O sítio da minha embala

«Tivemos o prazer de acompanhá-los nesta turné, realizada por inciativa da AGAL, em condição de groupies, roadies, managers, cicerones e, em definitiva, fãs»

Terça, 16 Março 2010 08:39

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Aline e César deram na Galiza cinco concertos em quatro dias

Cátia Faria e Pablo Blanco - Aline Frazão e César Herranz tomaram, na passada semana, a Galiza como sua embala. Viagem louca ao ritmo de cinco concertos em quatro dias, através das terras galegas de Vigo, Corunha, Lugo e Compostela.

Nós tivemos o prazer de acompanhá-los nesta turné, realizada por inciativa da AGAL, em condição de groupies, roadies, managers, cicerones e, em definitiva, fãs. No final, um sabor amargo de boca por saber a pouco e a vontade gritante de um regresso para já.

“Embala” é uma palavra do português de Angola que vem do kimbundu “bwala”. Uma bwala é uma comunidade, uma aldeia, um bairro. A minha embala é o lugar de encontro de Aline e César, um duo inesperado de uma angolana de Luanda na voz e guitarra e um segoviano de Chañe na flauta transversal e percussão, com a música de diferentes origens e em diferentes línguas no seio da lusofonia.

Aline e César têm pois a particularidade de não serem originários da Galiza. Contudo, ambos, com diferentes sotaques, falam português (César está a começar), sendo esta a língua que utilizaram, na oralidade e na escrita, para gerir a turné, no contacto com organizações e públicos bem diversos do país.

Para quem interage habitualmente com pessoas de países com o português como língua oficial, resulta natural utilizar o galego na comunicação e perceber o português do outro como versão linda e rica do seu próprio português. Mas também é sabido que esta é uma percepção longe de ser familiar à maioria da população galega e, por isso mesmo, a minha embala surpreende. Atraindo galegos e galegas a descobrirem-se linguisticamente competentes fora das fronteiras da Galiza, a minha embala fala por nós. E fá-lo com a naturalidade e a graça necessárias a que todos entendam.

Estamos na Corunha, na Bilioteca Municipal do bairro de Sagrada Familia. Somos recebidos num alegre galego por todo o pessoal da Biblioteca. Mas interagimos com mais pessoas à volta e há quem prefira o castelhano. Aline pode falar um perfeito espanhol, mas perante os convites decide desconseguir, e antes de sair à cena diz que começa a achar piada à brincadeira.

Aline canta e encanta o público da Corunha, e fala claro: “dizem que o galego não é útil mas a mim serve-me para comunicar com vocês”, e à saída, devorados pelas artes de uma embala inesperada e próxima, muitos tiram de 3 em 1 para engraxar o seu galego e conversar com a cantora um bocadinho.

Longe do debate cansado, tudo o que é preciso é conviver. Quem tem a experiência
percebe a evidencia de que falamos a mesma língua. E, mais, conhece a estranha sensação de estar à vontade, como em casa. E essa é a matéria prima de uma comunidade, uma “embala”, que já existe e está aberta ao nós local, surpreendida e cálida, procurando-nos também.

Aline e César dão-se a este encontro e, como se não bastasse, gostam de nós; andam à procura de uma peça de família que lhes faltava e acham que pode ser cá connosco. Aqui, a Norte do Norte. Passeiam de carro pela costa da Corunha, ou pelo tal caminho, de Lugo para Arzúa e ficam algo entre surpreendidos e fantasiados, pensativos e sedados: “será que já somos um bocadinho de aqui?”

 

Capa do último trabalho da Aline
[a maquete pode ser escutada gratuitamente aqui]

Entretanto, nós ficamos a sonhar com o Sul, o nosso Sul, que pode ser Angola, Cabo Verde, Brasil. Um concerto de a minha embala é um autêntico alegato meridional. Ficamos golpeados, bloqueados, cegos pelo sol, mas também acendidos, dispostos a agarrar as malas, prestes a sair comprar tabaco. Galiza tropical sempre palpita, e não faltam vias marítimas abertas ao passaporte galego-português.

Sábado à noite, último concerto; a Gentalha do Pichel homenageia a origem angolana de Aline com a omnipresença da bandeira nacional e uma deliciosa moamba. Aline actua de oradora com o objectivo de fazer-nos aterrar nas muitas caras de Luanda. O seu olhar crítico não apaga, contudo, a sua paixão: “Gostava de levar-vos todos para lá”.

Começa o concerto; um público conquistado de antemão, mas estático pelo stand by de fim de semana compostelano, tenta acreditar que a Aline existe mesmo e que está mesmo a cantar assim. Só um instante porém, até a batida possuída do César provocar as nossas oquedades. Acedemos. Somos, de imediato, assaltados, pela nítida nudez da voz de Aline. Delicada, quente e sem vergonha. Cantamos ou a Aline canta-nos, com o sorriso sincero da descoberta. Entretanto, o César desenha na flauta transversal as mais bonitas narrativas da minha embala, marcando outras com o domínio forte do djembê. Entramos neles e não aceitamos que isto termine. Eles agradecem e levam-nos até um terceiro bis pouco ensaiado. Um presente reservado para o melhor final, uma declaração de intenções, e, porque não, um roteiro para depois do cansaço, da desorientação: “O que eu quero” de André Mingas:

Gente buscando em vão uma esperança
Um sorriso, uma flor, uma palavra amiga
Procurando agarrar hoje o tempo
Falar de amor, de carinho e de paz
Colher jasmim…
Fazer poesia com todas as letras
Contar as estrelas, saudar a vida
E ver os deuses iguais a mim.




A minha embala são uma festa para os ouvidos e um presente para o espírito, além disso são encantadores e, atenção, estão mesmo disponíveis para tocar na Galiza. Podes saber mais deles e contactá-los através de www.ositiodaminhaembala.wordpress.com

 

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