A Nossa Língua a Debate na Fundaçom Artábria

Representantes da Artábria, da Mesa e da AGAL participaram no acto

Quarta, 22 Outubro 2008 06:00

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Cartaz anunciador do evento

Alexandre Banhos - O passado dia 15 de Outubro na sede da Fundaçom Artábria de Ferrol, e dentro dos actos de comemoraçom do décimo aniversário do nascimento desta fundaçom, tivo lugar um debate sobre A Situaçom da Nossa Língua: Presente e Futuro.

O acto, agendado para as 19h30, foi de tanto interesse para o público presente que durou até bem passadas as 11h00 da noite, devido às múltiplas questões que o público foi pondo a debate, e tendo em conta ademais a situaçom realmente delicada da língua nacional da Galiza na cidade de Ferrol, que informou nom poucas das questões. Bom exemplo disso foi o grande número de neo-falantes que se achavam e se afirmavam como tais entre o público; o próprio apresentador afirmou-se um neo-falante resultado do trabalho que instituições como Artábria e outras fazem.

Artábria, A Mesa e AGAL no debate

Apresentou os partícipes e moderou o debate Ernesto Dias, sendo os relatores por ordem de intervençom, Maurício Castro, representando a Artábria, Fran Rei, representando  A Mesa pola Normalización Lingüística, e José Manuel Outeiro a AGAL. Pola sua banda a RAG nem respondeu ao convite nem deu sinais de vida aos chamados da Artábria.

Antes da comunicaçom de Maurício Castro, este apresentou um documento correspondente a umha reportagem de Informe Semanal da Televisom pública espanhola de princípios dos anos 90, sobre o espanhol de Porto Rico, mui ilustrativo do que viria a continuaçom a explicar.

Umha fita para começar

No ano 92 o governador Roselló de Porto-Rico (estado associado aos EUA desde 1902), apresenta umha lei ao órgão legislativo de Porto Rico que, foi aprovada, declarando o espanhol única língua oficial de Porto-Rico.

Esse acordo deu lugar a vários factos no estado espanhol, como a entrega no ano 92 do prémio Príncipe de Astúrias ao povo de Porto Rico; diversos programas das televisões espanholas onde se gabava essa decisom pola sua transcendência para o futuro do espanhol nesta ilha, frente à ameaça devoradora do bilinguismo com o inglês; e umha boa série de artigos jornalísticos que exprimiam a sua satisfaçom pola medida.

Esta medida legislativa durou exactamente um ano e nove meses, até que um novo governo de Porto Rico impulsou no órgão legislativo o restabelecimento da oficialidade da língua inglesa junto à espanhola.

A reportagem de Informe Semanai informava das manifestações em Porto Rico contra a oficializaçom do inglês, e ainda que se tratava de apresentar os factos da forma neutral, com intervenções dos defensores da cooficialidade do inglês e os contrários, o espectador espanhol ia ficar com a sensaçom íntima que para a sua língua – a sua pátria em certa medida, o seu jeito de ver e estar no mundo, aquela nom era uma boa notícia.

Os argumentos em prol da oficializaçom do inglês eram:

  • O inglês é oficial desde 1902 em que o Porto Rico passou a ser estado associado, e deve continuar na mesma.
  • O inglês abre muitas portas e é umha fonte de benefícios certos para as pessoas, por mais que amemos o espanhol que é a nossa língua familiar.
  • A realidade de Porto-Rico é que 80 per cento das pessoas fam a sua vida em espanhol e isso nom vai mudar, mas há vinte per cento que a fam em inglês e ademais esses 20 per cento nom sabem espanhol; há tamém muitos militares e funcionários americanos que merecem o nosso respeito.
  • Formamos parte dos EUA, muitos porto-riquenhos vivem noutros estados da Uniom Americana e isto pode ser fonte de dificuldades.
  • Porto-Rico recebe muitos milhares de dólares dos EUA e nom tem sentido dizer-lhes que a nossa única língua oficial tem que ser o espanhol.
  • Os porto-riquenhos todos aprendemos inglês e isso nom afecta o carinho e amor que temos ao espanhol.
  • O bilinguismo é a grande riqueza de Porto-Rico e medidas como as aprovadas pom em risco essa riqueza de que gozamos.

Os defensores de oficializar só o espanhol, que repetidamente víamos em numerosíssimas manifestações e em declarações, afirmavam:

  • Declarar o espanhol única língua oficial nom é igual a proibir à gente de Porto-Rico aprender inglês, pois ninguém estava por proibir o inglês.
  • A identidade de Porto-Rico exprime-se numha língua, o espanhol (língua territorial), mas de facto sem ser a única língua oficial: uma pessoa pode morar em Porto-Rico sem saber espanhol, mas é impossível sem saber inglês ter em todos os lados direitos plenos (nom reconhecimento pleno dos direitos dos falantes de espanhol).
  • E diversas questões a ver com a situaçom de dominaçom e submetimento da ilha polos Estados Unidos, do que eram umha grande base militar, para além de outras cousas.

Maurício Castro dum jeito muito ameno, trouxo as questões que estavam na fita desse programa televisivo espanhol à realidade galega e ao paralelismo das mensagens com o que se estava vivendo no Porto-Rico, e como a televisom espanhola destacava factos como esse "prémio Príncipe de Astúrias tam merecido e necessário", "por levarem medidas imprescindíveis para um futuro pleno de sucesso da sua língua em Porto-Rico".

Porém quando se trata dos problemas das línguas com políticas de menorizaçom no estado espanhol, nessas mesmas TVs, todo som cantos à riqueza do bilingüismo, ao bom que é o respeito dos que nom sabem a língua "minorada", pois os espanhóis tenhem o direito a serem atendidos sempre nessa língua (a comum que todos sabemos -escola nacional espanhola garante-) e o resto é falta de respeito e imposiçom (o mundo ao revês).

Mas os dos EUA, com relaçom aos espanhóis, ainda saem ganhado em educaçom democrática, pois nem criam modelos lingüísticos separadores, como fazem os espanhóis frente ao galego internacional, ou como figérom no império Austro-Húngaro com vários povos e na moderna Áustria com a Caríntia; nem proíbem de partida nada (legislações, referendos...).

Repararmos no positivo e no bilinguismo certo

Fran Rei, da A Mesa pola Normalización Lingüística, focou o assunto de umha perspectiva em que se iam valorar os tópicos e as atitudes frente à língua; nom ia entrar na realidade dos dados linguísticos na Galiza, infelizmente nom mui positivos, pois o mapa sócio-linguístico está aí e o que se recolhe nele som descidas mui significativos do número de falantes em mui curto tempo, como é o espaço que vai de 1999 a 2004.

Sobre a língua existe umha perspectiva pessimista, que fala da sua pouca utilidade prática, mas o discurso pessimista só nos leva a um caminho sem retorno, e a estarmos sempre a lamentar-nos, dixo Fran Rei.

Sobre a perspectiva optimista, ou seja, a perspectiva oficial, explicou que ela fala em que é preciso repararmos nos 30 anos de normalizaçom; em que o galego chegou a todo lugar e depois de chegarmos a isso agora o novo Decreto 50/50 é a 'salvaçom'; em que temos a geraçom mais formada na nossa língua, etc. Tudo isso, ainda que haja também certidumes de pouco valor prático.

Fran Rei, a seguir, bateu o ponto em que o galego já é língua de poder e é preciso reconhecê-lo. A aceitaçom das teses bilingüistas nom pode ser neste momento mais que um facto certo, pois temos que reconhecer que frente aos 40 anos (ditadura) temos um espaço público do galego com certo sucesso; tudo isso sem deixarmos de ser realistas, embora no aspecto teórico e legal estejamos melhor que antes, nas outras evidências: número de falantes, espaço que ocupa o galego nos meios de comunicaçom jornalístico (v.g. La Voz), a situaçom é pior que a que havia há 30 anos na segunda parte da década de 70.

Fran Rei resumiu a sua intervençom e a posiçom da Mesa com a seguinte frase: «Desde a Mesa temos claro que se a língua nom estiver num papel central no agir do país, outro tipo de ritos nom fam sentido».

O necessário avanço do movimento normalizador e o conflito

José Manuel Outeiro, da AGAL, apresentou umha série de reflexões para contribuir ao posterior debate. Começou opondo os termos normalizaçom e "bilingüismo harmónico". O movimento de normalizaçom lingüística denuncia a inferiorizaçom e subordinaçom do galego e da comunidade lingüística galega, enquanto que os sectores comprometidos com essa inferiorizaçom e subordinaçom ocultam a discriminaçom com o lema "bilingüismo harmónico", principal marca para combater o movimento de normalizaçom lingüística, pois fai referência à existência de duas línguas, e oculta o conflito e hierarquizaçom entre elas, como nas sociedades racistas se oculta a hierarquizaçom com lemas alternativos como "integraçom racial". Expujo também como a assimilaçom lingüística é sempre umha integraçom subordinada.

A continuaçom explicou os dous horizontes possíveis: a coesom social que garante a normalizaçom, com a consciência de comunidade lingüística, ou o conflito, a permanência na subordinaçom e a discriminaçom, manifestados na Galiza no auto-ódio e a galegofobia.

Defendeu, por tudo isso, que o fundamental para o movimento normalizador é apoiar a dignificaçom e restituiçom de usos sociais da língua, demandando os direitos lingüísticos galegos e exigindo as políticas normalizadoras por parte dos poderes públicos. A pressom social em prol da normalizaçom terá que provocar mudanças de políticas e mudanças legislativas que ainda nom se estám a produzir. Mas também é necessário revisar a tendência a subordinar as dinámicas do movimento normalizador aos interesses partidários.

Salientou também o modelo de língua como um elemento mais para contribuir à dignificaçom social do galego, para o que é fulcral umha perspectiva reintegracionista, já que o modelo castelhanizado mantém o carácter inferiorizado e subordinado do galego.

Insistiu em que o movimento normalizador é um movimento cívido pola conquista dos direitos lingüísticos, que segue o mesmo esquema que outros movimentos similares como o feminismo, os movimentos anti-racistas e contra a xenofobia, o dos direitos de gays e lésbicas, etc, e que portanto é necessário criar vínculos de fortalecimento mútuo entre o movimento normalizador e esses outros movimentos.

Neste aspecto foi crítico com a forma como assistimos, nos últimos anos, a mudanças legislativas provocadas por esses outros movimentos cívicos, enquanto que o movimento normalizador nom conseguiu avançar de forma similar. O supremacismo heterossexista, racista, ou machista som combatidos com mudanças de políticas e mudanças legislativas, inclusive no código penal, mas o supremacismo castelhano continua totalmente instalado na sociedade.

Expujo também que o movimento normalizador deve contar inclusive com os castelhanófonos, ainda que sempre encorajando ao uso do galego, mas contando cos castelhanófonos que estám a favor do estabelecimento do galego como língua normalizada na Galiza e que poderám demandar também as políticas normalizadoras, ou nom opor-se a elas.

Finalmente, assinalou algumhas novidades importantes dos últimos tempos, salientando o desaparecimento do fraguismo, que nom terá sido ainda suficientemente assumido e aproveitado, e outras novidades que pretendem assegurar a manutençom das discriminações e ocultar a hierarquizaçom: o reforço da galegofobia aberta com grupos como Galicia Bilíngüe; os convites ao enfrentamento social, exemplificada nas mensagens que consideram o galego interesse exclusivo dos galego-falantes e nom do povo galego; e as advertências públicas contra o conflito. Neste último ponto assinalou que o conflito é fundamental para conseguir avanços, pois a alternativa é a manutençom da discriminaçom, e apontou como os grupos sociais comprometidos com a hierarquizaçom sempre fam este tipo de advertências de conflito para evitar avanços no reconhecimento dos direitos.

Posteriormente produziu-se um debate em que os membros do público levantárom novas questões como a importáncia do ensino para avançar na normalizaçom ou as críticas à errática política de ajudas à normalizaçom, nomeadamente aos meios de comunicaçom.