.

 

Evento emotivo

No acto falaram a directora da exposição Olinda Santana, a directora da Biblioteca de Torre de Moncorvo, Helena Pontes, que tam bem tem organizado o espólio Santos Júnior, ou toda a sua grande e interessante colecção de pergaminhos, com a ajuda de outras funcionárias obsequiosas e eficientes, que muito aprezam as gentes da AGAL que lá foram, bem como farão todos os galegos e galegas que até lá se deslocarem, pois acharão nelas o  melhor dos apoios.

António Maria Mourinho entre outras muitas cousas, trabalhou toda a sua vida pola dignificação do mirandês, hoje segunda língua oficial de Portugal graças ao seu trabalho e contributo.

Logo a seguir falou Norberto Santos, filho de Santos Júnior, que o acompanhou toda a sua vida sendo na prática o seu melhor secretário. Foi com grande emoção que todos as pessoas do auditório escutamos as suas palavras. Disse que para o seu pai, a Galiza estava dentro da portuguesidade -a Portugaliza-, lembrou que Santos Júnior durante toda a sua vida teve dous livros de cabeceira e os dous eram a suas leituras mais agarimosas: Os Lusíadas de Luís Vaz de Camoes e Cantares Gallegos de Rosália de Castro, além de comentar muitos outros feitos interessante dele e relações que no caso galego foram inúmeras.

A seguir falou o presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo Fernando António Aires Ferreira, que começou por desculpar a ausência do presidente da Câmara de Miranda do Douro -em plenas eleições-.

Depois o presidente da Câmara deu a palavra a Elvira filha de Cuevilhas, que fazia parte da representação galega. Elvira falou do casal Santos Júnior, Joaquim e Judite, da sua relação com eles, do que significava o relacionamento com Portugal para o seu pai... num tom intimista e emocionante.

Todos os assistentes ao acto estávamos logo a seguir convidados a um porto de honra.

 

Galeria fotográfica

 

Jantar à galega revelador

Mais tarde a Câmara Municipal de Torre de Moncorvo convidou a jantar os organizadores, a família Santos Júnior e a representação da Galiza, o qual nos permitiu continuar a troca de informações, aprendendo cousas reciprocamente.

O presidente da Câmara de Torre de Moncorvo perguntou algumas questões a respeito do actual presidente do governo autonómico que Elvira Cuevilhas, com a sua ternura, descreveu como um pandilhero (malandro). Afirmou mesmo que essa definição tão ajustada procede de Olga Gallego.

Elvira contou que esteve acompanhando a Olga Gallego no acto da Casa dos Poetas em Cela Nova, no qual Olga, que esquecera o audífono, não pudo acompanhar a clara mensagem do Presidente da RAG a Feijóo, de que este não se deu por inteirado gestualmente. Ao final havia uma homenagem a Olga Gallego, a quem Feijóo se achegou para se despedir, deu-lhe umas palmas,  estilo barucho,  nas costas, e dixo-lhe:  adios jefa, com gestos e maneiras, que não se correspondem com quem é presidente da Galiza é sim com um adolescente pandilleiro (malandro).

Elvira disse, assumindo a percepção de Olga, que temos um presidente na Galiza que, infelizmente, nos envergonha a todos os galegos e galegas, não sabe o que é educação e nas formas, estamos aviados.

 

Um tesouro inacreditável

Depois do almoço e após saudar todas as pessoas que compartiam tam gratos momentos, os representantes da Galiza fomos convidados pola família Santos Júnior à sua casa. Provavelmente a mais impressionante casa de Torres de Moncorvo, que antes de ser casa da esposa de Santos Júnior foi convento e liceu.

A casa é maravilhosa e está cheia de maravilhas. Santos Júnior, era licenciado em Letras e mais tarde em medicina, e ali há trabalhos dele nos mais diversos campos, com especial destaque para as muitas pesquisas que realizou em Moçambique, ou no campo da ornitologia... Lá estivemos a remexer nas cousas sob a atenta e tolerante olhada de Norberto e os seus filhos, noras, genros, netos e bisnetos, dignos descendentes do casal Santos Júnior.

Quando na AGAL descobrimos por acaso o tesouro Santos Júnior em Torre de Moncorvo, ficamos espantados do que ali havia. O professor Estraviz, que tem publicado alguns livros sobre o relacionamento da Galiza e Portugal, dizia: isto é um tesouro inacreditável. Desde essa ocasião já são muitos os dias que tem passado Estraviz em Torre de Moncorvo pesquisando nos fundos Santos Júnior, fundos impressionantes a respeito da Galiza, sem comparança com nenhum dos muitos vultos que se citam freqüentemente no relacionamento Galiza-Portugal, salvo Rodrigues Lapa (ainda que os documentos são muitos mais abundosos neste caso).

E o mais surpreendente é o feito de que até que começou o Conselho da AGAL a mexer ali, o espólio Santos Júnior era praticamente desconhecido na Galiza. Como dizia Estraviz, «quando souberem nas universidades e os pesquisadores o que aqui há, vam vir todos como moscas, há material aqui para fazer várias teses de doutoramento, para fazer uma tese sobre custo da vida e economia da Galiza e Portugal».

Ha cartórios para escrever bastantes livros sobre o pensamento de toda uma geração de galegos que tiveram tratos com Santos Júnior, além disso está o espólio na mesma ordem que a deixou o professor, muito bem ordenado e muito acessível.

No espólio Santos Júnior estão organizadas milhares de cartas com toda a gente que formava a Geração Nós, de Castelão a Otero Pedraio. Santos Júnior acompanhou toda a actividade política do galeguismo (assistiu a constituição do Partido Galeguista), foi íntimo de Ângelo Casal, muitas primeiras edições dele estão ali dedicadas. Foi membro correspondente da RAG.

Torre de Moncorvo tem muitas cousas para fazermos uma viagem até lá, mas para qualquer pessoa interessada na cultura galega, no pensamento galeguista e o seu relacionamento com Portugal, é desde já de visita obrigada. Há, ademais, perto da biblioteca, no mesmo centro de Moncorvo, uns estabelecimentos de turismo de habitação (rural) magníficos em todos os sentidos.