Alípio de Freitas aconteceu

Crónica dos I Encontros na Lusofonia, Cangas 08

Segunda, 01 Setembro 2008 19:31

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Alípio Freitas (Foto: Sapo.pt)

Isabel Rei -  Livre e lúcido, vindo do Sul, com a tranquilidade e delicadeza que dão os anos às pessoas que muito trabalharam por construir melhores realidades, falava há poucos dias em Cangas, Alípio de Freitas. Veio para participar no I Encontro na Lusofonia realizado nessa vila galega, os dias 21 e 22 de Agosto, que neste primeiro ano foi dedicado ao poeta e cantor português José Afonso.

Alípio de Freitas nasceu em Fevereiro de 1929, em Bragança, Trás-os-Montes. Foi padre em Portugal e revolucionário no Brasil. Jornalista, promotor e dirigente de diversos movimentos sociais e associações cívicas. Sobreviveu o sequestro, e mais tarde, a tortura em cárcere brasileiro. Hoje é uma lenda bem viva da resistência revolucionária.

Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso
Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Canção: «Alípio de Freitas»

Letra e música: José Afonso, o Zeca

 «De pé no chão também se aprende a ler»

Era o lema das escolas populares que promoveu, ainda padre, em São Luís do Maranhão, no Brasil, onde a partir de 1957 surgiram os seus primeiros contatos com o movimento camponês. Daí sairia a ATAM, Associação dos Trabalhadores Agrícolas do Maranhão, que em 1962 contava com mais de 70.000 camponeses organizados.

Professor na Faculdade de Filosofia de S. Luís. Manteve intensa atividade no «Jornal do Povo» e no «Jornal do Maranhão». Programa diário na Rádio Timbira. A Cúria reprovou a sua atividade revolucionária e desligou-se da hierarquia da Igreja. A seguir assumiu o seu lugar nas Ligas Camponesas e foi eleito para a Secretaria Executiva da Frente de Mobilização Popular. O golpe militar de Março de 1964 apanhou-o no Rio. Exilado em México e Cuba, voltou ao Brasil clandestinamente. Preso em Maio de 1970. Peregrinação pelas prisões brasileiras. Livre em 1979. Depois, apátrida, enleio burocrático. Mais tarde, Moçambique. Atualmente mora no Alentejo.

Em Lisboa foi fundador, em 1993-94, da CBL, Casa do Brasil de Lisboa. Fundador em 2004 da Casa Grande do Brasil, no Seixal, associação que atende às necessidades e interesses das comunidades brasileiras na margem esquerda do Tejo (Almada e Seixal). Presidente da Associação José Afonso. Desde 1999 é professor convidado pela Universidade Lusófona de Lisboa. Membro do Tribunal Mundial do Iraque. Divulgador e promotor do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra em Portugal. Acaba de registrar a associação Lisboa – Ponto de Cultura, que tenciona promover as relações interculturais na cosmopolita cidade de Lisboa.

 

Mesa Redonda da Lusofonia (Cangas 2008)
 

 De esquerda a direita: Henrique Harguindey, José Pumar, Alípio de Freitas e Xico de Carinho


O homem e a canção

Alípio de Freitas aconteceu. E depois disso, veio e falou para nós ao longo de uma hora e meia. Lembranças e recordações da sua amizade com Zeca Afonso. Houve um tempo em que ele nada sabia da canção que o Zeca lhe tinha dedicado. Conheceu só depois de 1979. O seu nome tinha percorrido o mundo inteiro entre os países lusófonos e as gentes da diáspora. O Zeca cantava Alípio por toda a parte. Os discos distribuíam-se. A revolução dos cravos também tinha acontecido. Mas Alípio de Freitas continuava em cárceres brasileiros onde não chegava a música. Depois ele soube. Então suspeitou que o sucesso da revolução em Portugal, unido ao sucesso das canções do Zeca, fizeram pressão suficiente nos seus carrascos para ele continuar vivo: «Eles querem manter um bom nome. Impossível eles terem, mas eles fazem como que têm

Contou como foram os últimos meses do Zeca no hospital. Doença grave, Zeca Afonso e Alípio de Freitas em conversa sem fim, diariamente alimentada por anos e anos de amizade intensa e motivos continuadamente renovados. Temas em comum, compreensão funda, vontades afins. Emocionei-me quando reconheceu que hoje continuava a falar com ele, seu amigo, porque fora embora deixando a conversa sem rematar. Mas, pensei, isso só se pode fazer aos amigos, só eles sentem a falta de quem deixou a conversa na metade.

 

Alipio na expo José Afonso
 

De esquerda a direita: Guadalupe Magalhães, Isabel Rei, Alípio de Freitas e Xico de Carinho


Luanda e as versões do Zeca

A mesa redonda girava arredor de José Afonso, quem em 1979 tinha estado em Cangas, convidado pela Câmara Municipal eleita em 1978, para a realização de um concerto dentro do programa das festas patronais. Antes que Alípio de Freitas falaram Xico de Carinho, músico e organizador do evento. José Pumar, músico, musicólogo e professor de música no ensino secundário. Henrique Harguindey, escritor, que em 1979 era Concelheiro da Cultura no Concelho de Cangas e responsável pela organização do concerto do Zeca.

Depois houve música, primeiro veio a do grupo Follas Novas e, finalmente, cantou a filha de Alípio e de Wanda Cozetti, Luanda Cozetti de Freitas, acompanhada pelo excelente guitarrista Norton Daiello (Couple Coffee). Deliciosas versões da música do Zeca na voz feminina, acompanhadas com ritmos e harmonias brasileiras que, de jeito absolutamente natural, forneceram uma nova interpretação das canções que tantas vezes fizeram e fazem vibrar os corações nas gentes lusófonas.

O Zeca, de novo, unindo

Eu conhecia Alípio de Freitas, a canção. Mas nunca imaginei que poderia vir a conhecer a pessoa, vir a ter à minha frente o indivíduo ainda combativo, em carne e osso, a me cumprimentar com um sorriso. A sua presença dá ainda mais sentido à canção, e por extensão, a toda a obra do Zeca. Impede o esquecimento da sua luta e da música que ele inspirou. E, sobretudo, estabelece uma ligação poderosa entre a revolução brasileira, que ele ajudou a fazer, a portuguesa, em que esteve envolvido o Zeca, e a galega, que o Reintegracionismo se propõe levar adiante.

Porque Alípio de Freitas quer em pessoa, quer em canção, esteve nos quatro cantos do mundo lusófono pelo que hoje trabalha, e, como antes tinha feito José Afonso, falou na Galiza em português sentindo-se na casa, no cerne da sua identidade. No cerne da Lusofonia.

 

Letra da canção que se acha no álbum intitulado «Com as minhas tamanquinhas», de José Afonso, e vídeo da versão musical realizada por Couple Coffee e Júlio Pereira.


 Discurso de Alípio de Freitas na homenagem a José Afonso, o dia 14 de Abril de 2007, em Lisboa:

 

   PARTE: http://br.youtube.com/watch?v=ueWUAx9vMqI

 

PARTE: http://br.youtube.com/watch?v=ayruej59vcU

 

Entrevista de A Nossa Terra a Alípio de Freitas, publicada na ediçom 1.213 de 28 de Março de 2006:

 

Alipio de Freitas: 'José Afonso é unha alavanca para non esquencer as conquistas do 25 de abril'