Visões portuguesas da Galiza e da sua língua

Crónicas das III Jornadas de Língua em Ourense (I)

Sexta, 29 Janeiro 2010 00:00

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Nuno e Joana na sala da Universidade

António Carvalho - Mostrar que a nossa língua é universal, mostrar que o convívio entre galego e castelhano teve uma série de consequências para o galego e mostrar modelos de língua com o objetivo do professorado transmitir o melhor do galego ao seu alunado, eis os objetivos das Jornadas de Língua que deram a andamento no passado dia 27 de janeiro em Ourense, numa sessão inaugural voltada para Portugal.

Espanha exótica e o irmão pobre

Joana de Medeiros, açoriana, leitora de português na Universidade da Corunha, chegou à Galiza fascinada pelo galego... mas logo ficou desapontada. A Joana desistiu das aulas de galego CELGA, ficou chateada porque viu que o que lá  aprendia apenas era uma normativa, mas não um instrumento de comunicação. Ainda, bateu com a crua realidade: "na Corunha, de facto, ninguém fala galego".

Mas, por outro lado ela achou grande dificuldade em ensinar português aos galegos, mesmo teve que fazer "malabarismos" de tentar descobrir o que era diferente pois "restava muito pouco que lhes ensinar".

A respeito das visões portuguesas sobre o galego e a Galiza, a Joana fez um exercício de pedagogia e até investigação com amizades, familiares, vizinhança... As respostas que obteve foram esclarecedoras: o conhecimento da Galiza e a sua língua continua a ser quase nulo em Portugal.

Quase nulo, pois o turismo como destino até exótico, a religião com o pólo de Santiago de Compostela e o trabalho de portugueses na Galiza, nomeadamente nas obras, são as três percepções maioritárias na população portuguesa sobre a nossa terra.

A Joana apontou, finalmente, algumas hipóteses para tentarmos dar a volta a esta situação. Mas a sua exposição deu para mais e lançou uma pergunta ao ar: Qual a visão galega sobre os portugueses? Há a percepção de que somos o irmão pobre?

 

Nuno, Joana e Daniel

 

Há esperança: une-nos uma língua diferente

O Nuno, um projeto de construtor, sente paixão pela Galiza. E como é que isso surgiu? Primeiro, quando novo, viajou com os pais a um destino exótico: Espanha, a Espanha das Quintas (em Samora) e a Espanha da Póvoa (na Galiza). Logo percebeu que qualquer coisa acontecia na Galiza, mas as suas primeiras experiências foram mesmamente desalentadoras. Mas o Nuno persistiu, e pegou na internet, no PGL, começou a conhecer pessoas, começou a ser um solidário ativista...

Concordou com a Joana em que para o português médio o conhecimento sobre a Galiza resume-se em El Corte Inglés de Vigo; em Baiona, Sangenjo e marisco, isto é, a praia em Espanha; em Santiago de Compostela e a religião.

E pouco mais, com muito pouco conhecimento histórico acerca das ligações da Galiza e Portugal e da própria língua, ou "o dialeto muito parecido" que ainda é falado aqui. E esse desconhecimento foi em aumento no último século, salientou o Nuno, embora algumas iniciativas surgidas nos últimos anos a nível quer político, quer cívico, tentem reverter a situação.

Enfim, o Nuno também não enganou ninguém. Falarmos em proximidade é demais... pois para a maioria dos portugueses não interessa essa proximidade: "quando as pessoas vão a El Corte Inglés, a Baiona... o que querem é justamente o contrário, ‘distância', e ‘exótico’”.

Como a Joana, também apontou estratégias para a proximidade, algumas já em andamento: o aproveitamento da proximidade geográfica e a melhora da rede de auto-estradas; a potenciação da proximidade cultural através de projetos como Ponte nas Ondas; a importãncia crescente do Agrupamento Europeu de Cooperação Transfronteiriça (Eixo Atlântico), o terceiro ente deste tipo na União Europeia que visa promover projetos comuns; a candidatura à Unesco dos Castros do Noroeste peninsular e mesmo a hipótese de recuperação de uma segunda candidatura a respeito da cultura imaterial galego-portuguesa; a retransmissão das televisões portuguesas na Galiza...

Mas justo no final o Nuno deitou esperança ao auditório e sentenciou: une-nos uma língua diferente. E não contamos mais... Depois vieram as conversas, os bons petiscos e o divertimento em amizade.

Enfim, uma jornada para não esquecermos. De aqui, um abraço fraternal para o Nuno e a Joana.

 

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