O Mariscal

Ópera galega reestreada em versão de concerto sob a batuta do diretor e compositor Joám Trilho Pêres, académico da AGLP

Segunda, 20 Dezembro 2010 00:00

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Isabel Rei Sanmartim - Era nos tempos da espada e o brasão. Uma maldição tinha caído sobre o país e a dor que padeciam as gentes fermentava em amargos pesares. Os rios desciam roxos e as brêtemas agoiravam a cada jornada maliagens e desgraças.

 

O forte Marechal vestia os seus carvalhos com a pele dos vassalos rebeldes e brindava em cuncas de ouro celebrando a saúde dos seus primos, os Reis Católicos, e dos primos dos seus primos, todos fortes e católicos senhores. Até que numa fria manhã de dezembro os mesmos fizeram rodar a sua cabeça pelo tapete pétreo de Mondonhedo.

Depois os primos passaram a ocupar o lugar do Marechal. As gentes que os ajudaram continuaram a ser governadas por eles. E às noites sentiam o duro brilho do gume bater nas portas, como se o Marechal regresasse do além para levá-los subitamente aos ermos de Castela ou da Flandres.

Mas uma vaga curativa de canções e romances estendeu-se logo por todo o país e durante séculos, de feira em feira, e de romaria em romaria, as bocas sorridentes dos anónimos troveiros explicaram o acontecido em rapsódicos arpejos a ludiar os sofrimentos daquelas altas e baixas personagens:

 

...de mim a triste Frouseira

que por traição foi vendida

derrubada na ribeira

que jamais se viu vencida...

E tempo depois o poeta Cabanilhas fez os seus versos, que é da música do povo da que mais se aprende. Se, como dizia uma, o povo é a gente, quem é poeta da gente é porque bebeu dos cantares populares.

Hoje quase ninguém se lembra do Marechal, acontece diverso com os católicos regentes, protagonistas em todos os livros de história. Mas no fundo não se sabe com certeza o que de verdade aconteceu entre Toledo e a Frouseira. Ficam só as melodias testemunhando a boca da gente, essa boca que nunca cala apesar de não sempre ouvirmos a sua voz. Viva, desliza a sua mensagem pelos corredores do tempo e sussurra os segredos de outras idades. Preciso é estar atento para entender a voz que sempre canta.

Ramão Cabanilhas esteve atento quando junto com Antão Vilar Ponte escreveu a magnífica obra de teatro O Mariscal: lenda trágica em verso, obra mestra do teatro galego, publicada primeiro na Lar em agosto de 1926, e depois em segunda edição pela Nós também de Ângelo Casal, em abril de 1929.

 

Capas de Lar (1926) e Nós (1929)

 

A versão operística, realizada pelo arquiteto e músico Eduardo Rodrigues Lousada (1886-1973) foi estreada em 1929 e a partitura nunca foi editada. A representação, em que colaboravam mais de setenta músicos, visitou várias cidades galegas. A ópera, grandiosa, em estilo wagneriano, com instantes de expressionismo galego e longos recitativos, foi representada no seu dia por cantores e intérpretes amadores num ambiente rico em atividade artística, operística, teatral, política e literária, ao tempo que transido por uma forte oposição à divulgação de obras na língua nativa.

Foi assim que a ópera encontrou muitas dificuldades para a sua estreia. E não tanto pelas exigências do libreto quanto por essa mão escura que esmaga as oportunidades de mostrar no seu esplendor a opinião dos poetas.

O libreto foi elaborado pelo compositor da música seleccionando fragmentos da obra original e os cenários da representação foram desenhados por Camilo Dias Valinho. Numa resenha do boletim Nós pode ler-se, da provável mão de R. Outeiro Pedraio, uma síntese do trabalho coletivo que a ópera significou:

 

«O poeta trabalhou-na em versos de flama, de metal e de sangue; Vilar deu-lhe o ritmo cénico preciso pra fazê-la sentir pelo público de hoje e de amanhã. Lousada, a fundura e a perspetiva orquestral; Camilo, a plástica das paisagens e dos interiores».

A estreia do Mariscal, Nós, Ourense, n.º 66, 15.06.1929

A estreia foi um sucesso que provocou excelentes críticas na imprensa da época. Porém, depois da gira inicial não voltou a haver mais representações. Só alguma interpretação isolada em versão de concerto anos mais tarde. Para a representação de teatro também houve que aguardar um tempinho, até 1994, ano em que se realizou na modalidade de teatro de bonecos, no IES Francisco Assorei de Cambados.

Parece que a figura do Marechal galeguista ao estilo das Irmandades da Fala não era do gosto das autoridades de nenhuma época entre 1929 e 1994. Seria pelo sambenito de anti-castelhano que lhe puseram a começo do século? Pela sona popular que atingiu o massacre da Frouseira? Por causa do inevitável parentesco do Marechal com os seus degoladores? Ou seria pelas exortações galeguistas de algumas partes da obra que inflamavam as platéias? Em qualquer caso, e apesar de que ainda há maliagens nos ventos do Leste e os notáveis brindam em copos de ouro à saúde dos seus primos, justo é dizer que em 2010 conseguiu-se, depois de oitenta e um anos, reestrear a ópera.

Aconteceu nos passados dias 18 e 19 de novembro do ainda presente ano 2010. A ópera galega O Mariscal apresentou-se em Vigo e na Crunha, em versão de concerto. A interpretação, que contou com a colaboração de três cantores galegos, Teresa Nóvoa (soprano), Pablo Carbalhido (tenor) e Xavier Franco (barítono), foi realizada pela Orquestra Sinfónica de Galiza sob a batuta do diretor e compositor galego Joám Trilho Pêres.

 

Nota: a versão de concerto de uma ópera é aquela em que faltam os elementos da representação teatral: encenações, vestuário e interpretação das personagens. Os músicos situam-se no palco como num concerto normal e interpretam uma seleção de fragmentos da obra original. Neste caso Joám Trilho realizou essa seleção sobre a obra musical de Lousada.

 

 

Fragmento da redução para piano do Prelúdio da ópera O Mariscal em edição particular de Joám Trilho

(Clicar em cima da imagem para ampliar)

 

Caia a chuva a caldeiros quando no Teatro Colom da Crunha começava o concerto. As madeiras policromadas da sala fundiam-se com as brumas do palco, ressaltando os músicos iluminados pelos focos e a curiosidade dos presentes.

 

«Ainda há ocos no teatro. Que se lhe vai fazer? Apesar dos jornais e dos anúncios, muita gente alfabeta tem os sensos fechados. Por outra parte, a gente bien... Mas somos tão rotineiros que inda nos lembramos da gente bien

A estreia do Mariscal, Nós, Ourense, n.º 66, 15.06.1929

Também desta volta muita gente alfabeta continuava a ter os sensos fechados. O teatro não estava cheio. Contudo, como afirmava noutro lugar Vilar Ponte, o público era seleto e eu diria que numeroso. Mas para não sermos tão rotineiros, não lembraremos a gente bien.

A seguir do prelúdio orquestral, vibrava a voz do barítono que punha som à voz do poeta, encarnando o cego trovador da grande história:

 

Em tempos romeiro, e em tempos soldado,

de moças belidas segrel namorado,

cantor de façanhas ao modo troveiro,

dos velhos rapsodos sou filho e herdeiro...

Ao chegar o descanso, depois da despedida entre Elvira, vassala galega, e Amaro, soldado castelhano encarregado da traição ao Mariscal, o público deixou repousar as intrigas pacegas e abandonou os assentos e o silêncio: No libreto, as duas colunas estavam cheias de gralhas em ambas as línguas, publicadas em papel satinado com a ajuda de numerosos e famosos patrocinadores institucionais. A evidência ficava ainda maior ao ouvir os cantores, pois eles pronunciavam as palavras certas que, por cima, toda a gente entendia. Mas no libreto as saudades viravam “saudables” e, naturalmente, “saludables”, em vez dos velhos rapsodos havia “dous lanuxes rapsodos”, no paço ficou “non pazo”, e assim por diante. Era como se os prístinos versos de Cabanilhas tivessem passado pela trituradora de vários corretores automáticos. Quem seria o responsável da desfeita?

Na segunda parte fizeram fragmentos do segundo e do terceiro ato, onde se ouviu a formosa ária de Joana, filha do nobre de Castrodouro, e acabou-se com a intervenção da céltica Velha, a representar a sabedoria do muito antigo e a abençoar com Graal pagão os que iam ser vítimas da justiça católica e real. No fim do concerto o público desatou a aplaudir e diretor e cantores saíram ao palco várias vezes, partilhando as honras com os integrantes da excelente orquestra.

No meio dos bravos o diretor levantou por duas vezes a partitura de Lousada em reconhecimento do autor, sem reparar em que, com esse gesto, partitura e diretor elevavam-se mutuamente sobre o acompassado bater do público. Joám Trilho pretendia, como Vilar Ponte em 1929, passar despercebido perante a calorosa salva de palmas que agradecia a sua cuidadosa interpretação e empenho na organização do concerto.

Já de volta para Compostela, sob a chuva incesante que caia da noite negra, entanto rebuliam no corpo as impressões do momento pareceu-me volver a ouvir a voz da soprano no último alalá, que na versão encenada seria cantado fora do cenário, como caminhando para um lugar distante a modo de despedida:

 

Manselinho branco orvalho

que pôs báguas na erva mol...

Orvalhinho que o ar abala

como um pano que di «adiós»...

Os sucessos de 1483 tiveram muitas repercussões na Galiza. E não foi a menor a de que poetas, músicos e artistas, conhecidos e anónimos, enxugaram através dos tempos aqueles prantos com a sua voz inextinguível.

Mas, é que alguém tinha que cantá-lo...

 

Quero agradecer a Joám Trilho, maestro e académico da AGLP, o ter-me recebido na sua casa e conversado sobre o seu trabalho na ópera de Lousada, bem como toda a informação que amavelmente me forneceu.

Para uma melhor e maior explicação de todos os acontecimentos relacionados com esta obra veja-se o livro de Emilio Xosé Ínsua López Sobre O Mariscal, de Cabanillas e Villar Ponte, UDC, 2005, de onde tirei grande parte dos dados referidos nesta resenha.