Polas vereias da galeguidade: um discurso reintegracionista em Alcalá de Henares

«O galego-português da Galiza não é apenas a língua que herdamos dos nossos avós, mas ainda que só fosse por isso, temos a obriga de a transmitir os nossos filhos com a maior qualidade de que sejamos capazes»

Terça, 15 Junho 2010 00:00

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José André Lôpez Gonçález - Desde há anos, bem que com alguma intermitência, a Associação Galega Corredor do Henares[1] sai às ruas desta bisbarra castelã a cavalo das comunidades autónomas de Madrid e de Castela-a-Mancha[2] para celebrar e reivindicar a existência da cultura galega como povo diferenciado no mundo numa saudosa e sentida comunhão espiritual com a terra dos ancestrais.

Por vários dias as gaitas, os tambores, bombos, pandeiros e pandeiretas do grupo folclórico da Associação, Vagalume, enchem de melodias as ruas e praças da comarca do planalto ibérico e os cenários olham as danças, briosas às vezes, delicadas outras, das carvalhesas, moinheiras, foliadas, pandeiradas e jotas, fendidas amiúde por atroadores aturujos, brado primordial e rebelde que jorra no alambor da nossa alma dos tempos mais recuados e do mais inveterado da história comunal surgem num hino solene de amor e tristeza, as vozes corais entoando velhas cantigas cultas e populares de ímpares pérolas poéticas e melódicas.

Um intenso mês de Maio que dá cabo com uma romaria onde o povo emigrado recria ao pé do adro da Ermida da Virgem do Vale[3] uma tradicional festa da Galiza e nunca se bota a faltar a gastronomia mais castiça —arte requintada do gênio do nosso povo criada no decorrer dos séculos— de empadas, filhoas, polvo à feira, queijos da Ulhoa e da Arçua, chairegos de São Simão da Costa e agres montanheses do Zevreiro, mel da Fonsagrada, marmelos ourensanos, amêndoas e aguardante-de-café de Alhariz, moreno pão luguês, vinhos vermelhos como o sangue do Vale d'Eorras e Castrelo do Minho ou dourados como a folhagem das videiras em outono do Condado e do Salnês[4].

A festa atingiu tal sona na contorna que mesmo muitas pessoas sem serem galegas, nem de nascimento nem de origem, fizeram-na sua e não faltam em tempo devido à cita.

O Presidente da Associação Galega Corredor do Henares apresentando a palestra
[De esquerda para a direita: J.A. Lôpez Gonçâlez, Valentim R. Fagim e Manuel Rua Vázquez]

Mas, o que por cima de tudo ocupa um lugar de destaque é a nossa língua nacional, o sinal de identidade que nos faz sermos galegos, pois «seríamos sem fala uns ninguém» como nos ensinou bem vezes o saudoso Manuel Maria e na Associação Galega de Alcalá (daqui em diante AGCH) o nosso falar ainda é «a língua dos avós que temos mortos», que dizia com grave voz e cabal acerto o grande vate de Cela Nova, Celso Emílio Ferreiro.

E deste jeito, dos cantares corais até à missa, cantada polo Coro Vagalume da AGCH e oficiada polo padre Manuel Rubianes, sócio de velho que abriu os olhos ao mundo em Vila Garcia e foi tonsurado em Alcalá de Henares; dos recitais poéticos até a revista Vagalume —órgão oficial da Associação— dedicada na totalidade à vida e obra do imenso poeta do Courel, Uxio Novoneyra. Tudo está em volta da mais maravilhosa obra de arte que criou o povo galego no percurso da sua dilatada história: o português da Galiza, com dourado e cubeiro recendo a vinho alvarinho envelhecido em pipos de avitos carvalhos, «moça casadeira já que, em vez de arrolos de nenos, cantigas quer de rapaz» que poetara há mais de um século o cela-novês Manuel Curros Henríquez. A nossa língua que se fez  forte e orgulhosa em Portugal, moça delicada e brincadeira no Brasil e rapariga alegre e galhofeira na África.

Assim, quando numa reunião da Junta Diretiva foi proposto para uma palestra Valentim Rodrigues Fagim, presidente da Associação Galega da Língua e académico da Academia Galega da Língua Portuguesa[5], além de professor e escritor de clara e alegre caneta, foi aceite por unanimidade. Alguém da Junta Diretiva lembrou que polas salas da Associação tinham passado ministrar palestras vultos como Francisco Rodríguez, Carlos Taibo e sobretudo o lexicógrafo, académico como Valentim Rodrigues e membro da Comissão Linguística de AGAL, Isaac Alonso Estraviz, de quem guardam grata memória pola sua simpatia e assombrosa erudição, os emigrantes em Alcalá.

Esmechava quando aterrou no aeroporto de Barajas proveniente da cidade santa de Compostela o Valentim, o mesmo dia 20 de Maio que havia ministrar a palestra e três dias após de muitos milhares de galegos e galegas manifestarem com firmeza a sua repulsa à política de não escondido etnocídio da Junta de Galiza[6]. Lá estavam para o receber, delegados pola AGCH, a courelã Maria do Carmo Mêndez e o Vice-Presidente da AGCH, José André Lôpez Gonçález quem, de caminho, trasladaram-se de carro para a cidade onde viu a primeira luz o autor do Quixote. Na viagem tanto a Maria do Carmo quanto o André setearam o académico e escritor com uma enxurrada de perguntas em volta do que  preocupa aos galegos e galegas, conscientes do que se anda a jogar o povo da Galiza nestes tempos de anovada e mais outra vez infeliz, longa noite de pedra: Como foi a manifestação? Enchera-se a Praça de Rajoi? Quais foram as palavras de ordem? Juntaram-se muitas pessoas à roda da faixa da AGAL e do reintegracionismo?

À direita, depois da palestra Valentim R.s Fagim departindo
com Maria do Carmo Domínguez e António Herrero

 

A todas foi respondendo com ponderada limpidez o autor de Do Ñ para o NH: Manual para transitar do galego-castelhano para o galego-português despejando, mesmo que fosse um nada, as negras nuvens que assombram o coração dos emigrantes, e não só, que acudiram à sua espera. Ainda fica a esperança!, dissera o André quando acabou de relatar o Valentim e Maria do Carmo acrescentou com uma pertinente citação de Afonso Rodríguez Castelão: «Nós temos fé no nosso povo e mui logo o nosso povo terá fé em nós».

Nestas andávamos quando chegáramos à cidade natal de Cervantes onde já nos aguardava Carme Maria Domínguez, vogal de relações externas da Associação Galega, uma tudense sempre ordenada e solícita que propôs que, após jantarmos todos juntos, havíamos fazer uma breve visita pola parte histórica da velha Complutum que o Valentim não conhecia para, já a seguir, irmos para as instalações do centro galego onde havia de se ministrar a conferência.

 

À hora justa começou a palestra com uma muito breve presentação do Presidente da AGCH, Manuel Rua Vázquez, que glosou a importância da celebração do Dia das Letras Galegas passando, decontado, a palavra ao José André Lôpez Gonçález quem, também muito brevemente, falou de quem fora Uxio Novoneyra, enfatizando que o grande poeta d'Os Eidos e Vietnã Canto, a quem ele tratou,  sempre acreditou na unidade fundamental dos falares da Galiza, Portugal e o Brasil, passando a ler um poema do poeta da alta montanha luguesa:

ALALÁS ENCADEADOS

É já hora de que sejas
Terra pátria dos teus
Dos que guardárom a fala
Em que mais se dixo “adeus”

E sejas dona de ti
E senhora de falar,
Senhora de decidir
E dona de se negar.

«Em que mais se disse adeus» —tornou repetir André— e um dos caminhos certos para que volte Galiza ser «pátria dos seus, senhora de decidir e dona de se negar», para não voltar dizer por atacado esse triste «adeus», para acabar de vez com o triste fado de sermos  carne pronta para a exportação polo mundo adiante, para isso não voltar acontecer nunca, nunca mais, cumpre acreditarmos nas joalheiras palavras que deixou para o presente e para a eternidade o grande Castelão no Sempre em Galiza: «O galego é um idioma extenso e útil, porque —com pequenas variantes— fala-se no Brasil, em Portugal e nas colónias portuguesas» (pág. 41-42) [a “Bíblia do galeguismo”, como é chamada a obra-prima do polígrafo rianjeiro, foi publicada em 1944, trinta anos antes da gloriosa Revolução dos cravos].

«Disto é —disse André— do que nos vem a falar o professor viguês Valentim Rodrigues Fagim, jovem de apenas trinta e oito anos, embora com toda a sabedoria às costas mamada nos peitos da nossa mãe comum, Galiza. E eu, sem mais lérias, concedo-lhe a palavra».

A exposição foi de tal singeleza, clareza expositiva e sem igual pedagogia que todos ficaram assombrados. As perguntas, num diálogo carinhoso e pedagógico começaram quando Iago Rios, jovem emigrante da terra de Amoeiro, perguntou se não havia perigo de perder o nosso falar o seu caráter castiço com a influência dos falares além Minho (sinal inequívoco do amor polas nossas particularidades linguísticas que o Valentim não renunciou tornar saliente, mas aclarando, aliás, que o perigo certo da perda do vernáculo não nos vinha dos falares e sotaques além-Minho, irmãos dos nossos e até os mesmos, mas do Planalto de Castela, alheios de todo a nós-outros no caminho da história. E o Valentim forneceu-nos uma magnífica mão cheia de elucidativos exemplos).

Uma outra perspetiva da sala após a conferência. Em frente, Salvador Guardià

O Presidente da Associação Galega da Língua passou, numa amigável retroalimentação, a nos perguntar acerca de personagens da cultura que se exprime em língua castelã que os assistentes foram respondendo acertadamente. O Valentim parabenizou-nos polo saber e a seguir fez algumas outras por se lhes soavam os assistentes os nomes de vultos importantes da cultura ligada à fala galego-portuguesa. Não fez falta que ele próprio respondesse. Todos ficaram com a ideia muito clara de estarem submersos num estorcimento alienante que nos arreda mais cada vez do espaço cultural que nos é próprio e que nos empobrece ao tirarmos o conhecimento de um mundo que as autoridades adrede conseguem que desconheçamos.

Quais as soluções para que isto não aconteça? Perguntou ele e logo depois a primeira solução: a recepção aberta dos canais de televisão portuguesa na Galiza e uma segunda para já: a implementação das aulas de português na Galiza.

Como ele indicou, com dados certos na mão, o esforço do governo da Estremadura espanhola para dotarem os escolantes do conhecimento do português, apostando assim os responsáveis políticos estremenhos, com inteligente visão de futuro, por um mercado que se apresenta mais cada vez como muito importante no mundo. Mas, façam vocês próprios a pergunta e respondam para si: Porque nos é vedado, porque nos é tolhido aos galegos o que é livre para os estremenhos espanhóis? Porque a nós, que somos quem temos maiores possibilidades, e não apenas para as pessoas, mas também para muitas empresas que podem operar lá?

O grupo de gaitas e danças da AGCH, Vagalume, atuando durante a
Semana das Letras Galegas numa praça de Alcalá de Henares

Ainda acrescentando: Sabem os senhores e senhoras quem foi que disse, «com o inglês temos possibilidade de nos comunicar com mais de quinhentos milhões de pessoas, com o castelão com trezentos milhões de pessoas e com o galego com mais de duzentas milhões de pessoas?» .Sabem quem foi? O próprio Presidente da Junta de Galiza, o Alberto Núñez Feijóo. Esse senhor, chefe de um gabinete que tenta apagar a língua com quem somos capazes de nos comunicar com mais de duzentas milhões de pessoas. Como é que uma maior capacidade de nos comunicar tira-nos direitos aos cidadãos da Galiza? E , ainda mais, despreza e rejeita milhares de vozes que na Galiza reclamam o seu direito inalienável a serem galegos e cidadãos de plenos direitos, como ainda aconteceu há três dias na Praça compostelana de Rajoi.

Ficava claro que o galego-português da Galiza não era apenas a língua que herdamos dos nossos avós e que, porém, ainda que só fosse por isso, temos a obriga de transmitir os nossos filhos com a maior qualidade de que sejamos capazes, embora extensa e útil como dissera o grande rianjeiro e, contudo perseguida à morte por aqueles que têm o dever todo de a defender e espalhar.

Nisto, um sócio, António Herrero, segoviano e sócio da Associação deu no cravo quando, numa breve mas esclarecedora intervenção discursou:

«Todos me conheceis. Sou castelhano de Segóvia e a minha língua natural é o castelão. Língua que amo verdadeiramente do coração.  E tenho inveja de vocês, que podem entender-se com mais outros duzentos milhões de pessoas e, ainda assim, há algumas pessoas do comum, cousa grave mas, muito mais importante e perigoso, quando dirigentes políticos, andam por apagar a língua com quem podem relacionar-se polo mundo fora. E, por mais voltas que lhe dou ao assunto, não alcanço enxergar qual a razão de para serem vocês mais ricos tenham de perder tão notável riqueza que, nós, castelhanos, infelizmente não possuímos. Por outro lado, nada justifica ou, polos menos eu não lhe vejo as razões, que para uma criança apreender outra língua tenha de perder a sua».

Por último, Salvador Guardià, catalão nado na Tarragona, que fora por várias legislaturas concelheiro de Esquerda Unida na cidade de Alcalá e apoiante da AGCH, instou a não perdermos os nossos sinais de identidade, a nos defender com unhas e dentes argumentando:

«Os humanos somos humanos entre outras cousas, por comunicarmos com os outros pola linguagem. Galegos, não percam a sua língua porque isso seria uma perda irreparável. Para serem no mundo chega-lhes bem serem como são. Não precisam de mudança nenhuma».

E antes de gozarem todos os assistentes do vinho, omeletes e empanadas preparadas como todo o amor por Ângelo, natural de Narão e  muito querido sócio da nossa Associação Galega, a coral Vagalume interpretou três cantigas populares e o Hino Nacional da Galiza que todos, com sumo respeito escuitaram ou cantaram a pé firme.

Aguardava já uma boa ceia junto com alguns representantes da AGCH, num restaurante que se demorou até as três da manhã... mais isso é já uma outra história que algum dia contaremos.

Parte do Coral Vagalume da AGCH antes de entoar o Hino Galego;
à esquerda o regente Ricardo Pizarro Torres

O domingo 23 de Maio, depois de uma festa comprida e alegre de sã irmandade e enquanto o sol ia deitando num sol-pôr de ouro-velho delicadas e dúbias claridades nos toros e folhas rumorosas do arvoredo da Ermida do Vale, mocinhos e raparigas da Associação Galega, afastando-se já para sua morada, iam entoando ao longe uma cantiga como um hino de esperança do presente e do futuro:

O galego que não fala
A língua da sua terra,
Nem sabe o que tem de seu
Nem é merecente dela.

 


 

NOTAS

  • [1] Este centro galego está sediado na cidade de Alcalá de Henares.
  • [2] A Comarca do Henares, contornada polo aro do rio homônimo, vai da cidade de Guadalajara, na comunidade de Castela-La Mancha, segundo o ordenamento jurídico atual, até a cidade de Coslada, quase às portas da cidade de Madrid. Com uma população de mais de setecentas mil pessoas é um agrupamento humano basicamente industrial que desde meados dos anos cinquenta do século passado foi acolhendo uma população emigrante onde os galegos e galegas não são poucos.
  • [3] A cidade de Alcalá de Henares tem por padroeira, segundo a tradição da Igreja Católica, A Virgem del Val.
  • [4] Festa à que vieram Diego Bernal, um dos responsáveis de Diário Liberdade, e o poeta Xurxo Fernández Martins, quem gentilmente me agasalhou com o formoso livro Marés nos pousos do café. Mostra de poetas de expressão galega em Madrid. A minha obriga  com eles pola sua simpatia e presença fique aqui.
  • [5] Vejam a lista de membros
  • [6] Vejam no Diário Liberdade a reportagem

José André Lôpez Gonçález- Desde há anos, bem que com alguma intermitência, a Associação Galega Corredor do Henares[1] sai às ruas desta bisbarra castelã a cavalo das comunidades autónomas de Madrid e de Castela-A Mancha[2] para celebrar e reivindicar a existência da cultura galega como povo diferenciado no mundo numa saudosa e sentida comunhão espiritual com a terra dos ancestrais.