Crónica da apresentação do ICBG na Casa do Brasil de Madri

O passado sábado 23 de outubro a Casa do Brasil de Madri tornou-se uma nau de amizade, gratidão e carinho mútuo entre galegos e brasileiros

Sexta, 05 Novembro 2010 08:56

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Jurjo F. Martins (*) - Dizia Pessoa «Navegar é preciso, viver não é preciso». É esta a principal entre as razões que nos decidiram a começar este nosso percurso, porque precisamos de navegar, sentir o sal nas nossas faces, o vento que uiva entre nós e o infinito.

É por isso que resolvemos deixar a um lado os nossos costumes, os nossos pequenos hábitos quotidianos, os assuntos urgentes… e sair a mar aberto, com os perigos que isto envolve, pois como diz Eugênio de Andrade no seu poema «As Gaivotas»:

As gaivotas. Vão e vêm. Entram
pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim, o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
olhar.

As varinas e os marujos do Instituto Cultural Brasil-Galiza realizamos a nossa festa de inauguração num evento em que participaram amigas e amigos de ambas as margens do Atlântico. A nossa proa, promover o conhecimento mútuo entre o Brasil e a Galiza, abriu-se passo entre as águas duma tradição, história e a língua comuns.

Às 19 horas começou um ato que foi toda uma metáfora da nossa viagem pela lusofonia: pensado por galegas e galegos com a ajuda e imprescindível colaboração do pessoal da Casa do Brasil, foi  possível graças a que o voo suspendido em Santiago de Compostela por causa do nevoeiro, descolou finalmente da cidade portuguesa do Porto com parte dos músicos participantes no seu interior.

Mudamos um bocado a direção do nosso navio e o cocktail de encerramento converteu-se em cocktail de abertura. A rosa-dos-ventos levou-nos a bom porto, já que o tempo que precisaram os músicos para fazer a prova de som, arranjar os cabos da embarcação e soltar as amarras, serviu para um intenso convívio entre o público assistente. Como nas ruas de uma cidade banhada pelo mar, os sons da nossa fala nas suas diversas cores e sotaques soaram como uma suave brisa que convidava a deixar-se levar pelo tremer das velas, pela maré de encantos em que, como diz o moçambicano João Afonso, «tudo é azul/ sem fronteiras a dividir corações».

A primeira intervenção, a do diretor da Casa do Brasil, o senhor Cássio Roberto referiu-se a nós com indissimulável cumplicidade e agarimo por ajudarmos a «fortalecer os laços culturais existentes entre a Galiza e o Brasil».  O seu olhar espreitava o horizonte a aproximar e unir correntes. Parecia querer-nos aconselhar «Mares calmos não fazem bons marinheiros».

A nossa presidente galega do ICBG, Concha Rousia, agradeceu em nome próprio, e em nome da nossa presidente no Brasil, Silmara P. Annunciato, à Casa do Brasil e especialmente ao seu presidente, o senhor Cássio Roberto, a sua amabilidade ao abrir-nos as portas desse local de encanto, assim como aos promotores do evento: a Casa das Crechas de Santiago de Compostela e a Associação Pró-AGLP.

Aliás, fez um bocadinho de história e lembrou como a nossa aliança nasceu nos Colóquios da Lusofonia de 2008 nos mágicos Açores e como aquela primeira aliança se transformou em setembro de 2009  na organização que hoje somos, o ICBG, que foi apresentado pela primeira vez no Brasil em março deste mesmo ano no Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), em Florianópolis.

Falou também dos nossos objetivos, simples mas muito ambiciosos: «que o Brasil e a Galiza, que de forma natural se entendem, estreitem os seus laços e se enriqueçam mutuamente». A seguir citou os seus amigos poetas, um de Curitiba «o que acontece com o Brasil e a Galiza é amor a primeira vista», e um outro galego «a Galiza tem passado amais e o Brasil tem futuro amais, é por isso que se entendem...». Acabou a lembrar-nos as suas palavras o dia da inauguração em SC «juntos, a Galiza e o Brasil formam uma eternidade de passado e futuro» e com o lindo poema que enviou especialmente para a ocasião a nossa presidente no Brasil, intitulado “Minho”.

Do luminoso verdor do rio passamos ao fascinante pôr-do-sol no mar e deixamos porto, pois, como uma espécie de Directorio Revolucionario Ibérico de Liberación, aquela organização formada por galegos e portugueses exilados para lutarem contra as ditaduras de Salazar e Franco, que entre o dia 22 de janeiro e o dia 4 de fevereiro de 1961 sequestraram o transatlântico português Santa Maria, que fazia a rota Caracas-Lisboa-Vigo, com 568 passageiros a bordo, com o propósito de chamar a atenção mundial sobre a situação que se vivia em Portugal e Espanha, rebaptizado o pacote como Santa Liberdade.

Após conversas com o governo brasileiro, os membros do DRIL depuseram armas e conduziram o navio a Recife, sendo reconhecidos como refugiados políticos. O galego José Velo foi co-secretário geral junto ao português Humberto Delgado. Ao chegarem, Velo assenta-se com o seu filho Vítor na cidade de São Paulo, onde funda a livraria Nós em 1962 e em 1966 a Editora Nós, que foi a primeira em publicar no Brasil uma antologia de Rosália de Castro. Em 1971 fundou a revista mensal Paraiso 7 dias.

Nesta ocasião, a tripulação formada por Ana Cibeira, Begonha Regueiro, Rafa Yáñez, Concha Rousia e por mim próprio encetou um recital poético-musical em que as vozes e a expressão foram embaladas pelas ondas e pela afinada guitarra de Sérgio Tannus: momentos de emoção, de silêncio cúmplice, de gesto intenso, de lutas inadiáveis.

Jurjo, Rafa, Begonha e Ana

O curmão de José Velo, Carlos, figura mítica do cinema galego e após a Guerra Civil, emigrado em México durante décadas, escreve em 1968, no derradeiro número da revista Vieiros um texto intitulado “Imaxes para unha película”, uns apontamentos recolhidos por um cosmonauta brasileiro chamado Comandante Guevara, no ano 2368. As notas parecem feitas por um cineasta primitivo, nos tempos em que se gravavam imagens e vozes em fitas de celulose, conservando-se numa ola de barro preto, originário da Atlântida galego-portuguesa.

Concha Rousia recitando

Rumo a essa Atlântida continuou a nossa passagem, e no caminho aportamos em cais nos quatro cantos do mundo: Luanda, Niterói, Mos, Santiago de Compostela...  A saudade que encheu as nossas velas não foi triste, no entanto pareceu uma mistura activa e sem preconceitos de risos, de baile, de esperança, de canções que voam por cima das alfândegas.

Saudade, só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distancia e amor. A palavra vem do latim solitas, solitatis (solidão) na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influencia de "saúde" e "saudar". Esta palavra comum a portugueses, brasileiros, africanos e galegos, igual que a cultura partilhada e levada ao Novo Mundo polos navegantes lusos, é uma das mais presentes na poesia e também na música popular. Define a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, cousas, estados ou ações.

Em Portugal, o fado, oriundo do latim fatum, destino, está diretamente associado com este sentimento. Do mesmo modo, a sodade cabo-verdiana está intimamente ligada ao género musical da morna. No Brasil, esse sentimento está muito retratado no samba de fossa e na bossa nova. Na Galiza, além do termo saudade, existe o termo soedade, e soidade, muito comum na obra de Rosália de Castro; e a nossa morrinha, associada sobretudo ao afastamento do país pelos emigrantes.

Em todos estes lugares embarcaram os músicos que fazem parte de Brasileg@s: Uxía, verdadeira capitã nesta nossa singradura, que pelo talento natural e sereno da sua voz, a sua generosidade e simpatia viaja eternamente no coração das galegas e dos galegos; o sempre sorridente, elegante e virtuoso na música e no viver, Sérgio Tannus; o delicado e firme feiticeiro da palavra e o som, Fred Martins; junto a angolana Aline Frazão, que seduz com a sua paixão por sentir e cantar, com o seu timbre irreverente e salgado; e o brasileiro Leo Minax, intérprete exigente e inquieto, em permanente estado de graça.

Aline Frazão em concerto

Estas mulheres e homens do mar conseguiram essa tarde-noite o seu objetivo: a fusão total entre as duas almas -a galega e a brasileira- numa comunhão que nunca antes tinha existido e que é possível pelo conhecimento e amizade mútuos. Fundiram os diversos géneros musicais e ritmos filhos da galeguia como se fossem da família: samba, morna, choro, alalá, rumba e baião aproveitando o legado musical que os galegos levaram além mar. Mesmo os golfinhos, os peixes voadores e as sedutoras sereias bateram palmas e mexeram os seus corpos de escamas, fazendo próprio aquilo que disse Emma Goldman: «Se não posso dançar não é minha revolução».

Atuação de Brasileg@s

O pessoal já está a pedir mais e mais. Gostam de como somos, gostam da energia que estamos a transmitir. Brasileiros, galegos e gentes doutras partes do mundo queriam continuar a festa. Ninguém queria ir embora.

Para rematar, gostaria de mencionar Carlos Drummond de Andrade, o poeta maior brasileiro, que, em seu poema "Canção Amiga", musicado por Milton Nascimento, diz:

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo.
E saúdo velhos amigos.

Os povos Galego e Brasileiro não deixam de ser velhos amigos que estão a (re)encontrar-se. Que a amizade encha de alegria os nossos corações.

Um imenso obrigado ao Ernesto Vázquez Souza pela sua ajuda desisteressada na organização, e à Adriana e o Demián, que estiveram a gravar o evento sem nengúm tipo de remuneração. Aliás ao José Javier Ventimiglia e à sua equipa pelo seu bom trabalho no som.

Foi uma honra para mim ser o encarregado de organizar e de conduzir esta bem sucedida apresentação. Mas o leme foi partilhado por todas as amigas e amigos que acreditam/os neste projeto. A amurada do vosso amor é o nosso parapeito. O sonho deve continuar a navegar. Como dizia Saramago: «Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo». Obrigado a tod@s pelo vosso apoio e até a próxima!

 



(*) Jurjo F. Martins, Delegado do ICBG em Madri, 25 de outubro de 2010

 

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