Caso galego divulgado no II Congresso de Ciências, Tecnologias e Culturas de Santiago do Chile

Professor Higino Martins participou com a exposição “A Galiza é caso extremo”

Terça, 09 Novembro 2010 00:00

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Rosa Alegria, Higino Martins, Evandro Ouriques e Christina Carvalhom Pinto

PGL - Entre 29 de outubro e 2 de novembro passados, Santiago do Chile foi palco do II Congresso de Ciências, Tecnologias e Culturas organizado pela Internacional do Conhecimento na Universidade de Santiago de Chile. A Galiza teve representação na viva voz do professor Higino Martins, apresentando uma exposição sob o título “A Galiza é caso extremo”.

O macro-evento contou com 2500 exposições entre 60 simpósios espargidos num enorme e labiríntico Campus. Fora a abertura e encerramento na aula magna, as jornadas de até doze horas cingiram-se nos simpósios.

O professor Higino Martins participou no chamado Do Desenvolvimento para o Envolvimento, em português, cuja maioria de ponentes foram brasileiros, além de quatro chilenos, um colombiano, um alemão, um sueco, um catalão, e o próprio Martins chegado da Argentina.

A seguir, o PGL reproduz a exposiçom, ocorrida no dia 1 de novembro, que divulgou o caso galego e que teve o propósito, pelas palavras do professor Martins, “de fazer visível o que é invisível, com acento no emotivo”.

A Galiza é caso extremo

Higino Martins

Desde e para América Latina, venho a dizer que a Galiza é um caso extremo na história, na História com maiúscula e também nas histórias oficiais, por via de regra construídas para ocultar e salientar ad usum civium. O asserto talvez surpreenda, mas a meu ver anda na linha deste diálogo e no espírito interdisciplinar do encontro. Pensar o passado é inescusável para mirar o futuro – objeto destes encontros –, quando a história tem arrimado tantos erros irresolutos. O eivado passado da Galiza reflete muito longe e chega além-mar.

A Galiza é caso extremo. Resto atual da velha Kalláikia, o Noroeste da Hespéria, foi encruzilhada na fundação do Atlântico europeu, a vincular muitos povos. E também foi encruzilhada a irradiar por toda a península.

A respeito do Atlântico, hoje tem grande difusão a Teoria da Continuidade, que fala de autoctonia. Do canto calaico irradiariam as ondas da cultura céltica halstática. Eu prefiro a visão de Colin Renfrew, mais atenta à difusão das línguas indo-europeias, e que lá permite ver uns modelos de expansão agrícola que nós os americanos do sul temos presenciado nos nossos dias. Com a vantagem para a difusão neolítica da agricultura de ter sido muito mais pacífica e otimista do que outras das que se vieram depois.

Na península foi reduto final da resistência a Roma. Ignora-se que ástures, na língua local, significa “[calaicos] orientais”, e tenta-se ignorar a lúcida tese de Schulten que vê o monte Medúlio na vizinhança de Tui. Muito depois foi foco e abrigo dos que resistiam a onda cultural vinda do Oriente com o Islã. Na Idade Média foi o Reino de Leão, que seria matriz de Portugal e de Castela.

Mito vivo na Chanson de Roland, o seu Sul brotou e transbordou os oceanos com o nome de Portugal. No entanto, o Norte – dois terços do território, o que guardou mil anos a língua pré-romana – ficou preso de um poder distante, de outra língua, e logo enfeitiçado num sono de séculos como colónia interior.

Inicia-se aí um curso de substituição linguística com a extirpação sucessiva das classes dirigentes de cultura local (nobreza, comunidade judia, abades e priores), ao cabo do qual o país ficou reduzido quase a ermo cultural. O século XIX vê a língua acantoada no lar dos lavradores e marinheiros. Estagnada, isolada das funções ditas nobres, deu fragmentada e ferrada com o estigma de rusticidade.

O fruto foi esquizofrenia social e sinais de animação suspensa. Sem consciência clara da identidade linguística, o lavrador sabia que flutuava em graus diversos entre dous polos: falar bem e falar mal. Mau era o falar do lar e o de comunicar os afetos. O falar bem servia a defender-se no mundo exterior. Os pais hesitavam no dilema de por amor não induzir nos filhos o uso da língua dos amores.

É milagre não ter desaparecido antes. Ter durado é parte do mistério geral da linguagem, que a linguística nos diversos ramos dista de ter sondado a fundo. Sabemos sim linguagem e pensamento serem duas caras de um mesmo fenómeno e que este define ao ser humano. Falar é ser humano, e ser humano é falar. E não ter segurança na língua própria diminui a condição humana. A par, ter mais de uma língua multiplica a capacidade.

Ora, a língua continua a ser misteriosa. Tem decerto algo de semente. Como a diminuta semente, vive invisível o mistério da sua potencialidade, o que presta base às esperanças.

À margem da fé e da esperança, a Galiza parece reeditar a trágica sina dos derradeiros moicanos. Será a sua? A meu ver, o dado diferente, crítico, é a Galiza não estar isolada, apesar do tempo decorrido desde que se sumiu nos males. Um grande domínio linguístico, em crescimento nítido, há que que não pode ser alheio à sua fortuna, o que dela brotou e ao que ela ainda pertence. Se a língua morrer na Galiza, a imaginação coletiva desse domínio ficaria ferida talvez sem remédio.

A ficção histórica sói ser condenada, mas eu sinto-me livre de peias académicas. Muitas vezes tenho dado em pensar no que teria acontecido se o Reino de Navarra tivesse sido conquistado pela França em vez de sê-lo por Castela. De facto, a França pretendeu-o longo tempo. Suponhamos os passos da história terem ido pelas vias sabidas. Navarra com os arredores, a Rioxa e Burgos, berços dos castelhano, hoje falariam uma meia-língua, a do coração, ao amor do lar. As funções da comunicação mais estimadas desenvolver-se-iam em francês. A ferida seria lambida, oculta, disfarçada, matizada e contextualizada com atenuantes vários, mas subsistiria na dor que solicitaria esses remédios.

Por vão que o exercício seja epistemologicamente, esporeia a imaginação e serve para compreender vivências. E um direito há que o ser humano não tem: o de abster-se do esforço por compreender as razões do Outro. O diálogo que não inclua tal convicção será mero fenómeno físico, confronto estéril de frutos só estatísticos, não o recíproco alimentar de mentes lúcidas.

Se a língua da Galiza morrer, o mesmo futuro dos povos coirmãos envolvidos na questão ficaria ferido sem remédio, preso numa irritação difícil de curar. Assim se adiaria sine die um futuro de harmonia para o conjunto desses domínios vizinhos e coirmãos, que juntos pronto chegarão a mais de mil milhões de humanos.